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Opinião
08/02/2019 10h24

Roda Viva

Por Henrique Selva Manara


“Ninguém,
Ninguém vai me segurar
Ninguém há de me fechar
As portas do coração
Ninguém
Ninguém vai me sujeitar
A trancar no peito a minha paixão...”

Assim começa a canção “Cordão” de Chico Buarque, música que ouvi pela primeira vez quando tinha uns 16 anos e morava no bairro Federal, da minha São Lourenço. Engraçado como naqueles anos, eu ainda adolescente, começando a me apaixonar pela arte brasileira, por meio de várias canções de Chico, Caetano, Gil, sentia uma espécie de sombra maligna oculta entre todos nós. As músicas me levavam a me interessar pelos contextos históricos, e assim o passado se fazia presente em meu imaginário juvenil. Ditadura militar, repressão, censura, pessoas desaparecidas. Seria possível esse estado temerário retornar? Estaria Lord Voldemort recuperando suas forças? Acreditava que não.

Acreditava que depois de tanto sofrimento, uma consciência democrática crescia entre todos, “cultivávamos a mais linda roseira”. Me parecia que “mandávamos no nosso destino”, crença essa redobrada em 1992, quando uma multidão de jovens foi às ruas para expulsar um marajá, mas “eis que chega a roda viva e carrega o destino pra lá”. Porém, se o império contra ataca, assistimos também o retorno dos jedis. Velhos heróis tropicalistas retomam a frente da resistência. Destes, destaco o diretor José Celso Martinez Côrrea e o grupo Teatro Oficina Uzyna Uzona, que após 50 anos remontam a peça “Roda Viva” de dramaturgia e música de Chico Buarque. A importância dessa peça para a história do teatro e arte brasileira é extrema, um grande símbolo de resistência a ditatura militar. Roda Viva protagonizou o início da barbárie contra a cultura no ano de 1968, quando um grupo de homens autointitulados Comando de Caça aos Comunistas (CCC), portando cassetes e socos ingleses, invadiram o teatro Ruth Escobar (SP) destruindo cenários, camarins e agredindo parte do elenco. Ícones como Marília Pera e Walkíria Mamberti sagraram nesse covarde episódio. O caso se repetiu na apresentação seguinte em Porto Alegre, novamente foram agredidos pelo grupo CCC. Hoje muitos se esqueceram como a intransigência e a censura arbitrária alimentam a violência e a opressão à liberdade de expressão. Por isso Zé Celso vem nos lembrar da nossa própria história. Roda Viva parodia nossos dias atuais. A trama nos mostra Benedito Silva (Roderick Himeros) se tornar Ben Silver, um cantor pop que, como “Fausto” de Goethe, vende sua alma ao Anjo negro (Guilherme Calzavara) para obter sucesso. Por meio de uma manipulação midiática realizada por TVs, Facebook, Instagram e Whatsapp, Ben Silver se transforma num mito pop, mesmo diante de sua óbvia incompetência artística. Tudo em sua ascensão não passa de uma fakenews. Sua voz desafinada é maquiada por sua aparência de bom moço, sua falta de reflexão e lealdade para como o povo é piada para seu amigo de infância Mané (Marcelo Drumond). Sua falta de dignidade é a decepção para sua esposa Juliana (Camila Mota) que levantará uma nova voz, uma voz feminina, contra a construção corrupta em que Ben Silver se afundou.

Retornar ao passado nos possibilita pensar o presente com olhos mais aguçados. A história sempre teima em se repetir, para o mal ou para o bem. Grandes artistas como José Celso, Chico Buarque, Caetano Veloso, Fernanda Montenegro, vivem e sobrevivem as várias ondas que agitam a história. Arte e cultura, estes são seus legados, e devemos cultivá-los sem esquecimento de quem somos nós, para que não deixemos mais uma vez que o fogo queime nossa história e a lama mate nossos rios.

A peça Roda Viva continua em cartaz no Teatro Oficina Uzyna Uzona, (Rua Jaceguai, 520, Bixiga, São Paulo) até os dias 8, 9 e 10 de fevereiro e retorna para mais duas apresentações extras nos dias 29 de março e 29 de abril.
Para terminar, retorno ao velho “Cordão”.

Ninguém
Ninguém vai me acorrentar
Enquanto eu puder cantar
Enquanto eu puder sorrir
Enquanto eu puder cantar
Alguém vai ter que me ouvir
Enquanto eu puder cantar
Enquanto eu puder seguir
Enquanto eu puder cantar
Enquanto eu puder sorrir
Enquanto eu puder cantar
Enquanto eu puder...

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