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Opinião
20/05/2016 11h17

Um instante de felicidade

Encabulado, mesmo me sentindo orgulhoso, não tive coragem de me apresentar

Sensibilizado e porque não um tanto envaidecido pelas palavras elogiosas ouvidas de um casal, que nas poltronas ao lado participava do agradável passeio turístico no Trem das Águas, sobre a mensagem inserida à embalagem da aguardente oferecida pelas recepcionistas durante a viagem, fiquei a observar o diálogo que o casal passou a manter com outro casal de idosos, que também endossava os elogios, por se considerar daquele momento em diante um “bem vivido”. Sobre risos demonstrando descontração, disseram que gostariam de poder conhecer o espirituoso e poético autor daquela tocante mensagem, cuja inspiração de fato trazia aos que lê, um raro momento de reflexão e respeito pelo amor a Vida.
Encabulado, mesmo me sentindo orgulhoso, não tive coragem de me apresentar, pois preferi manter-me incógnito a ter que assumir e revelar a “paternidade” de uma simples mensagem de cunho publicitário. Entretanto sem esperar, o senhor dirigindo-se a mim, indagou se eu havia lido e passou-me as mãos a garrafinha. Educadamente, conhecendo o texto, claro, aceitei o gesto, li e a devolvi. O outro cidadão, sorrindo descontraído, perguntou-me em que faixa etária me colocaria. Meneando a cabeça, respondi que em todas, pois curto bastante o passeio como um jovem fosse, me inspira nas paisagens através das janelas do vagão e no romantismo para incitar os momentos amorosos e me considero também um eterno bem vivido. Afinal tive a felicidade na minha infância de participar, viver e conviver com o lirismo deste trem, que agora trouxe e traz àqueles que dele desfrutam nesses 10 km de trilhos até Soledade, um pouco de amor através dos tempos, cujas recordações nos fazem reviver sobre os ruídos das rodas, o odor da lenha queimada e os apitos, a pureza e a paz que tanto desejamos para viver nos dias de hoje.
O senhor, que se intitulava “bem vivido”, então resolveu contar que teve nesta ferrovia (RMV) o início de sua vida profissional como funcionário dos Correios e Telégrafos, onde por 18 anos na função de postalista, operou no trem neste sul de Minas a percorrer vários ramais atendendo inúmeros municípios. Entretanto, em 1943, por ser conhecedor dos idiomas inglês e Frances, foi convocado pela sede, por imposição da Direção Geral, a trabalhar na censura dado a guerra, como “violador”, digo; censor de correspondências. Sem poder recusar a ordem, deixou por três meses o trem, retornando após ser considerado “incapaz” por não ter interceptado uma única carta suspeita. Confessou, que durante o período que serviu à censura, nunca violou uma correspondência. Não tinha coragem de fazer. Foi como fez questão de dizer, realmente um incapaz graças a Deus.
Hoje aos 84 anos, retornou a São Lourenço visando reencontrar o passado que deixou há 45 anos, sob as malhas ferroviárias de Minas Gerais, que hoje pelo Trem das Águas, descortinando quase as mesmas imagens, tenta recordar retrocedendo no tempo à memória, cuja saudade ainda permanece indelével no peito, agora como passou a intitular-se, de um “bem vivido” e não como nostálgico ancião atrelado a suposta esclerose e senilidade debruçado num varandão de saudades, que certamente serão como tantas outras memórias, apagadas implacavelmente pelo tempo, como a fumaça das Marias eram extintas pelo sopro da brisa, do vento e do apito lamentoso, cujo eco calou-se para sempre entre as montanhas de Minas Gerais e obviamente do Brasil, sem que houvesse pelo menos um resguardo à história em respeito ao passado poético onde uma afortunada geração pode desfrutar. Portando, se você desejar reviver ou ver esta raridade, venha curtir o trem das Águas aqui em São Lourenço, pois lhe garantimos no mínimo que encontrará um instante de felicidade!

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