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Opinião
20/02/2019 08h30

EVOÉ, um conto de Carnaval 2

Por Henrique Selva Manara

Parte 2: DIONÍSIO

No alto da primeira montanha que pertence a todos nós existe uma floresta, e lá ele subiu. Sua cabeça queimava em devaneios, seus apegos devastavam quimeras de outrora, suas costas não lhe cabiam mais atrás, era preciso morrer para renascer outro. Um velho cego lhe indicou o caminho, lhe disse “_ Siga os tambores.” E assim ele seguiu. Ao cruzar o limite que separava a trilha da terra para a trilha da mata viu fantasmas de ventos negros lhe chamando à solidão. Seguiu, era preciso morrer para renascer outro. 6h00. Toca o despertador. Dionísio não se lembra onde esta, até que as imagens embaçadas vão tomando contornos familiares. O copo, o caderno, os livros, o tambor. 6h05, se vira de lado pra se levantar. “_Aprendi com o carnaval a vencer o cansaço”. Era o que Dionísio sempre dizia a seus amigos quando lhe perguntavam como já estava acordado. De bloco em bloco, de morro em morro, Dionísio anunciava o Sol e as tempestades. Celebrava a vida e denunciava a violência, este era seu quarto carnaval. Aprendeu com os repiques a se tornar uma gota na multidão. Foi ao se perder dela que se encontrou. “Num corte profundo entre você e eu” cantava o mantra do poeta dentro de seu peito. A via de longe, desfilando na avenida com seus espartilhos pretos e seus grandes seios brancos que por tempos “esteve em suas mãos”, mas não mais. Caminhou com ela, junto dela, separado dela, na mesma avenida, no mesmo choro do rio que morreu, da rainha que caiu, no mesmo grito de gol, na mesma manhã que raiou. Esses eram os paradoxos do carnaval. Aprendeu com o repique a ser um dos mil palhaços a perder a colombina. Era preciso seguir, de morro em morro, cruzando chuvas, sentindo o sol queimar sua cara, tomando tudo que lhe dessem para brindar a vida que ainda lhe restava. Vencer o cansaço e bater o tambor. E foi batendo o tambor, que ele se viu, se viu um com a multidão. Na busca de não perder o compasso, de celebrar o ritmo, foi invadido por uma sensação oceânica. Entrar no ritmo o fazia esquecer a nostalgia do passado e da ansiedade pelo futuro. Tocar firme o tambor lhe tornava presente. Ele era ele mesmo e era também todo o cortejo, era a multidão, uma grande serpente de milhares de faces ocupando a cidade. Ele era a cidade, era o tempo, era um e todos, e se despedia das angustias que já não lhe cabiam mais. Nascia pela segunda vez, sendo rio e terra, fogo e floresta. Seu tambor uma entidade de duas almas, seus guias, uma árvore e um bode. Seu tambor eram seus guias, duas vidas sacrificadas que lhe diziam o caminho. Amar sem temer, resistir e ocupar. (Continua...)


Ode à canção antiga.

Uma canção antiga
De cabelos longos
E crisálidas temporas
reluz
ora como
caminho peregrino
ora como
bruma desejante
das respostas
de um narciso tardio
Vem canção antiga
Destrava
essas máculas
que confundem o
crescer
Venha em
forma de água
Venha em
forma de terra
Venha em carne
nua e sem esperanças
Me ensina a
te acompanhar
Sem os ecos
distantes do apego.
Vem canção antiga
Faça e deixe germinar
O que há entre
os abismos
Entre as ilhas
de quem somos nós
Sozinhos passageiros
em busca
De afagos.
Venha canção antiga...
Me ensine o seu ritmo
O seu cantar
Eu que andei
tão esquecido de mim
Ao te ouvir
Canção antiga
Me vi abrir
E várias
luzes refletirem
Em outras já vividas
passados
resguardados
lugar sagrado
Que é mais
gostoso quando
É simples
É café
É pão
E também é ressaca.
Vem canção antiga...

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