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José Luiz Ayres: Johnson, o sedutor seduzido pela sedução

Ao deixar a estação de Alfenas e caminhar à direção do hotel, Luiz dá de cara com um colega também caixeiro viajante, Johnson, representante da Gillette Co., que, cabisbaixo, se assusta com a presença do amigo.

Após os cumprimentos, Luiz observa debaixo de seu elegante chapéu de feltro, que seu semblante se apresentava bem carrancudo, dando nítida impressão que algo não ia bem. Preocupando-se, o indagou o que estava ocorrendo, já que demonstrava um ar preocupante fora da sua peculiar simpatia e, até com barba por fazer, o que poderia causar certa negatividade de imagem junto aos compradores dos seus produtos.


Um tanto acabrunhado e aborrecido, resolveu contar a Luiz o porquê do seu aborrecimento a se considerar um verdadeiro idiota. “Há dois dias, enquanto aguardava o expresso para Alfenas à plataforma em Cruzeiro, me deslumbrei com uma bela e elegante mulher, que ali também se encontrava, e, levado pelo irresistível fascínio, passei a fustigá-la com olhares envolventes no intuito de uma abordagem.

Para minha grata surpresa a mulher pareceu-me corresponder, pois sorria a cada olhar lançado. Cheio de alegria, tomado pela vaidade de um sedutor, com os hormônios a aflorarem intensamente, optei por erguer-me do banco indo à direção do quiosque e de lá a sinalizei oferecendo um café. A emoção falou mais alto quando meneou a cabeça afirmativamente, e ergueu-se do seu lugar, caminhando até o quiosque, onde tomamos nosso café, permanecendo a conversar, para logo nos abancarmos num banco próximo.

Claro que aquela aproximação me fez cônscio da conquista e já atribuía a favas contadas. Só que o seu destino era Caxambu, pois vinha passar o fim de semana no hotel cassino, já que como negociante; dona de uma rede de perfumarias do Rio de Janeiro objetivava espairecer. Entretanto como o meu destino era Alfenas e por ser um fim de semana, valeria à pena seguir a Caxambu. O investimento amoroso daria bons frutos.

Seguindo no vagão fretado pelo cassino, lá fui pleno de emoções e êxtase. Tendo como companheira uma exuberante e esplêndida mulher. Consolidada nossa união, passamos a nossa primeira noite de forma magnífica desfrutando dos atrativos do cassino. Bem verdade perdendo algum dinheiro nas roletas e bacarás.

Mas o deslumbre da Elza me fascinava, deixando-me alheio a tudo a minha volta, mesmo não a tendo ainda ao meu quarto. Até que aceitou de forma bem discreta, termos a nossa noite naquele sábado, após partilharmos de deslumbrante e memorável noitada, onde procurei cercá-la de todo aparato naquela “avant-premier” de uma inesquecível noite de luxúrias regada a muita “champanhe”, vinhos finos e caros, cardápios franceses e tudo que tinha direito a deixá-la envolvida por um galante conquistador, depois de dançarmos muito a lhe segredar aos ouvidos românticas palavras a estimular nosso encontro. Já passavam de duas horas quando subimos ao quarto, deixando para trás as preocupações ao cerrar a porta da minha alcova.


Eram 08:30 hs de domingo, quando fui acordado no bater da porta, efetuado pelo camareiro, informando sobre o desjejum, pois o expresso com destino a Cruzeiro partiria as 09:45 hs e a passagem só valeria para este trem.

Erguendo-me da cama, procurei por Elza e não a encontrei e nem suas roupas. Minha cabeça uma dor insuportável me aturdia a tornar-me em total estado de embriaguez. Um gosto amargo na boca me provocava ânsias de vômitos que me deixavam ainda mais tonto.


Sem noção e muito confuso, consegui não sei como, me vestir. Mas a surpresa maior, veio quando ao abrir a mala e dar pela falta da carteira, que além dos mil réis, haviam U$ 2.500,00 (dólares) e £ 450,00 (libras esterlinas).

Atordoado, verifico que a cartela onde haviam vários brilhantes estava vazia, contendo apenas um bilhete assinado por Elza que dizia: ‘Meu caro Johnson, agradeço pelo memorável fim de semana.

Foi deveras produtivo. Desculpe por não ter lhe dado o que queria. Adeus!’ ”


Este tipo de golpe, segundo contava meu saudoso pai Luiz, era uma prática muito comum aplicada aos ditos “mulherengos” a mostrarem suas qualidades de conquistadores irresistíveis, mormente na utilização de trens; à primeira classe e vazões particulares, a conduzir endinheirados e fazendeiros aos cassinos nos finais de semana.


Quanto ao pobre Johnson, além das perdas na jogatina, hospedagem, passadio, consumo desenfreado no cassino com jantares requintados, ainda teve de arcar com as despesas da “deslumbrante” Elza na hospedagem e serviços extras de quarto, pois se disse sua companheira na recepção.

Para piorar o drama de Johnson, dopado por Elza, não teve sua noite de amor. Hoje tal prática è conhecida como ‘Boa Noite Cinderela!’.

por José Luiz Ayres



Autor: por José Luiz Ayres
 
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