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Baependi - Notícias
12/05/2016 11h53

Devotos de Nhá Chica caminham 33 Km em homenagem à beata brasileira

Peregrinação reúne milhares de fiéis há 18 anos em busca de milagres; caminhada acontece pela Estrada Real com saída de São Lourenço até Baependi

Devota subindo de joelhos a escadaria da igreja Nossa Senhora da Conceição em Baependi - Foto: Fernanda Borges

Por Fernanda Borges (fsilva81@gmail.com)

Aquilo que o corpo físico não é capaz de assimilar, a fé dá conta. É mais ou menos assim que peregrinos da beata Nhá Chica realizam há 18 anos a tradicional caminhada de 33 quilômetros rumo ao santuário da santa brasileira. Esteja o frio que estiver, devotos partem da cidade de São Lourenço, pela Estrada Real, e seguem pelas zonais rurais de Soledade de Minas, Caxambu até Baependi. A peregrinação deste ano teve início na noite do dia 30 de abril e se estendeu ao longo de todo 1o de maio com celebrações de missas na Igreja Nossa Senhora da Conceição, onde também se encontra a casa em que viveu Nhá Chica.
Francisca Paula de Jesus se tornou a primeira leiga e negra brasileira a ser declarada beata pela Igreja Católica no dia 4 de maio de 2013. Antes mesmo de sua beatificação, milhares de fiéis, em especial do interior de Minas Gerais, têm vivenciado grandes milagres, que segundo eles, são concedidos pela santa, conhecida por ter levado uma vida de fé e caridade.
A moradora de São Lourenço, Maria Aparecida Costa André, 57 anos, marca presença na caminhada há oito anos. Ela foi encontrada pela reportagem caminhando próximo de Caxambu, quando as altas horas da madrugada soprava uma brisa fria de temperaturas abaixo de dez graus. Com o apoio de um cajado e uma leve dificuldade ao caminhar, Maria Aparecida revelava um sorriso incompatível ao cansaço físico, mas a alegria e a fé da devota as mantinham serena em busca de seu propósito. “A gente caminha pela fé”, comentou sorrindo.
Segundo ela, Nhá Chica lhe concedeu uma graça quando teve a cura de um tumor diagnosticado em uma de suas mamas. “Eu tinha feito uns exames de rotina e o médico visualizou um grande tumor em um de meus seios. Voltei para casa muito preocupada e triste sem saber o que fazer. Então rezei muito pra Nhá Chica e fiz minha primeira peregrinação pedindo a ela a graça de ser curada daquele tumor. Meses depois eu voltei ao médico para realizar outro exame e eis a surpresa: o médico não encontrou mais aquele nódulo. Eu até registrei meu milagre no caderno de graças da Igreja”, contou a peregrina.
Ao longo de toda caminhada foi possível encontrar pessoas de todas as faixas etárias. Havia grupos de jovens, famílias, casais de namorados, crianças e idosos. Um grupo de doze pessoas muito animadas, todas vestidas com camisetas de Nhá Chica, partiu de Pouso Alegre só para participar da peregrinação. A van que eles alugaram os deixaram no trevo que liga São Lourenço à Soledade de Minas para que dali pra frente começasse a caminhada. “Decidimos fazer assim porque tem muita gente aqui que está vindo pela primeira vez para conhecer o trajeto”, comentou uma das organizadoras do grupo.
Por amor - No bairro rural do Mato Dentro, em Soledade de Minas, a Família Sideral, proprietária do Sítio das Nascentes, realiza há nove anos a distribuição gratuita de pães com patês e café carinhosamente preparados para os peregrinos ao longo de toda madrugada. Além disso, eles construíram dois banheiros (um masculino e um feminino) na garagem do sítio exclusivamente para uso anual em dias da peregrinação. “Realizamos a caminhada uma vez e percebemos que não havia nada ao longo do caminho para os peregrinos, então resolvemos colaborar de alguma forma”, comentou Elcy Sideral, que passou a madrugada junto das filhas e amigos na distribuição dos alimentos.
Os primeiros quilômetros do percurso são os mais íngremes e depois o relevo é mais plano. O trecho fica mais difícil nos últimos oito quilômetros entre Caxambu e Baependi quando muitas pedras e poucas sombras – para aqueles que já caminhavam ao nascer do sol – somavam ao cansaço físico dos fiéis. Na chegada em Baependi, os peregrinos foram recepcionados por moradores da cidade que ofereciam ajuda no transporte para aqueles que estiveram muito cansados e também abriam as portas de suas casas oferecendo o uso de banheiros.
O final da caminhada foi marcado pela celebração de uma missa dominical especialmente realizada em homenagem à Nhá Chica, onde o salão da Igreja Nossa Senhora da Conceição ficou totalmente lotado. A primeira missa aconteceu pontualmente às 7 horas. O pároco da Igreja fez um sermão lembrando a vida da beata e também proferiu palavras de alívio aos fiéis católicos. “Muitas vezes achamos que nossa caminhada será eterna e que as dificuldades não passarão. Mas se assim vivermos, numa caminhada única, participando de um amor verdadeiro, nada vai nos atrapalhar. Se caminharmos sempre na fé, iluminados pelo espírito santo, o amor será nosso alimento”.
Ao final da missa, peregrinos deixaram o santuário de volta para suas casas. Alguns ainda fizeram o retorno a pé. Outras celebrações foram realizadas ao longo do dia com uma última missa às 19 horas.
“Isso acontece porque eu rezo com fé” – Filha de escravos, Francisca Paula de Jesus, nasceu em São João Del Rei, Minas Gerais, no ano de 1808. Aos dez anos de idade conta-se que ficou órfã - informação contestada por novos documentos que vieram à luz em 2015 - e a conselho de sua mãe viveu sempre sozinha para melhor praticar a caridade e conservar uma vida cristã.
Conta-se que Nhá Chica teve uma manifestação de Maria solicitando à ela a construção de uma capela. O local foi construído com ajuda de pessoas que doavam dinheiro à beata que percorria as casas de moradores da região de Baependi solicitando doações para a construção da capela. Hoje, reconstruída, o local se tornou a Igreja Nossa Senhora da Conceição. Existem relatos de vários milagres que a beata teria manifestado por conta de uma grande fé à Nossa Senhora da Conceição. Nhá Chica é lembrada por ter sido uma mulher simples, analfabeta e humilde e que sempre contava com uma palavra de conforto a todos que a procuravam. A beata faleceu no dia 14 de junho de 1895. Os restos mortais de Nhá Chica se encontram num túmulo no interior da Igreja Nossa Senhora da Conceição.

Família distribui gratuitamente pães e café há 9 anos

Peregrinos de pouso alegre durante a caminhada

Fotos: Fernanda Borges

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