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TOC obsessivo Ignorada ou desconhecida por muitos, uma síndrome perigosa e que deve ser tratada por profissionais

Todo mundo tem manias, mas quando alguns hábitos tornam-se rotinas e passam a consumir e absorver o tempo, complicando o dia-a-dia, então é preciso atenção redobrada. Algo não está normal. Embora aparentemente inofensivos, alguns sintomas podem ser um forte indício do TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo), um mal que, no Brasil, atinge mais de quatro milhões de pessoas e está entre as dez maiores causas de incapacitação profissional, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde). Segundo a Sitoc (Associação Santista de Síndrome de Tourentte e Transtorno Obsessivo Compulsivo), “estatisticamente, numa cidade com 1 milhão de habitantes, devem existir 25.000 pessoas portadoras de TOC, o que equivale dizer, que numa megalópoles como a cidade de São Paulo, devem viver duzentos e cinqüenta mil portadores de TOC”. O efeito paralisador do TOC na vida de crianças e adolescentes é ainda maior. De acordo com a ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria), em 80% dos casos, os primeiros sintomas surgem antes dos 18 anos. O estresse e a perda de tempo, provocados pelas compulsões, afetam cada aspecto da vida.

A principal característica do Transtorno é a manifestação constante de pensamentos obsessivos e compulsivos, que mantêm a pessoa em clima de ansiedade até a conclusão daquela ação. Se ocorre uma frustração ou a pessoa não consegue praticar sua compulsão, experimenta a sensação ou medo de que algum tipo de mal possa acontecer a si ou os outros. Uma espécie de auto-culpa.

As compulsões são atos repetitivos, sem qualquer utilidade – como olhar-lhe no espelho repetidas vezes, vestir a roupa numa certa ordem, a preocupação exagerada em organizar as coisas de forma simétrica, a insistência em guardar coisas sem qualquer sistema de arquivamento. Também podem ser atos mentais – como o costume de contar coisas desnecessariamente ou orar com a sensação de que, se isso não for feito, vão acontecer castigos, catástrofes, coisas ruins.

Segundo o Amban (Ambulatório do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo), as obsessões podem ser idéias, atos, impulsos ou imagens que se repetem de forma involuntária e provocam ansiedade, dúvida, medo, angústia, nojo ou tensão. Isso vai desde o medo exagerado de bactérias, insetos, a dúvida insistente sobre ter fechado ou não a janela, a implicância exagerada com um mínimo de desorganização, até a repetição mental de imagens violentas ou obscenas, dentre outros fatores.

A ciência ainda não chegou a uma conclusão sobre a origem do TOC. As pesquisas investigam diversos fatores biológicos, psicológicos e até culturais. Contudo, cada vez mais indícios apontam causas biológicas – sejam no campo da genética, da neuroquímica ou de algum dano cerebral. Já foi descoberto que o Transtorno é mais comum em pessoas de uma mesma família, o que pode ser um forte indício para a hipótese de fatores genéticos. Recentes pesquisas em universidades internacionais apontaram determinadas regiões do genoma como possivelmente relacionadas ao TOC. Porém, nada é conclusivo ainda.

 

Conseqüências e reflexos

 

A intensidade dos sintomas do TOC pode variar ao longo da vida e de acordo com cada caso. Algumas pessoas podem não apresentar os sinais durante um tempo, enquanto outras mantêm um nível estável.

As compulsões alteram as atividades diárias e chegam a exigir uma parcela de tempo considerável do dia, absorvendo a vida de quem sofre com o distúrbio. Além dos sofrimentos psicológico e físico, o TOC também provoca impactos sociais, que muitas vezes podem ser devastadores, podendo comprometer relações em casa, nos estudos e trabalho. A pessoa portadora do Transtorno pode envolver outros em seus “rituais” e manifestar uma dependência excessiva, exigindo reafirmação constantemente.

De acordo com a professora Evelyn Stewart, da Escola Médica de Harvard e consultora da Obsessive Compulsive Foundation, crianças e adolescentes com TOC se cansam mais que as outras, devido aos “rituais” praticados antes e depois da escola. Além desse fator, também sofrem com a dificuldade de manter a atenção na classe, fazer as tarefas de casa e até ir à escola. O estresse causado pelo TOC também pode afetar o comportamento alimentar e ferir a autoestima de crianças e adolescentes, uma vez que se sentem “esquisitos” ou “descontrolados” e temem ser taxados de loucos.

Quem assistiu ao filme Melhor é Impossível (1997), com Jack Nicholson, pôde conhecer um pouco sobre a vida de uma pessoa com transtorno obsessivo compulsivo (TOC). Não foi à toa que o ator levou para casa a estatueta do Oscar. Melvin Udall é um escritor mal-humorado, arrogante e cheio de manias: quando caminha na calçada, toma todo cuidado para não pisar nas juntas, recusa-se a tocar em qualquer coisa pública ou deixar alguém tocá-lo.

Na vida real, o rei Roberto Carlos sofreu vários anos com os sintomas da doença, principalmente em relação a superstições: o número 13, sua música Gato Preto, e a cor marrom, eram coisas que não podia ver na frente ou ouvir. Hoje, declara-se curado. A atriz Luciana Vendramini, desde os 13 anos conhece bem os sintomas da doença. Sofreu com compulsões, rituais e repetições, foi internada e acabou ficando quatro anos sem sair de casa. Depois, atuou na peça 4.48 Psicose, da escritora Sarah Kane, sobre esquizofrenia.

 

Há uma luz no fim do túnel

 

Felizmente, há tratamento para o TOC. Porém, antes disso é necessário que o paciente e sua família identifiquem e reconheçam que o Transtorno precisa de tratamento. O problema é que, infelizmente, a maioria das pessoas evita encarar a questão de frente ou têm vergonha de buscar ajuda. A ABP estima que a maior parte dos portadores de TOC chega a demorar até quase oito anos para procurar ajuda psiquiátrica. Em geral, os pacientes com o Transtorno, podem passar por até quatro médicos até obterem um diagnóstico correto e iniciarem o tratamento adequado.

Apesar de muita informação disponível em artigos especializados, a auto-ajuda é desaconselhável. Uma luta solitária com o TOC não resolve o problema e só irá contribuir para agravar e prolongar ainda mais o sofrimento. Portanto, deixar o medo de lado, pesquisar sobre o assunto, procurar ajuda médica e compartilhar experiências é indispensável para quem quer ter sua vida de volta.



Autor: Correio do Papagaio
 
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