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Opinião
19/06/2014 09h36

Santo de casa não faz milagre

José Luiz Ayres

Por José Luiz Ayres

Partindo do Rio de Janeiro, lá fomos nós estrada a fora em busca da nossa idealizada excursão, a qual tinha o roteiro a partir de Nova Friburgo (RJ) em percorrer toda região serrana Fluminense pelas rodovias às localidades e os municípios, o qual há anos não visitava e que o desejo em curti-los se fazia bem interessante.

A cada cidade em visita, dependendo do prazer em ali permanecer, além do pernoite, passávamos de dois a três dias a explorar as atrações turísticas. E assim fomos desfrutando pelas excelentes rodovias estaduais com belíssimas paisagens descortinadas por impressionantes visuais a nos deixar maravilhados em meio a trechos de florestas, vastas áreas de horticultura, paisagens deslumbrantes, cachoeiras, entre tantos outros atrativos a formar belo conjunto que aos olhos impressionam a nos fazer sentir o quanto a natureza é esplendorosa quando bem cuidada e claro, preservada.

Após quase dez dias de um turismo encantador que nos desligava totalmente do caos urbano do Rio de Janeiro e continuar o nosso roteiro no seguimento pela estrada de Teresópolis a Itaipava, optamos devido ao cair da tarde, pernoitar em uma pousada encravada em meio à mata, que por sinal estava quase lotada por um grupo religiosos que se hospedará ao inicio da tarde. Esse grupo, segundo observamos, tinha sua religiosidade baseada na umbanda, tal as vestimentas, todos de branco com vários tipos de adereços às cabeças e a volta das cinturas e pescoços adornados por colares coloridos.

Depois de uma refeição deliciosa, um sono reparador onde o frio de 6º nos levou aos braços de Morfeu logo a seguir, pela manhã ao deixar o aposento, antes de ser servido o desjejum matinal, sai a caminhar sob uma bruma gélida no intuito de curtir o local, quando fui surpreendido ao passar por mim, um cidadão todo de branco que me cumprimentou educadamente, seguindo apressado pela trilha. Absorto pela natureza, a apreciar os pássaros que ali a voar sobre a densa vegetação a fazer talvez os seus “desjejuns” expondo seus cantos, piados e gorjeios como se estivesse agradecer por mais um dia de vida, me causou estranheza ao ver passar um pouco depois, uma bonita e fogosa mulher também de branco agasalhada por um casacão azul. Pensei comigo, talvez aqueles dois fossem efetuar seus “trabalhos espirituais” na mata a oferendar as entidades às obrigações religiosas.

Seguindo pela trilha, desligado de tudo, já com algum tempo de caminhada, percebo  o som suave de uma queda de água. Procurando localizá-la, me vali do pequeno córrego encontrado e cheguei a um local onde descortinei a pequena cachoeira. Admirando-a, observei que aquele casal postava-se sobre uma pedra: Ele de pé a fazer gestos com os braços e mãos como um gestual religioso fosse e ela a sua frente de joelhos e cabeça baixa entre as mãos como estivesse a orar. Me afastei obviamente, a deixá-los livres às obrigações espirituais e segui o meu rumo. Porém, depois de pesquisar o local, admirar a flora e a abundante fauna sem que deixasse da trilha, escuto algo como gemidos. Estranhei e resolvi observar, avançando sobre a vegetação copada e me estarreci, ao ver que aquele casal se encontrava em êxtase total, ambos, no que pese o frio, nus sobre uma pedra cujo sol incidia, num enrosco amoroso. Mais que depressa, voltei à trilha e me pus de retorno à pousada visando o desjejum.

A degustar nosso “break fast” ao lado da mesa dos umbandistas, de repente chega aquele casal a juntar-se aos irmãos em crença, que de imediato em reverência ao cidadão, elevam-se das cadeiras a saudá-lo com gestos próprios da religiosidade a dizer: - Salve mestre, sarava meu pai, axé filho de oxossi!

Por sua vez a mulher que o acompanhava, senta-se ao lado um careca, que após beijá-la pergunta se foi proveitosa a ida à cachoeira e se os “trabalhos” foram bem intensos e assimilados. Com ares de felicidade, sorridente, a tocá-lo  no rosto o responde: -Amor, nunca me senti tão feliz! Foi sem duvida a minha melhor benção e passe que tive, pois me sinto mais leve do que nunca. Nosso amor a partir de agora será sempre protegido por oxossi. Colocando o leite em sua xicara, também a mostrar-se solidário com a sua mulher,  o careca coça; não sei se por pura coincidência ou não, a testa e profere: querida, embora também esteja satisfeito, fiquei com uma incômoda  dorzinha de cabeça, mas que logo passa, pois deve ser pela ansiedade em vê-la feliz depois do “Descarrego espiritual”.

Após o desjejum, fechamos o nosso pernoite e a deixar a pousada e seguir viagem. Matutando que “santo de casa não faz milagre”, mas aceita quando o de fora faz acontecer.

Ah... esses turistas religiosos fiéis as suas crenças, sempre estarão predispostos a nos oferecer momentos que excedem a razão na felicidade pela religiosidade, a mostrarem-se eternamente pitorescos nos atos praticados.

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