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Opinião
23/09/2015 14h45

Vicentini, o cristal trincado

José Luiz Ayres

Vicentini um atrapalhado cidadão que foi levado à prática da profissão de caixeiro viajante por meu saudoso pai; Luiz Ayres, no início da década de 40, dada a insistência de um amigo seu negociante importador na área de produtos alimentícios, proprietário da famosa firma M. Toledo Comercio & Importação no Rio de Janeiro, tornou-se segundo Luiz o viajante mais ingênuo que conheceu, enquanto dedicou-se a nobre tarefa de vendas, mesmo apoiado durante bom período nas atividades inerentes aos procedimentos profissionais, cuja perspicácia da profissão, a retidão era fator preponderante ao bom nome da empresa representada, como à confiança do representante junto aos que dele se valiam a propagar o bom nome e a credibilidade dos seus negócios aos consumidores. Portanto, o relacionamento oferecido por Luiz, a indicá-lo aos seus amigos negociantes mineiros se fazia importante e nos apoios dos chefes de estações das inúmeras cidades onde Luiz pela convivência, amizade e simpatia o tornava parte da família ferroviária.

A primeira viagem de Vicentini foi um sucesso inesperado ao retornar, trazendo inúmeros pedidos de vendas efetuadas, principalmente às latas de azeites, sardinhas portuguesas, vinho do Porto e do apreciado vinho italiano (Chianti Rosito) e, elaborado por Luiz, um cadastro constando dezenas de comerciantes seus amigos interessados à aquisição dos produtos, vez que à maioria os desconhecia.

Com o decorrer do tempo Vicentini já integrado à rotina das vendas, foi aos poucos vivendo com suas próprias pernas, sem que Luiz o orientasse mais sobre a dinâmica do mercado. Afinal o que se propôs junto a M. Toledo, tinha sido bem executado tal a demonstração de apreço que fora distinguido pela direção da empresa.

Com o tempo, e vez por outra os dois a se encontrarem nos trens e estações a trocar prosas, com Vicentini a falar bem do seu trabalho e com Luiz sempre a lembrá-lo e orientá-lo a não se deixar levar pelo sucesso e nunca largar de lado a confiança e a retidão junto aos seus compradores.

Certa feita, Luiz ao desembarcar do trem em Alfenas, tem atenção desviada pelo chamamento do chefe da estação a dizer que haviam três telegramas a ele, sendo um solicitando urgência. Ao lê-los, dois eram de M. Toledo, preocupados à falta de notícias e na ausência de Vicentini com seus pedidos. O terceiro expedido à véspera era de Vicentini de São Gonçalo do Sapucaí a solicitar ajuda por não saber o rumo a tomar. À manhã seguinte lá estava Luiz em São Gonçalo no armazém em que seu estimado primo Lúcio era o responsável, a aguardar à presença do embaraçado colega. Não tardou chegou a “figura” e logo foi desabafando: - “Luiz preciso de sua ajuda, pois me meti numa enorme enrascada ao me enrabichar por uma bela mulher e ser obrigado a fugir de Itajubá sendo procurado pela policia e em consequência esconder-me por aqui a ter pelo amigo Lúcio todo apoio”. Vicentini envolvido pela paixão passou a ceder aos encantos e lábias da espertalhona e a tornou sua sócia no negócio onde alugando uma loja, passaram a centralizar as remessas das mercadorias e não mais pela entrega direta aos compradores, que dada à confiança com os fornecedores passaram a pagar antecipadas as duplicatas e a tal mulher a revendê-las mais caras em outras praças a solicitar novo pedido a M. Toledo no intuito de repô-las. Com essa operação, óbvio as entregas passaram a atrasar e começaram às reclamações a Vicentini que ia contornando, até que estourou a bomba com a mulher desaparecendo deixando o ingênuo vendedor sem saber como sair dessa, com uma dívida considerável a ser paga pela falcatrua que vinha sendo executada junto aos compradores e bem como a M. Toledo. E o pior, a confiança arranhada pela talvez ingenuidade. Luiz penalizado assumiu a dívida juntamente com Lúcio e Vicentini passou a trabalhar no empório em troca de ajudar a pagá-la.

O motivo encontrado como desculpa a M. Toledo e aos compradores foi “uma tuberculose”, cujo tratamento à cura durou seis meses onde então retornou as atividades, embora Luiz não mais o considerasse um amigo mesmo tendo assumido sua representação pelo afastamento do colega.

Afinal, como diz o dito popular cristal trincado nunca poderá ser recuperado e perde sua beleza...

 

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