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Opinião
07/05/2015 10h20

Vinho abençoado por ato de grandeza!

José Luiz Ayres

Numa das ultimas visitas que fiz ao meu saudoso amigo monsenhor Barbosa; antes de sua internação no hospital da Ordem 3ª da Penitencia no Rio de Janeiro, como procedia apôs minhas freqüentes viagens ao Sul de Minas, onde sempre o presenteava com apetitosas guloseimas tão apreciadas e o solicitar a benção aos objetos religiosos que costumava trazer aos amigos, daquela vez entre a parafernália, lá estavam duas garrafas de licor de jabuticaba a serem presenteadas a padre Antônio – um acompanhante encaminhado pela cúria a auxiliar e ajudar monsenhor Barbosa nas tarefas e obrigações litúrgicas no Convento d’Ajuda onde residia e vivia há alguns anos, vez que me confidenciou ser um apreciador da bebida e há anos não saboreava.

Após saber do licor, monsenhor Barbosa sorrindo, guardou as garrafas a dizer que padre Antônio ficaria muito agradecido pela lembrança e que elas me trariam reciprocidade de agradecimento, pois fazia recordar-se de um episódio em que o trem foi cenário num retorno do Rio de Janeiro e pôs-se a narrá-lo.

“Depois de visitar meus familiares em  Santa Cruz, (bairro do Rio) aproveitei para comparecer à cúria Metropolitana de Rio de Janeiro, no intuito de saber sobre as encomendas destinadas a arquidiocese de Valença, onde a Matriz de Rio das Flores, minha paróquia, carecia com certa urgência de vinho, vez que o estoque já rareava, o que deixava certa preocupação à oficiação das missas.

Naquela oportunidade, não era comum à utilização de qualquer vinho, mas sim um produto especial vindo da Itália com indicação do Vaticano, inclusive com a chancela da Santa-Fé, com as encíclicas papais.

Obtendo a informação que o pedido já estava em vias de expedição; via correio à próxima semana, me prontificou a levá-la a Valença, no que me foi confiado, no que pesem os volumes e cuidados, mesmo tendo o auxílio de um diácono a serviço no Palácio São Joaquim que me acompanharia até a Estação Férrea D. Pedro II (depois Central do Brasil). Como era de se esperar, tudo correu satisfatório e parti no expresso à cidade de Barra do Pirai, com a carga devidamente embarcada em dois engraçados de madeira contendo uma dúzia de garrafas cada, armazenadas com toda segurança num dos vagões de cargas, que por sinal, não havia manifesto de carga por gentileza do chefe do trem que por acaso me conhecia e agraciou-me com o frete.

Percorrendo por algum tempo sobre aqueles trilhos, a apreciar e curtir as belas paisagens onde as visões pelo progresso já despontavam e me faziam recordar da infância em Santa Cruz, cheguei a até então famosa e fervilhante estação de Barra do Pirai. Deixando o vagão, obtendo a informação pelo chefe do trem, que minha carga estava sendo baldeada ao trem que seguiria a Valença e que me despreocupasse, pois o chefe da estação estava ciente da cortesia. Não demorou, já baldeado, o expresso deixou a estação rumo a Valença, última etapa da tranquila viagem.

Chegando finalmente ao destino, à plataforma solicitei do chefe da estação; Sr. Mário meu fraterno amigo, que providenciasse junto ao chefe do trem à retirada dos engradados. De repente, Mário um tanto perplexo e aturdido se chega, a dizer que a tal carga não havia sido embarcada, pois no local reservado não foram encontrados os engradados e solicitou-me o manifesto da carga a fim de reclamar junto a Barra do Pirai. Sem como atendê-lo, a responder que não possuía manifesto algum, já que fora agraciado com o frete, fomos após a partida do expresso à sala do telégrafo solicitar informações. Infelizmente a carga dos vinhos “misteriosamente” se escafedeu; ou seja, desapareceu! Fato que deixou a todos desarticulados e entristecidos.

Dias depois, com as missas sendo oficiadas com a sagração do vinho de origem comum, adquirido ao armazém da cidade, recebo a visita na casa paroquial, de seu Mário chefe da estação de Valença, que me faz a entrega de dois engradados de vinhos italianos; da marca “Chiant Rosito”, a dizer que fora conseguido através dos amigos ferroviários que se cotizaram a estação me presenteando, pois nossos fiéis não podem ficar sem a sagração na comunhão do Sangue de Cristo!

Um tanto emocionado pela grandeza daquele gesto, como homem e como  sacerdote acima de tudo, agradeci aos amigos ferroviários por aquele ato nobre, marcante e significativo, rogando a Deus pela hombridade externada num simples gesto, talvez de compaixão. Em nome dos fiéis, aceitei e agradeci, abençoando a todos representados por Sr. Mário e prometi em breve celebrar uma missa à estação de Barra do Pirai. O que ocorreu dias depois na presença de muitos fiéis.”

 

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