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Opinião
24/04/2014 08h32

Um mero coadjuvante, mas orgulhoso

José Luiz Ayres

Por José Luiz Ayres

Numa ocasião, depois de desfrutarmos de memorável passeio turístico a bordo do trem que faz o percurso de São João Del Rey a Tiradentes, passamos a visitar o Museu do Trem, onde, entre várias relíquias ferroviárias, ficamos a apreciar os velhos e conservados equipamentos, que de certa forma contam histórias das ferroviárias mineiras. Ao caminharmos após a apreciação das inesquecíveis peças (locomotivas, vagões, litorinas, troles, entre a gama de apetrechos), penetramos num amplo espaço, cujo conteúdo histórico baseava-se no documental e em fotos que descreviam sobre a criação e expansão das ferrovias, sobre como os trilhos ajudaram sobremaneira no desenvolvimento e na economia.

Com certo interesse e atenção fiquei a observar aquele importante acervo, quando me deparei com o histórico da Locomotiva 245, com a qual tive a oportunidade, ainda criança, de conviver e ver em atividade na cidade de Campanha, MG, onde tinha seu reduto operacional.

Esta maria-fumaça marcou de maneira contundente minha vida. Afinal, foi nela que, aos 9 anos de idade, tive pela primeira vez a emoção de entrar numa cabine e sentar-me a conduzi-la, sob as vistas e cuidados do maquinista Sr. José Gomes, no trecho da linha de apoio a uma rotunda (giratório). Este episódio marcante e memorável me transformou, me fazendo sentir a criança mais orgulhosa do mundo, pois não era um sonho, era pura realidade. Havia conduzido uma maria-fumaça! Na ocasião, causou até muita celeuma e dúvida junto aos colegas de colégio onde estudava no Rio de Janeiro, pois não acreditavam no que eu dizia, atribuindo aquilo a uma grande mentira. A “coisa” tornou-se tão conflitante que papai foi obrigado a comparecer no colégio para “provar” minha história, levando as fotos onde à cabine da locomotiva eu manuseava os comandos, ao lado do Sr. José Gomes. Na verdade, para mim, eu estava convicto do meu feito, que diante da grande emoção pueril, não atentava que apenas fazia figuração, embora tenha também acionado o apito, o que mais me transformava verdadeiramente num maquinista. Como me orgulhava desse feito! Principalmente quando parte daqueles colegas que duvidaram, talvez pela inveja natural de que a criança é dotada, passaram a indagar como era “dirigir” uma maria-fumaça...

Mas a surpresa maior, talvez mais emocionante que aquela da infância, foi quase cinquenta anos depois deparar-me com uma foto que papai havia tirado também, onde me vi inserido ao histórico da 245, ladeado ao Sr. José Gomes, segurando uma almotolia (recipiente utilizado na lubrificação de peças) e ali fazendo parte do documental naquele museu, óbvio como mero e anônimo coadjuvante, o qual me vi emocionalmente integrado à história das ferrovias, mesmo sendo aos olhos dos visitantes apenas uma criança a fazer “arte” e atrapalhar a vida de um maquinista.

Essa fotografia, bem como a história da Locomotiva 245, chegada ao Brasil, especificamente a Minas, em 1926, e os documentos doados pela família do Sr. José Gomes ao museu são as únicas referências existentes sobre a saudosa maria-fumaça que ainda hoje perpetua à minha memória bem viva e que naquele museu me fez retornar com expressiva emoção ao passado. Vendo aquela foto já bem amarelada pelo tempo, um flagrante até então desconhecido, que meu saudoso papai tão bem retratou num instantâneo e que hoje se encontra exposta pertencendo a um acervo a contar parte da história ferroviária mineira, que tristemente aos poucos vai sendo ofuscada aos olhos das gerações, esquecida perante a modernidade e apagada da memória igual às chamas que arderam por décadas nas inesquecíveis marias-fumaça que, hoje, como pequenas fagulhas ainda permanecem incandescentes, como o Trem das Águas, o da Serra, o de São João Del Rey e outros, que se mantêm ativas pelo sopro da brisa da saudade e mantidas acesas graças a abnegados preservacionistas como Patrick Dollinger, que aqui em São Lourenço procurou nos presentear com tão valiosa relíquia, mantendo-as aquecidas sob as cinzas no presente aquecendo as gerações que desfrutaram e conviveram com o som de um apito em boa parte de suas vidas.

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