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Opinião
10/09/2015 11h36

Zoraide, a “fera” das ferrovias

José Luiz Ayres

Zoraide, uma mulher de origem árabe, notória pela exuberante e exótica beleza e na maneira ousada em trajar-se, pois já aquela época utilizava-se do uso de calças; fato não comum, a chamar atenção por onde passava e  apresentava-se, conhecida como “a balzaquiana” dado ao romance do escritor francês: Honoré de Balzac, a fazer com que Luiz, meu pai, se mostrasse um tanto maravilhado às vezes que cruzava com a deslumbrante mulher à estação de Cruzeiro- SP, nas suas baldeações ao sul de Minas.

Certa vez, ao desembarcar do trem, observa a deixar de outro vagão, a bela árabe a portar com dificuldade suas malas. Apressado no caminhar pela plataforma, se chega ao lado da mesma e se oferece em auxiliá-la com as bagagens, no que foi correspondido, mesmo ter sofrido alguma resistência no oferecimento. Por fim a conduzir as malas, lá se foram em caminho até a bilheteria no intuito de adquirirem suas passagens ao sul de Minas e, Luiz retirar do carro bagageiro suas canastras dos mostruários, onde após a operação, permaneceram a conversar entre goles de café no quiosque da estação, enquanto aguardavam o trem com destino a Minas em uma hora previsto. Porém, de súbito, se surpreende com a revelação da balzaquiana, a dizer que era também uma “caixeiro viajante” a exercer sua atividade em pouco mais de seis meses, a apresentar seus produtos: lingeries e complementos femininos, aos comerciantes mineiros nas suas andanças nas duras vendas. Só que não representava qualquer indústria, ou alguma representação, já que sua linha de produção era confeccionada por ela própria, a idealizar suas peças íntimas baseadas na criatividade pessoal, em procurar dar a mulher um pouco de sensualidade ao usá-las e não a permanecer passivamente à mesmice de peças como mero objeto de uso comum do cotidiano, sem que atentasse á graça em usufruir de uma beleza erótica a elevar sua alto-estima de feminilidade tão desinteressada entre as humildes e simples interioranas.

A perplexidade de Luiz, se deveu porque durante seus anos de profissão, nunca soube ou viu uma mulher nesta árdua tarefa. A final, como se dizia na época; prova é o titulo, caixeiro viajante, pois tal trabalho não se adequava à mulher. Não que houvesse preconceito, mas por ser uma ocupação bruta, onde o esforço físico ser bem desproporcional à fragilidade feminina. E mais ainda, sendo que a mulher estaria passível de assédios constantes tanto por colegas e dos próprios comerciantes com investidas, as vezes até com chantagens, visando possíveis “affair” prazerosos momentâneos.

A partir de então, Luiz experiente e vivido, passou a orientá-la e proporcionar a Zoraide mais dinamismo profissional  tendo-a como acompanhante a apresentá-la aos comerciantes seus fregueses e amigos e a fazer-se cordial e amiga junto ao pessoal das ferrovias que prima pelo bom atendimento, pois a utilização dos trens passará a ser ferramenta imprescindível do trabalho na labuta incessante à busca do sucesso.

Daquele encontro inicial, nasceu e recrudesceu a forte amizade e suas vidas profissionais se irmanaram, onde o respeito  e a dignidade prevaleciam, mesmo com Zoraide a se apresentar; com a concordância de Luiz, a se dizer “namorada” dele, a fim de afugentar os maus intencionados em assediá-la e tentar cortejá-la, já que Luiz, jovem alto e forte como era, com seu corpo atlético de ex-remador, impunha respeito aos pretensos conquistadores.

Numa ocasião, Luiz ao deixar o trem em Boa Esperança, MG, observa que a plataforma estava por pessoas, além da conta do movimento rotineiro. Ao indagar de um agente ali postado, soube que era devido ao entrevero no vagão 4, de outro trem, onde uma mulher entrou em luta corporal com um indivíduo que tentou agarrá-la, e que não obteve êxito no seu intento e acabou “ massacrado “ pela vítima. O chefe do trem se viu na obrigação em solicitar a presença da polícia, não só a prender o tarado, como levá-lo ao atendimento médico devido aos ferimentos ocorridos à cabeça, provocado por sapatadas recebidas e muitas unhadas pelo corpo.

Luiz chegando-se ao tal vagão pode constatar que a vítima era Zoraide e, que ao vê-lo, veio à sua direção a abraçá-lo beija-lo e a levá-lo à presença do chefe, a apresentá-lo como seu “marido “.

Luiz confirmando e vendo o estrago físico no tarado e às consequências que a encrenca poderia ocasionar, resolveu dar o caso por encerrado, no que aceitou o chefe e deixaram o local sobre aplausos das pessoas à plataforma.

Daquele dia em diante, Zoraide passou a ser conhecida pelos ferroviários como “ a fera da ferrovia” e Luiz como o “domador de fera”.

 

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