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Opinião
20/02/2014 10h05

Previsão do tempo

Bebeto Andrade

Por Bebeto Andrade,

de Cruzília/MG

Comecei a me interessar por meteorologia ainda criança, quando meu pai me levou ao barbeiro, o seu Tonico, e o bom velho desfiou uma série de previsões proféticas. Perguntado se choveria naquela tarde, seu Tonico deu uma resposta espantosa: sim, certamente choveria, mas também podia não chover. Ora, de tardezinha caiu um toró respeitável, confirmando as previsões de nosso barbeiro, e minha admiração por ele cresceu mais que meus cabelos.

Mais tarde passei a acompanhar as previsões do serviço oficial de meteorologia, que ganhou espaço na TV e alcançou grande popularidade. O mais divertido era detectar os erros e falhas do tal serviço: à noite anunciavam tempo bom e céu claro para o dia seguinte, e no dia seguinte chovia até canivete. Na verdade, tudo era feito na base da improvisação, sem muitos recursos tecnológicos, e aí apareciam as gafes e as inevitáveis piadas.

 De certa forma, acredito que a gente vivia com um pouco mais de emoção naquela época, pois ninguém acordava com alguma certeza absoluta sobre o tempo. Como seres primitivos, achávamos que sol e chuva eram segredos insondáveis, mistérios que estavam além de qualquer medição eletrônica. Um belo céu azul podia subitamente se toldar de nuvens, as frentes frias eram sempre inesperadas e ir à praia exigia um bocado de sorte, já que São Pedro nunca dava pistas sobre seu humor. Até uma famosa banda de rock nacional, os Paralamas do Sucesso, gravaram uma música chamada... “Será que vai chover?”

Hoje não. O serviço de meteorologia se sofisticou e raramente falha, o que tornou inútil a dor no calo do seu Severino, indício certeiro de chuva no final do dia. Os avanços tecnológicos permitem prever furacões na costa leste dos Estados Unidos, geadas no sul de Minas e seca braba no agreste pernambucano. Há aparelhos que indicam com precisão a umidade relativa do ar, a temperatura ambiente e até a sensação térmica, maneira particular e intransferível de cada um sentir seu calorzinho. Em suma, hoje tudo é previsto e previsível, absolutamente quantificável, o que contribui para o planejamento de múltiplas atividades. O problema é que fica tudo muito monótono.

Sinto saudade do tempo em que uma tempestade nos surpreendia no meio do caminho, atolando o carro e encharcando os ocupantes até a alma. Sinto saudade de uma boa chuva de verão, tão inesperada como um telefonema no meio da noite. Sinto saudade de olhar para o céu em busca de uma pequena faixa de azul, quando nuvens ferozes impediam nossos planos de ir ao mar. Sinto saudade porque hoje basta ligar a TV, ou acessar a internet, e lá estão as previsões do tempo, certeiras, científicas, infalíveis e irrecorríveis.

E o que é pior: nos últimos tempos, elas não andam nada animadoras...

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