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Opinião
12/06/2014 15h48

Trem da alegria e da tristeza

José Luiz Ayres

Por José Luiz Ayres

Com o advento da aproximação do mega evento mundial a acontecer no Brasil, ou seja; a Copa do Mundo de futebol em 2014, me fez recordar um episódio narrado pelo inesquecível Miguel; famoso chefe de trens da RMV (Rede Mineira de Viação), o qual ocorreu na ocasião da Copa de 1950, quando também tivemos este evento aqui realizado. De acordo com sua revelação, este fato o marcou para sempre, tal o sentimento que o povo demonstrava pelo civismo exagerado, tomado por um patriotismo maior até mesmo que o futebol, a achar que vencer a Copa eram favas contadas. Afinal na última Copa, na Itália em 1938, já havíamos conquistado um terceiro lugar.

Dizia Miguel, que na sexta-feira, anti-véspera da partida com o Uruguai, o expresso das 4:45 horas, deixou São Gonçalo do Sapucaí com a lotação bem expressiva de passageiros, coisa incomum em ocorrer. À medida que atingia as estações, mais pessoas embarcavam a ocupar os lugares ainda disponíveis, inclusive com manifestações acaloradas a ecoar às plataformas. Chegando a São Lourenço, a composição férrea teve incluída mais dois vagões extras, onde uma grande massa de passageiros se acomodou em total alegria de: viva o Brasil, este título é nosso, Brasil campeão, o melhor do mundo, entre tantos fraseados e ditos a enaltecer os jogadores e pejorar o adversário que aquela altura vinha credenciado por vencer a Copa de 1930 e sem que reconhecessem também a sua vontade e garra em querer ser, como nós, campeões do mundo.

Com a Maria-Fumaça, agora, engalanada com bandeiras brasileiras e outros tipos de ornamentos, partiu o expresso sob forte alarido serra abaixo, a apitar mais que o necessário aparando às próximas estações, onde a inclusão de novos passageiros se fazia, integrando-se a festa. Miguel na sua peculiar paciência, evidente um pouco tolhido em executar a sua tarefa rotineira, seguia na obrigação profissional cumprindo a missão de chefe de trem, procurando orientar seus comandados em meio aquela euforia desenfreada, a evitarem conseqüências danosas que colocassem em risco os passageiros e obviamente o patrimônio da ferrovia por possível ato de vandalismo eventual que viesse a ser praticado.

Finalmente ao chegar à estação de Cruzeiro, a baldear para o trem Vera Cruz oriundo de São Paulo, lá foi a massa de torcedores ocupando os vagões especiais formados e inclusos ao Rio de Janeiro naquele 14 de Julho, levando o apoio e a esperança do torcedor sul mineiro a nossa seleção futebolística. O resto e o epílogo dessa história o Brasil inteiro já conhece. Dispensa a falar do triste e fatídico 16 de Julho de 1950.

À tarde da segunda-feira, Miguel, óbvio triste como toda população brasileira, aguardava à chegada do Vera Cruz procedente do Rio de Janeiro. Sob sepulcral silêncio a contrastar com o dia nublado e frio que fazia, como se a natureza também sentisse a tristeza, vê apontar à plataforma a composição férrea. Ao parar, passa a observar o desembarque dos passageiros, que cabisbaixos, visivelmente arrasados como houvessem perdido uma guerra, põe-se a caminhar à direção do expresso sul mineiro que os levaria serra acima.

Miguel que a tudo presenciava, emociona-se ao ver aquela até então, euforia de sexta-feira, onde bandeiras desfraldadas drapejavam ao vento com gritos e saudações enaltecedoras de vitória, ser transformada em quase um cortejo fúnebre tal a consternação expressada por aquela massa taciturna que se deslocava pela plataforma com bandeiras enroladas, como a meio-pau fosse um sinal de luto. Sem dúvida, foi uma das cenas que mais marcou Miguel e que não podia esquecê-la jamais. Afinal, havia presenciado a metamorfose de um sentimento de alegria para a doída e perene tristeza, numa derrota, mesmo com muita luta e vontade de ganhar.

É dispensável contar, que a viagem de regresso, juntamente com o ar gélido da serra da Mantiqueira, entre denso nevoeiro, tornou-se como estivessem a caminho da eternidade pelo mundo ter acabado naquela tarde tenebrosa de 16 de Julho de 1950, mesmo sendo o Brasil o vice-campeão!

O que, para o povo, representou uma vergonhosa derrota, pois queria ser o campeão. Portanto, coloquemos nossas barbas de molho que 2014 está próximo!

 

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