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Correio do Papagaio - Edição 1385
Correio do Papagaio - Edição 1383
Opinião
02/05/2019 09h55

Home sweet home

Por Henrique Selva Manara

29 de abril de 2019, estou em Belo Horizonte e escrevo para minha Liverpool, São Lourenço. Coloco um vinil, começa o dedilhado em Lá maior de Ticket to Ride. O sol em touro anuncia as 16h20m, abro a janela do passado para que ele entre e derrame seu fulgor. Na foto antiga minha silhueta se desenha em sombra colorida sobre os vinis espalhados no meu quarto. Coleções de gibis e vinis. Batman, Hellblazer, Sandman, Chiclete com Banana, Kiss, Janis, Doors, Caetano, Chico, Titãs. Com quantas primaveras se faz uma adolescência, com quantas madrugadas sem voltar para casa, não querendo abandonar o papo com os amigos? Quantos tombos de bicicleta? Quantos “primeiros” porres? Quantos foras, e quantas primeiras vezes? O primeiro bailinho, o primeiro beijo, a primeira vez que você mata aula, o primeiro vinil. Não é mais madrugada, raro é o momento em que coloco uma agulha num disco, rara hoje é uma nova primeira vez. Mas o vinil ainda toca. Meu primeiro foi o QUATRO ESTAÇÕES da Legião Urbana. Toda vez que penso em vinil penso em meu primo, Romeu. Hoje a música esta ao alcance de um simples toque de dedo no celular, um menu infinito numa rede invisível que a cada segundo se expande a cada nova postagem sem um destinatário determinado. Tudo é de todos, assim parece, nada é de ninguém, assim esta. Será? Não era assim antes. “Traficávamos” vinis e gibis. Nos anos 90 o acesso à indústria cultural era ralado. Se você fosse adolescente recebendo uma pequena mesada dos pais, era ainda mais difícil. Eu devia ter meus 13 anos quando tudo pra mim começou. Estudava na Escola Polivalente, na Vila Nova. Tudo parecia uma sessão da tarde, ou erámos influenciados por elas. Toda vez que passava CARATÊ KID, ROCK BALBOA, ou TE PEGO LÁ FORA, podia saber que teria briga no final da aula. Matar aula eu aprendi vendo CURTINDO A VIDA A DOIDADO (não façam isso em casa, crianças, kkkk). Mas também rolava o FOOTLOOSE, que fazia todo mundo querer se apaixonar e fazer um bailinho de passar a vassoura. Desses bailinhos os mais legais aconteciam na casa da minha tia Fátima e meu tio Péricles, nós dávamos trabalho pra eles, coitados. Depois aconteceram alguns na minha casa também, mas as festas do Romeu eram memoráveis. A geração mais nova de São Lourenço conheceu o Romeu como o professor muito louco com a bandana na cabeça. Uma mistura de Ozzy Osbourne com Vince Neil, um cara exótico entre os tradicionais. Já eu, conheci várias fases do Crüe, era assim que os amigos das antigas o chamavam. Conheci o Romeu goleiro da quadra, o Romeu desenhista e colecionador de heróis de quadrinhos, o Romeu apaixonado por Rock n’ Roll, e principalmente o Romeu primo mais velho. Com certeza ele foi uma das minhas primeiras referências, um dos meus primeiros heróis, o cara que eu queria ser.  Foi ele quem me fez gostar de desenhar, hoje uma das minhas profissões, e também foi ele quem jogou eu, meu irmão João Junior e meus outros primos no mundo do Rock’ n` Roll.  Naquela época, antes mesmo do CD (vocês sabem o que é isso, né?), como antes eu dizia, era muito caro comprar um vinil, mas nós, adolescentes de pouca grana tínhamos uma estratégia. O que fazíamos era uma coleção compartilhada, muito antes das redes virtuais. Cada um da galera tinha direito a comprar os discos das bandas que mais gostasse, e aí emprestávamos uns para os outros. Isso não era formalizado, mas existia uma questão de honra no ar, quando alguém comprava o da banda preferida do amigo, era uma semana de “gelo”, explicações e desculpas. Igual também quando um se apaixonava pela menina que o outro tinha dito antes já estar apaixonado. Isso era um absurdo. O mais engraçado é que quase nunca ficávamos com a menina, mas os sonhos de namoro eram tão gostosos quanto os sonhos de ter uma banda. Existiam também as Fitas K7, nela você fazia aquela coletânea que era a sua carta de amor para a menina que você estava apaixonado, se ela gostasse já era um bom caminho andado. O Romeu deve ter gravado um milhão dessas fitas. Mais do que por estar apaixonado por uma menina, era porque estava muito apaixonado pelas músicas, ele queria que todos as ouvíssemos, e que gostássemos delas igual a ele. Ele era figurinha carimbada na SOM ART e a DISCO BRIU, antigas lojas de vinis e K7s no centro da cidade, depois tornou-se comprador assíduo da Studio 4, uma das primeiras lojas a chegar com uma grande coleção de CDs, (CD é antes do DVD e Blu-Ray, viu Cacilds?). Romeu gostava tanto de seus vinis que teve uma época em que ele saia com uns 10 ou 15 seus discos na rua, em baixo do braço como um protestante leva uma bíblia. Peço a licença poética para imaginarmos juntos, seu protesto e sua palavra espalhada era o rock’ n’ roll. Se você perguntasse a ele porque ele estava levando tantos discos, afinal eram pesados, ele te respondia. “_ Tô levando eles pra passear, acho sacanagem eles ficarem em casa sozinhos.” Acho que ele foi em todos, todos os shows que ele “KISS”. OZZY, GUNS N’ ROSES, CULT, ROLLING STONES, AC/DC, JUDAS PRIEST, e claro MÖTLEY CRÜE, sua banda preferida. Sinto que esse meu momento de nostalgia vem junto de vários acontecimentos. O fato de meu primo ter ser tornado um encantado em 2018, como diria Guimarães Rosa, junto aos meus quarenta anos nesse ano, me fez perceber o tempo de minha adolescência como vintage. Tempos dourados, nossas revoluções por minuto eram bandas e sonhos, tudo era mais leve e a gente não se dava conta disso. Hoje a cultura pop dos stremios, app, downloads e links, revisitam minha adolescência, STRANGER THINGS que o diga. Recentemente foi lançado o filme THE DIRT sobre o Mötley Crüe, um entretenimento gostoso e leve como nossas antigas sessões da tarde. Tá bem, vai lá, admito, tem censura para menores de 18 anos, seria mais como nossa antiga Tela Quente. Todos os amigos do Romeu sentiram uma mistura de alegria e tristeza, alegria por através do filme matar um pouco a saudade do velho Crüe, tristeza por ele não ter tido esse tempo de assisti-lo. Como disse meu amigo Pão de Queijo, “_Ele ia querer assistir todos os dias”. Se você foi aluno do Romeu, corre lá na Netflix e assiste, vai dar boas risadas e ter um ótima trilha sonora. Saudades primo, guarda um lugar pra mim na primeira fila.  

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