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Opinião
14/06/2016 10h12

Um trem chamado pantaneiro

Por José Luiz Ayres

General Imenes, um amigo a quem tivemos a felicidade em conviver por vários anos, que dispensava qualquer qualificativo a enaltecê-lo tal a simpatia e o humor a transmitir aos que dele se chegavam pela maneira espirituosa, carinhosa e despojada a qual tratava o seu semelhante, no que pese fosse um oficial de cavalaria, que pela arma é comum sua presunção e arrogância, porque não dizer, prepotência, também veio ilustrar nossa coletânea com um episódio ocorrido quando servia num dos batalhões de fronteira próximo a Bolívia e Paraguai.

Naquela oportunidade, por volta de 1947, como tenente-coronel, comandava a unidade militar, quando foi solicitada sua presença no Ministério da Guerra. Na época, o transporte era efetuado a cada mês por aviões cargueiros militares responsáveis pelos suprimentos e abastecimentos bélicos à unidade, ou em deslocamento via terrestre por viaturas militares. Fora estas locomoções, só mesmo pelo famoso e lendário trem do pantanal, que em longa e exaustiva travessia cruzava parte do Pantanal Matogrossense a atender aos pantaneiros partindo de Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia. Este comboio, muitas vezes por tracionar vários vagões, era constituído e conduzido por duas locomotivas. Seus carros não tinham distinção de classe e por isso comportavam todo tipo de parafernália, desde bagagens comuns ao mais variado de bugigangas como: sacos de cereais, mobiliário, peixes sem as mínimas proteções de higiene, carnes diversas, caças, aves vivas, enfim tudo que era troço; segundo o general, que se podia imaginar a ser transportado, inclusive viajar de pé aos corredores centrais dos insalubres vagões.

Sem ter como aguardar o transporte aéreo, dada a urgência da solicitação, optou pelo “expresso” pantaneiro e acompanhado do seu ordenança, lá foram o tenente-coronel e o 2º sargento sentados às “poltronas” de madeira trilho afora pantanal a dentro, molestados pelos mosquitos, calor sufocante, ambiente hostil, mau cheiro intragável que se assemelhava a uma pocilga e como se não bastassem os incômodos esbarrões e tocar de corpos no excesso de passageiros e tralhas que entupiam o corredor do “pobre” vagão.

Já sob o escaldante calor e o sacolejar constante de horas de viagem a encharcar de suor as roupas em que os glúteos doloridos davam sinais de irritação e impaciência, de súbito um alarido eclode provocando uma correria frenética a espremer as pessoas uma às outras num vozerio histérico sem que atinasse o motivo. O sargento ordenança, assustado, de pé, fala ao seu comandante: “- É uma onça coronel!”.
Elevando-se, Imenes constata o fato e saca do coldre sua pistola e sai à direção do animal, que acuado ao fundo do vagão passa a rosnar em posição de ataque. Os responsáveis pelo bicho, dois pantaneiros, pedem para não sacrificá-lo, pois a onça era razão dos seus sustentos, já que seria repassada ao comprador em Corumbá e que havia saído da jaula quando elevou a lona que a cobria ao colocar um pedaço de carne. Ouvindo aquele lamento absurdo, só havia um jeito a fazer; ou seja, abrir a porta e dar fuga ao animal. Mas como iria escancará-la, se a onça posicionara exatamente ali a dificultar a aproximação ao local? Nisso, o sargento vira-se ao coronel e se prontifica a ir por fora do trem, galgando o madeirame com ajuda de uma corda como um alpinista até a varanda com acesso à porta. Mesmo com a atitude contestada por Imenes, o bravo militar deu início à operação com ajuda de seu superior que segurava a corda onde o sargento se amarrara, sob os olhares de expectativa dos apavorados passageiros.

Finalmente, conseguiu atingir a varanda e agora, como faria para abrir a porta, se a onça ao sair fosse em sua direção?
Por recomendação do coronel, solicitou que penetrasse no vagão de trás, que o bicho ao se ver na varanda em liberdade, saltaria do trem. E não deu outra, foi de acordo com o previsto, com o animal ganhando sua liberdade a correr pela campina.
Retomada a “paz” no vagão, sobrou para os militares que passaram a ser ameaçados pelos injuriados caçadores, a exigirem a paga pela fuga do animal sob pena em agredi-los a jogá-los fora do trem.

Imenes, ao escutar tal ameaça, junto com o sargento erguem-se do lugar e partem sobre os dois a dar voz de prisão, mesmo sofrendo agressão ao resistirem à prisão. Os dois pantaneiros foram entregues em Corumbá à polícia local. Só que não houve o “repasse” a nenhum “comprador”, foi de graça e não teve paga como teria a onça, que àquela altura gozava de total liberdade no seu reduto pantaneiro!

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