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Opinião
20/04/2016 09h47

Um intruso e as consequências!

Por José Luiz Ayres

Em meio ao frescor e o silêncio, lá ia o expresso campista mais uma vez na sua viagem noturna rumo ao norte fluminense, conduzindo seus passageiros entre os peculiares cochilos, madornas, sonolências e os costumeiros roncos, apneias e, obviamente, sonhos e pesadelos. Evandro após cumprir sua rotineira tarefa a percorrer os seis vagões: dois da 1ª classe, três da 2ª e o carro correio, resolveu inspecionar os mangotes de ar comprimido dos vagões responsáveis pelo sistema de freio do comboio. Ao chegar entre os carros 2 e 3, depois de vistoriar o encaixe dos mangotes e se elevar a prosseguir na operação técnica, observou no interior do vagão 3 um certo burburinho e vários gritos.
Apressado, abriu a porta de acesso e, mesmo com a luminosidade precária, constatou que estava formado um alvoroço com pessoas agitadas de pé sobre os assentos das poltronas, uma correria com alguns se esbarrando a gritar, causando uma histeria generalizada. Tentando obter informações sobre o que estava ocorrendo, Evandro perplexo, pedia calma e que dissessem o motivo de tamanha balbúrdia. Nisso um cidadão posicionado de pé sobre o assento de sua poltrona, tenta falar, quando é atingido à cabeça por uma sacola que o deixou aturdido a esfregar a custosa calva após voar o chapéu que a cobria. Inconformado com a confusão se chega ao meio do corredor procurando inteirar-se do problema, quando uma rechonchuda mulher, apavorada, se lança sobre Evandro, que por sua vez, sem esperar, se desequilibra indo ao chão sob a pesada criatura, que agitada se esforça a levantar. Prensado pela mulher, preso aos bancos sem ter como agir, finalmente consegue empurrá-la e ergue-se a colocar a mão à testa.
Com o tumulto generalizado, onde vários passageiros saiam porta afora e o histerismo a prevalecer, Evandro aos brados consegue acalmar o ambiente e toma ciência do que ocasionara o reboliço, depois que uma freira também com os pés sobre o assento com as mãos a segurar o hábito em suspenso, visivelmente nervosa, diz que foi um rato a dar início a tudo, mesmo sem tê-lo visto e, portanto, não precisar seu tamanho. Outro cidadão que viajava à poltrona da frente, fala que se tratava de uma enorme ratazana, pois sentiu seu volume quando passou sobre seus pés descalços, deslocando um dos seus sapatos que permanecia ao lado. Uma mulher que ao fundo do vagão se localizava de pé sobre a poltrona a se segurar no bagageiro em total pânico, externando pavor pelo tom de voz trêmulo, retruca a dizer que eram dois ratos e não um. Nessa altura diante do desordenado falatório, um homem que de cocares sobre o assento, resolve tecer críticas a ferrovia Leopoldina Railway, a dizer que a empresa deveria ter mais atenção na higienização das suas composições a evitar problemas como esses. Afinal se paga por ter um serviço digno.
Evandro um tanto desarticulado solicita a todos que se mantivessem tranquilos, que iria dar um jeito e que precisaria de pelo menos dois voluntários à caça dos intrusos roedores. Mas para a sua surpresa, ninguém se apresentou. Nenhum marmanjo se dignou a auxiliá-lo na complicada tarefa.
De posse do lampião que se utilizava na inspeção dos mangotes, passou a efetuar a busca, solicitando àquele que tivessem sacos ou pacotes ao chão, que os retirassem e assim como colocassem seus sapatos. Agachando-se a movimentar o lampião de um lado para o outro, correu todo o vagão sem nada a encontrar. Porém, ao chegar à porta onde entrara, vê o chapéu do homem vitimado pela sacola caído no canto do vagão sob a poltrona. Solicitando que o apanhasse, o cidadão colocando a mão embaixo da poltrona, o apanhou e quando ia pô-lo à cabeça, eis que um ágil camundongo pula do chapéu sobre o peito correndo ao chão. Com muita sorte, Evandro que o observava, o esmaga com uma rápida pisada. Pegando-o pela ponta do rabinho, o eleva a iluminá-lo pela luz do lampião e comunica todos os presentes que a “enorme ratazana” foi capturada e morta por uma simples pisadela e que todos voltem aos seus sonhos, pois o pesadelo acabou e não mais tirará o sono de vocês. Como adendo, lembro aos maus informados, que nossas composições são adotadas a cada viagem, de completo processo de higienização e limpeza. Portanto, a presença de um camundongo é possível de ocorrer proveniente das paradas obrigatórias às estações, ou mesmo nas sacas conduzidas pelos próprios passageiros.
Desejando bons sonhos, lá foi Evandro com mais um episódio a fazer parte da sua rica bagagem ferroviária, quando se depara com um dos seus agentes que o procurava e que se espanta ao olhá-lo a perguntar a causa do pequeno machucado à testa. Retirando do bolso o lenço, o passou sobre o ferimento e, sorrindo, diz ao agente: - Foi apenas um intruso camundongo que resolveu por a prova a “coragem” dos passageiros do vagão 3!

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