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Opinião
30/01/2014 17h28

Os pompons e as pompas

José Luiz Ayres

por José Luiz Ayres

Após assistirmos a missa dominical, ao galgarmos os degraus da escadaria da Matriz, fui tocado no ombro seguido de imediato chamamento do meu nome, o que me fez virar a cabeça e deparar-me com um senhor, que se desculpando pelo abuso da abordagem, foi logo dizendo que há algum tempo vem tentando encontrar-me, no intuito de não só felicitar-me pelas crônicas escritas, onde de forma simples, clara e agradável procuro contar os episódios e poder também me narrar uma passagem ocorrida na juventude quando era um seminarista.

Descendo a escada, já no pátio externo da Igreja, sem que interrompêssemos o fluxo dos fiéis, num canto ficamos a conversar e de forma simpática, Sr. Abílio como se identificou, pôs-se a narrar o episódio, cujo histórico, após benzer-se, disse ser prudente assim fazer, pois referia-se a um bispo o qual ele fazia parte da comitiva que o acompanhava numa viagem a cidade de Campanha na década de 50.

“Deixando o Rio de Janeiro, após efetuarmos a baldeação em Cruzeiro (SP) à Rede Mineira de Viação (RMV), lá íamos nós a subir a serra da Mantiqueira. Sua eminência D.Carlos, acomodado em sua poltrona na 1ª classe, mostrando-se carrancudo, apenas limita-se a reclamar do calor e do sol que naquele horário o fustigava, inundando o vagão e achar que a ferrovia deveria ter lhe oferecido uma melhor acomodação. Nisso adentrando ao vagão, surge o condutor responsável no picote dos bilhetes de passagem, o qual lhe apresentei os nossos. D.Carlos que sob o seu pomposo chapéu parecendo alheio ao funcionário, elevando o rosto expressando o seu descontentamento, faz crítica por haver sido desconsiderado pela ferrovia, dando-lhe aquele lugar escaldante. O homem um tanto avechado diante do bispo e observando a disponibilidade de poltronas vagas, lhe sugeriu a troca do lugar. O que de imediato ocorreu, a ocupar um par de poltronas onde abancou esparramando-se e não permitindo que ocupassem o assento ao lado.

Lá pelas tantas, sentindo a chegada do túnel da divisa entre São Paulo e Minas Gerais, caminhei-me até o bispo no intuito de fechar o vidro da sua janela devido a fumaça e as fagulhas expelidas pela chaminé da locomotiva dentro do túnel. Seguro pelo braço, D. Carlos obstruiu-me da intenção e mostrando irritação, disse que não assim fizesse, pois o calor era forte. Alertando-o sobre as possíveis consequências, desdenhando, solicitou-me que retornasse ao meu lugar e não o perturbasse. No que obedeci.

Depois de cruzarmos o túnel e nos livrarmos do ar toldado pelo fumo, de súbito o colega ao lado chama-me a atenção pelo cheiro de queimado e para uma fumaça azulada rondando o bispo. Virando-me, constatei sua observação e fui verificar “in loco”. O que de fato tinha sentido, pois no chapéu da eminência, os pompons roxos que o ornamentavam, alguns haviam se queimado e a brasa incandescente prosseguia consumindo já parte da aba. D. Carlos demonstrando total irritação, talvez pela minha nova interferência, retirou da cabeça o paramento constatando o sinistro e o passou às minhas mãos. Valendo-me da pia do toalete, apaguei o fogo.

Ao devolver o chapéu sinistrado, furioso o bispo passou a culpar a rede pelo ocorrido e queria exigir indenização pelo dano. Ao ouvir tal absurdo, inconformado tentei lembrá-lo da minha recomendação antes da passagem pelo túnel. Olhando-me com uma expressão carregada, interrompeu-me dizendo: - Cale-se garoto! Sua função aqui é servir a mim e ao Pai Celeste.

Chegando ao nosso destino, Campanha, uma recepção esperava por sua eminência composta das autoridades locais: política e eclesiástica, entre outras. Só que não sei se esqueceu, D. Carlos ao descer do trem, cheio de pompa, colocou à cabeça o chapéu, que parcialmente queimado, deformado e molhado, mais parecia um adereço carnavalesco, o qual passou a ser motivo de chacota e muitos risos entre os presentes, inclusive nós os seminaristas. Já que tínhamos ordens de ficar calados e apenas cumprir com o determinado por sua eminência, ou seja; servir ao Pai Celeste e limitarmo-nos a acompanhá-lo. Deus seja louvado! Fizemos a nossa parte permanecendo calados. Mas que ele mereceu passar por isto, sem dúvida mereceu. Foi a penitência pelos seus pecados”.

 

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