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Opinião
08/05/2014 09h38

Harmonia

Fátima Garcia Passos

Por Fátima Garcia Passos

O mundo da harmonia inexiste. Não neste plano em que impera as disfunções: o belo e o feio, a ordem e a desordem, a abundância e a escassez, a alegria e a tristeza, o bem e o mal. Mas mesmo assim continuamos a garimpar em meio às pedras, buscando um mínimo de ordem em meio o caos. Podemos fazer de bom grado algumas concessões, mas sem dúvida elas não podem nos tirar a paz e a harmonia conquistadas a duras penas. Todavia nem todos conhecem limites, e tentam avançar além do que foi cedido, sempre querem mais. São os ressentidos sociais, morais, intelectuais, etc. Acreditam piamente que o mundo lhes deve algo, e o incauto que lhes pode ser gentil transforma-se no pato que lhes deve pagar a conta... Se for imbecil, é claro.

Spinoza gostava de dizer que cada ser inserido no Todo tem a sua potência. Esta potência é o que permite que sejamos o que somos. É incomunicável, intransferível, por ser inalienável. Ela é como um orgasmo, cada um tem o seu, no seu tempo, do seu jeito. Contudo, Spinoza coloca que esta potência surge porque estamos inseridos no Real, que é o Todo com todas as suas implicações. Ou seja, tudo faz parte: a maré, o vento, a jangada, o peixe, os animais, nós, todo o universo. Sendo assim, as relações é que potencializam tudo; o homem, que é todo constituído de partes, também é parte. Assim, quando qualquer corpo se manifesta, está agindo como parte, enquanto parte; porque a ninguém, nem a nada, é possível ir além desta condição. Para Spinoza o homem na natureza é um império num império.

Todavia, há impérios e impérios. Uns são como ervas daninhas que se acoplam em uma árvore; enquanto não a matam, não morrem. Vivem de sua seiva, são potencialmente sugadores. Outros, potencialmente doadores. Nisto há um equilíbrio. Mas o que seria dos espertos se não existissem os ingênuos?... Só que no mundo hominal um dia os ingênuos aprendem a lição, se disciplinam, se potencializam, se empoderam. Quanto tempo isto leva? Talvez toda uma vida, ou décadas. Quem sabe?... O certo é que é nos embates da vida que podemos nos empoderar, fortalecermo-nos e enfim aprendermos a grande lição. As experiências são como o esmeril na pedra bruta: aparam nossas arestas. Só através delas é que podemos brilhar. Não dá para agradar a todos, nem Cristo o conseguiu. Portanto defendamos nossas fronteiras físicas, psíquicas e morais, porque quem não se autorrespeita como pode esperar respeito alheio?

Doemo-nos, sim, isto faz parte da vida, mas na medida de nossas possibilidades, não sob o açoite de exigências faraônicas que como enxurrada às vezes nos acossam, e que tendem a nos desequilibrar. A doença de um fígado pode prejudicar todo o corpo, mas é função de todo o corpo extirpar a doença, seja através de anticorpos, remédios, dieta, etc. Buscar uma homoestase interna, um equilíbrio mínimo para que impere a saúde, é o dever de todo aquele que busca a paz. Assim são as relações. Ou se corta um mal pela raiz, ou ele tende a se espalhar, desarmonizando o todo construído com labor, temperança e fé em dias melhores.

Fátima Garcia Passos é pós-graduada em Ciências da Religião e mestre em Filosofia.

 

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