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Felipe Nacle Gannam - Janelas do Tempo - O expert

− Vinde! Vinde! Meus Jesus, habitar meu coração. Neste dia tão ditoso, da Primeira Comunhão.


Naquele domingo, 27 de novembro de 1955, pela primeira vez, alguma professora do Colégio Santa Úrsula inventara uma música nova para ser cantada pelos que estavam fazendo a Primeira Comunhão. O trecho acima é uma das partes dela. Por coincidência, foi também dia do batizado de um de meus irmãos. Festa dupla em família católica.


Preparei-me com muita alegria, durante o ano todo, para acontecimento tão importante. Queria convidar o mundo todo. Foi, até então o dia mais notável de minha vida. Com que carinho minha mãe preparou tudo! O terno azul-marinho, o sapato de verniz preto e aquela fitinha com o símbolo da Eucaristia que os meninos usavam até uns 25 anos atrás, na manga direita do paletó.


(Engraçado, lembro-me bem, naquela noite cheguei a pegar meu sapato novo que estava no chão e lamber a sola dele, no intuito de que ele permanecesse sempre novo. Que falta de gosto! Poderia ter usado um paninho molhado, em vez da língua para aquele fim inglório... Quem sabe não se faz agora uma analogia, querendo dizer que Jesus permanecesse sempre como algo novo em minha vida e nunca perdesse sua atualidade...)


Não consegui dormir na véspera. Acordei cedo, vesti minha roupa e rumei para o colégio. Lá iam se encontrar todos os que fariam a Primeira Comunhão.


Somente as pessoas daquela escola receberiam o sacramento naquele domingo. Aliás, era mesmo assim. Tudo determinado por escola. Inclusive as aulas de catequese também eram no lugar onde se estudava. Meu horário era sábado à tarde. Eram muito rigorosos os critérios para se permitir receber ou não a comunhão. Qualquer deslize, uma simples briga com algum colega, podia valer a expulsão. Aí, o evento teria que ser transferido para o ano seguinte. Era um exagero! Também acho que era muito cedo deixar as crianças receberem a comunhão com apenas oito anos. Hoje os critérios são melhores, as catequeses mais aprofundadas e por mais tempo. Também, o que se podia esperar, de uma Igreja que não concedia aos fiéis o direito de ler a Bíblia? Bíblia era coisa de padre e de protestante.


Na hora em que estávamos todos enfileirados, prontos para entrar na igreja, como num casamento aproxima-se o pai de um colega. Metido a conferir a roupa de todos, diz que a tal fitinha deveria estar colocada no lado esquerdo do paletó e não do direito. Em vez de confiar em minha mãe e em todos os outros que a usavam do lado direito, acreditei nele, por ser o pai de meu melhor amigo.


Assim, permiti que  trocasse minha fita de lado.   


Na hora da entrada, minha mãe aguardava ansiosa para ver seu lindo filho entrando, arrumadinho, como todos sonham e acham de seus filhos. No entanto, para sua surpresa, entram com a fita do lado direito e apenas eu e mais um usando-a do lado esquerdo.


Foi um dos únicos dias em que vi minha mãe brava e perdendo a esportiva. Até de noite, ela falava:


− Chega na hora, entram todos certinhos e bonitinhos, com a fita do lado certo e você e o Fulano com a fita do lado errado só porque o pai dele quis. Ai, meu filho, como você  me envergonhou!


(Em relação à comunhão, um dia, numa missa melquita em Córdoba, vi o padre dando a hóstia para crianças de qualquer idade e me surpreendi. Na tarde daquele mesmo dia ele embarcou no mesmo voo em que eu regressava ao Brasil, para visitar um irmão residente em Resende. Aproveitei para perguntar-lhe se naquele rito era permitida a comunhão desde sempre, ao que ele respondeu:


− Você seria capaz de negá-la a uma criança?


Sábias palavras!)



Autor: Felipe Nacle Gannam
 
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