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Saúde: Dismorfofobia além da plástica
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O caso mais famoso é o do cantor e dançarino Michael Jackson, que passou por diversos procedimentos cirúrgico durante sua carreira

Exercícios e procedimentos estéticos em exagero também podem indicar Transtorno Dismórfico Corporal

 

Como você se sente depois de uma tarde no salão de beleza, cuidando de pele, unhas e cabelo? A sensação, gostosa e relaxante para a maioria das pessoas, pode ser torturante para quem sofre de Transtorno Dismórfico Corporal (TDC). São pessoas que passam horas pensando na própria aparência e sofrendo com a autoimagem. A angústia é permanente e a vontade de se esconder substitui a de ser visto. E apesar das tentativas, nenhum procedimento estético é capaz de sanar o mal.


Viciados em cirurgias plásticas são lembrados quando se fala em transtorno dismórfico corporal. Mas pesquisas recentes mostram que, para tentar aliviar a eterna insatisfação com a imagem, a população mais vulnerável à enfermidade recorre a outros procedimentos mais leves que o cirúrgico.


“Pensava-se que o impacto maior era na cirurgia plástica”, afirma Luciana Conrado, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica, que pesquisou a doença em seu doutorado. Ela conta que outras formas de intervenções menos invasivas, como aplicações de toxina botulínica, peelings e laser, tornaram o acesso aos procedimentos mais fácil. “Diminui custo e risco”, justifica.


As manifestações variam conforme o gênero. “A preocupação pode envolver qualquer região do corpo. Na mulher, geralmente é face, cabelo, peito e nádegas, e para homens, rosto, calvície e genitais”, diz Daniel Costa, psiquiatra do ProTOC, programa do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas. O problema é que a forma de agir de quem sofre de TDC é um tiro no pé: o “disfarce” acaba chamando mais ainda a atenção para o suposto defeito.


Outra variação do transtorno, que atinge com maior impacto o público masculino, é a vigorexia, ou Transtorno Dismórfico Muscular (TDM). Trata-se da compulsão por um físico forte, atividades físicas, além da distorção da própria imagem corporal. “A incidência nas academias é surpreendente”, diz Ana Paula Cunha Vieira Daltro, médica que estudou o fenômeno nas academias de ginástica de Salvador.


Segundo a pesquisa de Daltro, entre frequentadores de academia, 30% dos homens e 29% das mulheres têm suspeita do transtorno. A médica afirma que os pacientes de TDM apresentaram humor depressivo, timidez, insegurança em relação ao seu desempenho físico e mental, dificuldade de socialização e busca descontrolada por uma forma física idealizada. “No começo do quadro, o transtorno não traz tanto sofrimento. Conforme a compulsão aumenta, a pessoa deixa de realizar atividades cotidianas e manter relações sociais. Em longo prazo, o portador fica ansioso, sofre de depressão”, afirma a médica. Para piorar, os vigoréxicos tendem a abusar de suplementos alimentares e anabolizantes. Entre as mulheres, 35% usavam, e assim como 58% dos homens.


Outro transtorno que se manifesta pela insatisfação com a aparência é a tanorexia, em que a compulsão é por estar cada vez mais bronzeado. Quem sofre dela, acredita que está inaceitavelmente pálido e procura recursos como bronzeamento solar ou artificial para deixar a pele dourada, sem perceber que, na verdade, aparenta um alaranjado nada saudável. Além do sofrimento psicológico constante, a alta exposição a raios UV aumenta os riscos de câncer de pele. Do estilista Valentino ao ator Denzel Washington, muitas celebridades já deram sinais de que abusaram na câmara de bronzeamento.

 


Diagnóstico e tratamento

 

Dos primeiros sintomas até o diagnóstico podem transcorrer entre nove e doze anos. “A pessoa passa horas presa na frente do espelho, sem diagnóstico”, diz a pesquisadora Luciana Conrado. “O limite entre a implicância com um defeito e o problema é tênue”, afirma a médica.


Os primeiros sinais surgem na adolescência. Com queixas sobre a aparência, o indivíduo geralmente busca um esteticista, dermatologista ou cirurgião plástico, profissionais que raramente são treinados para detectar o transtorno, de acordo com a especialista.


Conrado descobriu que 15% dos pacientes de cosmiatria (tratamentos dermatológicos estéticos) tinham a doença, assim como 7% dos de dermatologia. Conrado insiste que esses profissionais precisam se preparar para reconhecer e encaminhar pacientes com TDC. “É um dilema. Se eu fizer o procedimento que o paciente pede, pioro a doença dele. Se eu não fizer, ela vai fazer em outro lugar”, afirma a dermatologista.


Para ela, a grande exposição corporal e o culto à beleza colaboram para tirar a preocupação com a aparência de uma perspectiva saudável. “É uma doença social. Desde a revolução sexual nos anos 70, o corpo é cada vez mais responsável pela identidade da pessoa”, afirma. “As pessoas chegam com uma ‘lista de supermercado’ de defeitos para corrigir. Até que ponto isto está de fato melhorando algo em alguém?”, questiona.


É comum o paciente de TDC ter outras doenças psiquiátricas, como depressão ou Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), que podem mascarar o diagnóstico. De acordo com uma pesquisa do ProTOC, programa do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, 12% dos pacientes de TOC sofrem também de TDC. “A pessoa adota comportamentos como checar o defeito no espelho compulsivamente e faz o que chamamos de camuflagem, ao tentar disfarçá-lo”, afirma Daniel Costa, psiquiatra do ProTOC. Por exemplo, um homem excessivamente preocupado com o cabelo pode ser incapaz de sair de casa sem boné.


O tratamento para transtornos dismórficos envolve antidepressivos e terapia. “Na terapia cognitivo comportamental, o paciente é orientado a aprender a se expor a situações onde ele seria julgado pelo suposto defeito e a evitar fazer os rituais, como a camuflagem e a checagem no espelho”, diz Daniel. “A medicação ajuda a melhorar a crítica em relação aos sintomas. Eles começam a reconhecer que o defeito não é tão perceptível como eles acham”, afirma o médico. Não há cura definitiva, mas manter o TDC sob controle pelo resto da vida traz de volta o prazer da vaidade.



Autor: Verônica Mambrini, iG São Paulo
 
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