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Saúde
22/04/2016 08h40

Autismo - Entrevista exclusiva com especialista no tema, Juliana Godoi Fialho

Conhecendo melhor o Autismo

Jornal Correio do Papagaio (JCP): Você poderia caracterizar o que se entende por Autismo?

Juliana Godoi (JG): O Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) é um transtorno do desenvolvimento de origem genética e neurológica que afeta o desenvolvimento infantil em duas áreas principais: 1) Habilidades sociais e de comunicação; e 2) Variabilidade comportamental. Na primeira área estão as deficiências relacionadas ao desenvolvimento da linguagem, da comunicação funcional, e de outras habilidades que compõem o repertório comportamental necessário para as interações sociais. A criança com TEA pode atrasar para adquirir a linguagem e, em casos mais graves, pode não falar. Além disso, a criança com TEA não demonstra originalmente interesse pelos outros, tende a se isolar ao invés de buscar companhia e tem dificuldades de compreender a linguagem verbal e não verbal (gestos e expressões faciais) utilizadas por outras pessoas. Na segunda área está a dificuldade em variar o comportamento. Crianças com TEA apresentam comportamentos motores ou verbais repetitivos; têm dificuldade de lidar com mudanças de rotina; e podem apresentar rituais, ou seja, sequências de comportamentos executadas sempre da mesma maneira.

JCP: Ainda é difícil diagnosticá-lo?

JG: O diagnóstico do TEA está cada vez mais rápido e eficiente. Com o aumento das pesquisas e da compreensão sobre o transtorno, neurologistas e psiquiatras infantis têm fechado diagnósticos em uma única consulta, já que o diagnóstico é apenas clínico, não envolve nenhum exame. Estes diagnósticos estão sendo executados cada vez mais cedo, o que permite um início de tratamento mais precoce e, com isso, um melhor prognóstico.

JCP: Em que fase da vida aparecem as primeiras manifestações da doença?

JG: Os sinais do Autismo estão presentes desde o nascimento da criança mas, nesta fase, é difícil detectar estes sinais já que são muito sutis, tais como: falha em manter contato visual com os cuidadores; ausência de atenção compartilhada (ou seja, não intercalar o olhar entre os olhos do adulto e um brinquedo mostrado por este); ausência de reciprocidade sócio emocional (ou seja, não sorrir direcionado ao adulto que faz uma brincadeira); etc. O mais comum é a família ou a escola notarem os sinais quando as habilidades deficitárias já estão muito evidentes nas outras crianças da mesma idade, o que costuma acontecer depois do primeiro ano de vida, quando a criança deveria começar a emitir algumas palavras ou gestos para se comunicar (como o apontar) e isso não acontece. O ideal é que o transtorno seja diagnosticado antes dos 3 anos de vida, para que a intervenção comece o mais precocemente possível e, assim, possa atingir melhores resultados.

JCP: Como reagem os pais ao saber que têm um filho com Autismo?

JG: É sempre um choque e um sofrimento enorme, já que o TEA é um transtorno sem cura, ou seja, uma condição permanente. Num primeiro momento, alguns pais negam o diagnóstico, buscam outras opiniões e outras explicações para o atraso no desenvolvimento dos filhos. Outros pais, superam rápido esta fase e partem para a ação, ou seja, iniciam a intervenção multidisciplinar o mais rápido possível. Esta segunda atitude é a ideal, já que evita mais perda de tempo no desenvolvimento da criança.

JCP: Quais são as maiores dúvidas em relação ao Autismo?

JG: Muitos pais questionam sobre o futuro dos filhos com Autismo, se serão independentes, se vão fazer faculdade, se vão casar, se vão tomar conta de suas vidas. Esta é uma preocupação comum, já que ninguém é eterno e os pais temem que a criança se torne uma adulto dependente e eles não estejam mais vivos para cuidar dele. Esta dúvida fica sem resposta por algum tempo, porque só podemos levantar uma hipótese do prognóstico quando a criança começa o tratamento em si. Se a criança for respondendo bem às intervenção, aprendendo novas habilidades rápido, conseguindo ampliar sua comunicação verbal, aprendendo a interagir com as pessoas, vamos concluindo que se trata de um caso leve que pode sim se tornar um adulto independente e fazer tudo que uma pessoa com desenvolvimento típico faz na vida. Mas, quando a criança apresenta muita dificuldade de aprender novas habilidades, quando a evolução é muito lenta, mesmo com diversas mudanças de procedimentos de ensino, pode ser que o caso seja grave e realmente no futuro seja um adulto dependente.

JCP: Em um contexto nacional, podemos dizer que nosso ensino público/particular está preparado para englobar crianças com Autismo?

JG: Acho que estamos melhorando à passos largos neste aspecto, embora a inclusão escolar ainda tenha muito que melhorar para ficar ideal. Nos últimos anos, novas leis surgiram para garantir o direito das crianças com Autismo a uma educação inclusiva em escola regular. Com isso, as escolas públicas e privadas estão, aos poucos, se adequando para receber estes alunos. Infelizmente, ainda é comum encontrarmos escolas que não estão abertas a fazerem as adaptações necessárias no ambiente, no currículo e no material oferecido a estes alunos, o que torna o processo muito mais difícil. Também esbarramos no problema da capacitação dos profissionais das escolas, que ainda é muito deficitária.

JCP: As implicações do Autismo nas sociabilidades do indivíduo podem ser superadas pela inclusão escolar?

JG: Isso varia muito de um caso para o outro. Nos casos moderados e leves, uma inclusão escolar adequada pode ajudar a superar todas as barreiras sociais do indivíduo. Mas nos casos mais graves, mesmo uma escola que faça tudo que deve ser feito, pode não conseguir ampliar as habilidades sociais. Por isso, algumas crianças acabam precisando continuar a educação em escolas especiais. Isso acontece, principalmente, quando o Autismo não está sozinho, ou seja, quando existe comorbidade com outros transtornos ou síndromes que afetam a cognição, tornando a aprendizagem muito complicada. Crianças com comportamento muito agressivo ou muito agitadas também podem não se adaptar a uma escola regular e precisar do ensino especial.

JCP: Como foi a recepção do público de São Lourenço em relação ao tema?

JG: Foi maravilhosa! A procura surpreendeu a todos nós. Na primeira palestra o local escolhido nem conseguiu comportar o público que compareceu. Por isso, no segundo dia a palestra foi dada em um local maior que também ficou completamente lotado. As pessoas participaram muito, com ótimas perguntas, relatos de casos, problemas cotidianos vividos na inclusão escolar destas crianças. Foi bastante enriquecedor para todos. Pude perceber como a demanda da região é grande neste assunto. Tem muitas crianças com Autismo nas escolas de São Lourenço e região, e os profissionais estão ávidos por capacitação, para darem o melhor para estes alunos. O interesse e a vontade de aprender para poder ajudar é enorme. Por isso, grupos de profissionais já estão entrando em contato com a clínica da qual faço parte para contratar outros cursos de capacitação. Eu, como filha da cidade, me sinto honrada em poder contribuir para esta capacitação e estarei sempre à disposição para fazer o que estiver ao meu alcance.

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