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Aiuruoca - Notícias
18/10/2012 15h13

Personagens que fazem parte da Nossa História - Letícia Giffoni e David Giffoni

Personagens que fazem parte da Nossa História - Letícia Giffoni e David Giffoni

 

Todo amor nasce de um sonho e também de uma saudade”. Foi esse grande amor que há mais de um século levou um jovem sonhador a fundar a Corporação Musical Santa Cecília. David Giffoni tinha então 25 anos, pois nascera em 1868 na cidade de Marina de Camerotta, na Itália, exatamente no ano da emancipação política de Aiuruoca. Logo aos 18 anos teve de partir de sua pátria e do aconchego do lar. Deixando por lá seus pais Luiz Giffoni e Rosália Ottati, veio para o Brasil com os irmãos Pedro, Josué e Antonio, fugindo das lutas geradas pelos conflitos que sacudiam sua pátria. Lá ficava seu berço, o ninho da sua infância, onde ouvira as primeiras melodias e aprendera amar a música. E assim chegou ao Rio de Janeiro, apavorado com o calor, buscou um clima mais ameno, vindo para Valença. Mas queria mesmo a região das montanhas de Minas, e chegou em Liberdade para depois se firmar definitivamente em Aiuruoca. Aqui Plantou seu lar casando com Ernestina Celina da Silveira e tiveram muitos filhos. Estes foram chegando e crescendo entre as montanhas e rios, embalados pela música. A corporação Musical Stª. Cecília também crescia. O fundador e Diretor David Giffoni era também o regente e maestro. Seus primeiros componentes foram Major Benfica, José Amandio da Silveira, Gabriel Benfica e outros. Era a nota alta em festas religiosas e civis. Na semana santa, suas músicas em latim tocavam profundamente a piedade dos fiéis e no domingo da ressurreição seus dobrados faziam vibrar os corações com entusiasmo das aleluias. Suas retretas, no coreto, eram o encanto da Juventude.

David ensinava aos filhos a sua arte e todos participavam da corporação, o que faziam com muita alegria. Mas uma filha em especial sobressaiu sobre os demais herdando-lhe a veia musical: Letícia Giffoni Kobel, a nossa D. Lelé, que sempre ao lado do pai conhecia de perto todos os segredos das notas, das claves e das pautas. Foi ela um perfeito desdobramento da alma do pai naquela dedicação a música. Casou-se com Rodolfo Kobel e teve um único filho – Odair. Este ainda no berço, aos seis meses, já brincava com o bandolim que a mãe lhe punha entre as mãozinhas e ensinava-o a tanger as cordas.

O pequeno cresceu entre sonatas e canções, participando dos ensaios dos músicos. Nos retratos da época com a corporação musical, o pequeno Odair, com o uniforme da banda, aparece menor que os instrumentos. Aprendeu a tocar todos os instrumentos e sorveu com a mãe o amor e dedicação pela música.  

A corporação musical passou a se chamar São Vicente de Paulo. D. Lelé se dedicava a ela de corpo e alma ajudando o pai em tudo que fosse necessário. Tudo corria as maravilhas. Mas a vida impõe seus limites. E um dia David Giffoni, sentindo-se doente, previu que iria fazer outra viagem, para bem mais longe. E além da separação da família lamentava uma outra: a da sua banda. Então em seu leito de morte chamou sua filha Lelé e transmitiu-lhe seu legado de amor – a Corporação Musical São Vicente de Paulo.

D. Lelé assumiu tudo. Partiu para conquista de novos membros buscando os meninos na rua, nos morros e nas beiras do rio. Trouxe-os para sua casa e ensinou-lhes os nomes das notas musicais, das claves e levou-os a solfejar. Eles fugiam para a vida livre correndo nas suas peraltices de moleques descompromissados, mas ela os buscava de novo e os tratavam com carinho, mostrando-lhes que a arte poderia mudar suas as vidas, tornando-os homens com alguma identidade.

Além dos pequenos com quem compartilhava seu ensinamento também, organizava e regia com maestria o coral que abrilhantava as semanas santas aiuruocanas, com as músicas cantadas em latim acompanhadas da orquestra chefiada por seu filho Odair, pelos seus alunos e seus netos.  

Mulher de personalidade forte, jamais sucumbiu aos percalços da vida. Filha de Italiano trazia no sangue o temperamento dos latinos, por isso homem nenhum ousou desafiá-la. Em 1994 por ocasião do Centenário da Corporação Musical São Vicente de Paulo, houve em Aiuruoca uma reunião de bandas da região e para homenageá-la, as bandas se propuseram a interpretar um dobrado de sua autoria – Odairzinho.  Vendo aquele gesto de carinho não titubeou e exigiu que se improvisasse um palanque de onde iria reger aqueles mais de 300 músicos perfilados na praça Monsenhor Nagel, em Aiuruoca, algo até hoje comentado por todos aqueles que participaram da empreitada.

D. Lelé fazia da música o seu lazer, adorava tocar seu bandolim nas festas, nos bailes e em qualquer comemoração que fosse solicitada. Nos casamentos soltava a sua voz inconfundível nas Ave-Marias, emocionando todos que ouviam.

Em agosto de 1999 veio a falecer, aos noventa anos de idade, mas o legado de David Giffoni vai perpetuando. Hoje o filho de D. Lelé,  Odair, assume o papel deixado por ela e compartilha seus ricos ensinamentos a todos que desejam, assim como ela jamais cobrou para ensinar, bem como nunca recebeu ajuda financeira de qualquer órgão governamental.

Ao David Giffoni e a D. Lelé queremos dizer hoje, de alma para alma já que nossas palavras não podem atravessar as barreiras do além e nem suas sinfonias chegarem de lá aos nossos ouvidos: podem continuar a tecer melodias tranquilamente. Aos pés de Deus Criador de todas as maravilhas a sua banda viverá eternamente como a beleza de Deus, enchendo de melodias os caminhos que nós percorreremos hoje e daqueles que hão de vir para daqui a mais um século comemorar as glórias daquele dia. A nossa voz se fará presente para saudá-los através da saudade, como o fazemos hoje com aqueles que vieram antes de nós e são responsáveis por estas glórias. Estaremos um dia presentes em Deus, alegres como hoje, como estiveram ontem David e Lelé. Pois se um século é muito para a travessia de uma vida humana, para Deus mil anos são como o dia de ontem que passou.

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