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Política
06/10/2021 17h20

Prevent Senior gastou R$ 4,8 milhões com o ‘kit covid’

Planilhas de compras da rede Prevent Senior, em posse da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid, no Senado, apontam que a operadora de saúde gastou R$ 4,8 milhões durante a pandemia com medicamentos do chamado "kit covid". Ao todo, foram adquiridos 1,98 milhão de comprimidos de hidroxicloroquina, azitromicina e ivermectina - que têm ineficácia comprovada contra a covid-19. A empresa afirma que as compras foram feitas por "prevenção", mas médicos da operadora denunciam a prescrição indiscriminada do "kit" para associados.

Um dossiê entregue à CPI, assinado por médicos da Prevent, aponta que os profissionais de saúde eram obrigados a receitar os medicamentos - caso contrário, seriam demitidos - e que pacientes da rede foram tratados com esses remédios sem saber. Segundo relatos colhidos pela comissão, sacolas fechadas com o coquetel de drogas eram enviadas até para quem sequer havia feito o teste para a doença. A operadora também é acusada de subnotificar casos de covid e fraudar atestados de óbitos para referendar a suposta eficácia do "tratamento precoce".

Do total gasto com hidroxicloroquina e azitromicina durante a pandemia, 75% do valor foi desembolsado entre março e maio do ano passado. Os meses coincidem com o período em que a Prevent Senior fez um estudo para testar a eficácia da hidroxicloroquina associada à azitromicina no tratamento da covid-19. Na época, a rede divulgou que a pesquisa tinha sido feita entre 26 de março e 4 de abril do ano passado, para avaliar possíveis reduções no número de internações em pacientes com suspeita de infecção pelo novo coronavírus.

Em depoimento à CPI no mês passado, o diretor executivo da Prevent Senior, Pedro Benedito Batista Júnior, negou ter havido testagem em massa e afirmou que o estudo era "observacional". O dirigente disse ainda que os médicos da rede tinham autonomia para receitar os remédios, e que os pacientes que receberam hidroxicloroquina e azitromicina foram acompanhados pela operadora.

O estudo foi suspenso pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) em 20 de abril. O órgão descobriu que os testes com pacientes foram iniciados antes de a empresa receber o aval para a realização da pesquisa, o que é proibido no País. O grupo de médicos que denunciou irregularidades na operadora à CPI afirma que a rede ocultou mortes e revisou dados na pesquisa.

Os números do estudo foram citados pelo presidente Jair Bolsonaro, principal estimulador do "tratamento precoce", em 18 de abril do ano passado, como prova da sua falsa tese de que as pessoas não precisavam fazer quarentena ou usar máscara porque a combinação de hidroxicloroquina e azitromicina curaria a doença. A versão é contestada pelos médicos que acusam a Prevent. Eles afirmam que não havia autonomia médica, e receitar os medicamentos era obrigatório.

"Uma compra desse volume deixa claro que a prescrição (dos medicamentos) fazia parte da estratégia da empresa", disse o epidemiologista e pesquisador da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) Pedro Hallal. A hidroxicloroquina é um medicamento indicado para doenças autoimunes, como artrite reumatóide e lúpus. A azitromicina é um antibiótico usado para tratar desde infecções sexualmente transmissíveis a pneumonia.

Em nota, a Prevent Senior afirmou que "investiu R$ 250 milhões em equipamentos hospitalares e de proteção, medicamentos e pessoal na pandemia". A rede informou que "procurou comprar em escala, o quanto possível, para se prevenir de novas ondas da pandemia". "Só em respiradores, R$ 20 milhões foram investidos na compra de 200 máquinas a mais. Os investimentos desmontam a tese de que houve preocupação com redução de custos no atendimento aos pacientes de covid e outras doenças. O esforço também incluiu máscaras e EPIs", diz a nota.

Além do Senado, a rede também é investigada pelo Ministério Público, e CPIs para apurar as denúncias foram propostas na Assembleia Legislativa e na Câmara Municipal de São Paulo. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Fonte: Estadão Conteúdo
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