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Opinião
15/12/2017 17h22

Lendas do Bom Rabi - Malba Tahan

O mendigo na cerca

Achava-se certo ricaço à janela quando viu, do outro lado da rua, um mendigo a esfregar as costas num cercado. Informado de que o pobre homem não tinha, havia meses, com que pagar um banho, deu-lhe algum dinheiro e uma muda de roupa.

A notícia daquele acontecimento se espalhou pela cidade, e não tardou que outros dois pobres que viviam nos arredores fossem ter à mesma cerca, e para atrair a atenção do dadivoso judeu se puseram a esfregar energicamente numa das estacas. Mas, em vez de lhes dar esmola, o ricaço, ao avistá-los, correu-os a bengaladas.

— Fora daqui, embusteiros! — bradava ele num tom precipitado e cavernoso. — A mim é que não iludem! Fora daqui, mandriões!

— Mas por que acreditaste no outro? — protestou, atarantado, um dos mendigos, fitando o rico com a face emparvecida.

— Porque ele estava sozinho, e, naturalmente, sentindo aflição nas costas, só encontrou um meio: esfregar-se na cerca. Mas vocês são dois, e se não fossem cínicos e impostores, cada um coçaria as costas do outro.

E, exaltado, com fulminante gesto de cólera:

— Fora daqui!

No folclore israelita, o capítulo que compreende o anedotário popular é interessantíssimo. Por sua antiguidade, pela extensão de seu engenho, por sua influência religiosa, o povo judeu é posto em situação de real destaque entre os cultores do folclore. Raimundo Geiger, no prefácio de seu livro Cuentos judíos (trad. de I. G. Gorkin), põe em relevo a feição humorística dos ídiches. A omissão, nesta antologia, da parte folclórica anedotária representaria, certamente, uma falha imperdoável. É claro que só nos parecem válidas as anedotas construtivas, isto é, as que encerram um ensinamento, uma advertência ou o agudo sentido do humorismo que caracteriza os judeus. O anedotário israelita tem um mérito que devemos encarecer. Os casos anedóticos confirmam o vasto espírito liberal de Israel, o respeito dos judeus pela liberdade de opinião e a forma resignada como esse povo recebe os reveses da vida, sem se deixar subjugar, mantendo-se, através dos séculos, ágil, são e cheio de esperanças.

Cf. Lázaro Liacho, Anecdotario judío, 2ª edição, Buenos Aires, 1945. Lewis Browne, op. cit., pág. 542.

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