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Opinião
21/03/2019 09h11

Por não amar, coisificamos também as coisas!

Por Ana Terra Oliveira

“O mundo é cheio de coisas”. Quantos carros são produzidos a cada minuto em um linha de montagem? Pensar em números pode nos dar uma dimensão do tanto de coisas que existem. Já imaginou um carro ser produzido a cada um minuto, a cada 10 segundos? Eu já pensei nisso, e minha mente não conseguiu conceber tal cálculo. Na adolescente visitei com a turma da escola uma grande fábrica de automóveis e fiquei impressionada. Eu não podia acreditar que isso é realidade. Em 24 horas, quantos carros são produzidos? Imagina em um ano! São milhares! E esses milhares serão úteis a quem? E como serão usufruídos? E quantos serão elevados à categoria de “coisificados” por não terem valor, por não serem úteis beneficamente!

Com o tempo, depois de sair da cidade do interior, bem mais para roça do que para cidade, fui viver na grande metrópole, e passei a observar o mundo das coisas. Quantas roupas existem nas lojas! Quantos sapatos nas vitrines! Preços diversificados, estranhos para entender o cálculo dos custos!

Certa vez entrei em um shopping de moda feminina, eram tantas opções, tantos corredores, como um labirinto, e eu fiquei rodando, rodando e não conseguia comprar nada, e não conseguia sair dali, não conseguia nem mesmo escolher, fui ficando ansiosa, ao mesmo tempo que foi surgindo um desejo de obter todas aquelas coisas. Foi então que tentei focar minha atenção no que em princípio eu tinha ido buscar. E foi que consegui comprar os artigos que eu buscava, mas sai dali cansada por uma luta interna que se estabeleceu em mim entre o ver e desejar, ver e desejar, ver e desejar. Então eu passei a perceber com grande nitidez como o desejo é ativado em nós quando adentramos um mundo onde possuir e ter coisas é extremamente estimulado. Não que as coisas não sejam importantes, nunca disse isso, e esse é exatamente o ponto: saber a importância e dar importância necessária às coisas.

A roça onde eu morava ficava perto da metrópole e lá as coisas chegavam. Água, luz, hortaliças, roupas, internet, enlatados, refrigerantes, informações, livros. A questão é também saber escolher, igual à dona que vai à feira em busca dos selecionados. É preciso também saber usar, e é preciso também não se exceder. É preciso cuidar!

Depois de dez experientes anos de incursão na metrópole, voltei a morar no campo, numa casa na área rural, bem daquelas rodeadas por árvores, numa estrada de terra, e eu percebia que ali eu não tinha muitos desejos de ter, eu tinha vontade de ser. Conectada à natureza, eu queria respirar, relaxar, escrever poesias, eu queria aprender, ouvir, pintar paisagens. À noite, olhando as estrelas eu pensava no mistério e na grandiosidade da vida. Isso é o que a natureza pode nos dar: conexão com o ser. E sempre que eu ia à metrópole, alguma vez na semana, e frequentava os centros comerciais das coisas, eu observava o desejo de possuir coisas irrompendo em mim. Logo, eu vejo o qual é perigoso passar pela vida sem cuidar de como nos expomos ao mundo. Bombardeados todos os dias para ter coisas, para possuir, para desejar.

Não é um ter com consciência do que é necessário, é um ter onde as coisas perdem o seu valor. São tantas as coisas e objetos que nenhum deles tem valor. Perdemos o amor. O amor com o qual avaliamos a nossas necessidades. O amor com o qual vibramos para conquistar aquilo que nos é necessário. O amor para cuidar daquilo que nos é útil. Se me é útil um objeto ou coisa o razoável é que eu cuide para que a utilidade da coisa tenha longa vida.

Costumamos dizer que nas relações atuais tudo é descartável, tudo é transformado em coisa, tratamos também as pessoas como objetos, no sentido de que tiramos delas a dignidade, o valor, a consideração e o respeito. Coisificar as relações humanos. Coisificamos as pessoas. Coisificamos a natureza. Coisificamos os animais. E tudo isso porque também coisificamos as coisas. Tiramos o valor e ficamos só com o lado mais material da coisa, talvez com a aparência da coisa, ficamos no vazio. Quem sabe dizer, ficamos com a massa vazia, a aparência e o pó. Talvez por isso temos tanta ânsia e tantos desejos por ter e ter e possuir mais e mais. Uma vida sem sentido, é uma vida vazia e cheia de coisas e relações vazias. Repito, tudo isso porque também coisificamos as coisas. E se um dia coisificamos por não amar, se amarmos também as coisas e cuidarmos delas com amor, também iremos resgatar o amor pelas pessoas. Resgataremos o valor da vida.
Eu adoro saber a origem das coisas, porque tenho grande necessidade de valor, de sentido. Eu tenho certos prazeres em saber de onde as coisas vem, porque as origens contam histórias, os percursos contam histórias e as histórias nos trazem sentidos e compreensões. A consciência das origens nos faz escolher caminhos, caminhos que dão às coisas novas direções ou fortalecem seus sentidos de ser. É então buscar o ser na relação com coisas sem coisificar, buscar ser com as coisas, para que o ter não seja vazio, violento e contaminado.
Eu me lembro do meu primeiro pijama que minha mãe encomendou à vizinha costureira, era verde de florzinhas. E pasmem: ainda hoje dormi com ele depois de 25 anos. Ainda me lembro de um vestido que minha mãe encomendou à costureira para eu ir à praia, era todo de margaridas. Eu me lembro de muitas roupas que usei na infância e juventude, pois elas tinham muito valor, e memória, e história. Não que não possamos ter novas coisas, e coisas diferentes, nunca disse isso. Digo do amor. Digo do amor quando as coisas são amadas e cuidadas com amor e reconhecidas como úteis. Não que não possamos passar adiante o que não nos serve mais, nunca disse isso. Digo do desapego do amar, que é cheio de gratidão. Gratidão às coisas que nos foram úteis.

Talvez resgatar o valor das coisas nos ajude a ser mais humanos, a preservarmos o planeta, por amarmos cada pedaço de terra e oceano e coisa e criação que não são nossos, mas é responsabilidade de cada um cuidar com respeito.

Por não amar, coisificamos também as coisas, e entendo assim: por displicência no amar, não amamos. É chegada a hora de deixarmos de displicência, de negligência e estarmos mais atentos, atentos no amor, presentes para amar. Sem tanto coisificar e mais abençoar, dignificar, valorizar.

Ana Terra Oliveira é moradora de São Lourenço, Psicóloga, Escritora e Contadora de Histórias.

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