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Opinião
05/04/2019 09h26

Se houver paradoxo, que haja boa poesia!

Por Ana Terra Oliveira

“Tudo me é lícito, mas nem tudo me convêm.” Esse é um ditado bíblico que eu sempre ouvi dizer. Coríntios nunca se fez tão necessário, tão atual, pois as circunstâncias hoje exigem escolha correta. É preciso vigilância, é preciso buscar conhecimento, sair da ignorância, é preciso presença no agora, certa dose de questionamento sobre as coerências das coisas e muito entendimento prático e consistente sobre o bem para não cair nas seduções da moda.

A sociedade do paradoxo está no meio de nós. Estamos envolvidos hoje na névoa social que o filósofo Lipovetsky veio nos abrir os olhos. É a sociedade hipermoderna onde certos valores são equacionados exponencialmente: hiperconsumismo, Individualismo, hipernacisismo, Imediatismos. Cuidado! Chegamos aos extremos. Estejamos despertos, vigilantes!

São tantas tecnologias, tantas informações, tantas ofertas de produtos. Ansiedade para ter, ansiedade para aparecer. “Ser” nem sempre dá ibope, não dá muitas curtidas e visualizações, nem movem milhões de dólares em clipes do novo álbum. Muitas vezes tem sido assim! Mas eu sei que nem sempre é assim, eis o paradoxo.

Revestidos por este espírito da época, as coisas viram moda e caem no vazio, até mesmo na indignidade, na fragmentação. Tudo é rápido, há logo uma nova versão. A nova versão já existe antes mesmo da última versão ser lançada. Está tudo planejado para incitar o desejo.

Aquela história: você mal acaba de comprar o celular e sente que ele já está ultrapassado. Uma insatisfação constante, que até mulheres e homens querem trocar de cabelo como se trocam de roupa.

E no mundo das reflexões, importantes para mudar o modo de fazer e viver, grandes lições passam pelos dedos despercebidas na rolagem dos feeds das redes sociais... ninguém se demora em refletir apreciando um único pensamento. A mente se agita e logo milhares de pensamentos surgem simultâneos.

Nem sempre é assim, eis o paradoxo.
Mas deste lado da coisa as postagens de ontem são tão velhas e antigas quanto os casacos do avô. E os textos? Se lidos são engolidos num buraco negro, perdidos, que ninguém é capaz de retornar a meditar sobre... Nem sempre é assim, eis o paradoxo.

Mas aos 30 anos tem gente que já se sente velha, se preocupando em demasia com as rugas, as aparências... É a sensação de velharia que nos acomete. E há jovens tão cansados que fogem de qualquer pesado. Nascidos de pais que muito trabalharam para garantir-lhes os bens e os consumos e as oportunidades deste tempo. Tempo onde é normal não ter tempo para nada, nem para cultivar amizades, olhar nos olhos, completar frases com gentileza, sabe aquele diálogo gentil? Mas a coisa é tudo na base do “Ok!” e às vezes de forma bem autoritária e agressiva.

Poesia então, nem se fala, coisa rara de se ler! Porque exige entrega, exige presença, exige sentir, respirar, pensar, contemplar, exige estar presente no agora! Muitos reclamam da poesia, dizem que é um emaranhado de palavras sem nexo, sem sentido. Eu que sou poeta digo: sem nexo é a indisposição para estar diante da poesia, para viver o agora! Ler poesia pode ajudar a serenar, curar ansiedade, pois não é possível ler poesia com leitura dinâmica. A poesia exige vivência! Exige respiração, entonação, respeito aos ritmos, à pontuação. Quem se arrisca, se transforma!

É preciso mudar de paradigma diante dos paradoxos. Se de um lado existe um espírito permeado pelo vazio de sentido, do outro lado, nunca se viu tantos movimentos em busca pelo saudável, tantas receitas para inovar na alimentação consciente, tanta busca por uma vida mais orgânica, mais simples, próximo à natureza, com proteção aos animais e ao meio ambiente, e a preocupação na garantia dos direitos humanos. E isso é muito bom! É conseguir trazer a luz em tempos que o espírito da época anda tão acinzentado.

Mas é questão de escolha!
Eu quando ia à praça me deparava com este paradoxo e me intrigava. Eu queria ir a um lugar agradável, com árvores, para respirar e via pessoas alegres brincando com os cachorros na grama verde de um fim de tarde. Pessoas animadas andando de bicicleta, outras fazendo caminhada, yoga, outras fazendo meditação, outras conversando sobre palestras e filmes que traziam boas ideias para o bom vivem. Mas ao mesmo tempo via casais se agredindo, animais abandonados, grupos sentados usando drogas, pessoas estressadas com buzinaços no trânsito...

Este é o paradoxo: a existência dos dois lados da moeda neste mesmo tempo, as vezes em espaços tão próximos. Mas viver e experimentar estes lados é uma escolha. Esta é a grande esperança e liberdade para tempos hipermodernos: é escolha de cada um decidir o que vai viver! Com que parte do paradoxo você ancora a sua vida? É uma questão de escolha! Escolher um implica em abandonar o outro. A escolha é concretizar, solidificar, tornar consistente, para que a vivência real aconteça. Se houver paradoxo, que saibamos escolher pela luz e não pelas cores cinzas. Havendo paradoxo, eu prefiro ficar com o que é bom, eu escolho poesia!

Ana Terra Oliveira é moradora de São Lourenço, Psicóloga, Escritora e Contadora de Histórias.

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