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21/01/2021 09h02

Documentário flagra o desalento do jornalista e escritor Antonio Callado

Segundo ano da ditadura militar, novembro de 1965. Está marcada uma reunião da OEA (Organização dos Estados Americanos) no Rio. Mas, por estatuto, a OEA só se reúne em países democráticos. O governo de Castello Branco assegura que o Brasil vive uma democracia plena e, portanto, o evento pode ser realizado. O próprio marechal faria o discurso de abertura. Um grupo de intelectuais acha aquilo uma desfaçatez. "Além de darem um golpe, ainda têm o cinismo de se apresentar como democratas", diz um deles. Armam um protesto em frente ao Hotel Glória, para o qual esperam centenas, talvez milhares de manifestantes. Aparecem oito. Os "Oito do Glória" - entre os quais, o jornalista e escritor Antonio Callado (1917-1997), personagem da cinebiografia dirigida por Emília Silveira, e que estreia nesta quinta, 21.

Os "Oito do Glória" naturalmente foram presos naquele arremedo de democracia que se encenava no País. Houve repercussão mundial. E até cinematográfica. No filme de Jean-Luc Godard Masculino, Feminino, o personagem de Jean-Pierre Léaud firma o abaixo-assinado de solidariedade aos brasileiros presos. São as imagens de Léaud que abrem o documentário Callado.

O filme começa com esse ato político de Antonio Callado, e a escolha não poderia ser melhor. Intelectual refinado, jornalista combativo, escritor talentoso e com lugar garantido na literatura brasileira, Callado foi um homem politicamente ativo. Um indignado, como convém a todo brasileiro de bem, diante de uma sociedade de injustiças seculares, escassa tradição democrática e com uma "elite" predatória e extrativista, incapaz de ceder nem sequer um anel para preservar os dedos.

A trajetória de Antonio Callado deu-se pelo jornalismo - naquela época, o jornal era o ganha-pão do candidato a escritor, já que publicar livros nunca deu camisa a ninguém no Brasil (exceto para best-sellers como Jorge Amado e Erico Verissimo). Trabalhou no Correio da Manhã, ao lado de cobras como Otto Maria Carpeaux, Antônio Houaiss, José Lino Grünewald, Carlos Heitor Cony e outros. Esteve em Londres durante a 2.ª Guerra Mundial, no serviço radiofônico da BBC. Foi ao Xingu em busca dos ossos do coronel Percy Fawcett, cobriu as Ligas Camponesas do Nordeste em sua luta pela reforma agrária e esteve no Vietnã durante a guerra contra os Estados Unidos. Era homem de ação, e não escriba de gabinete. Em várias entrevistas, transpostas no filme, diz que o intelectual brasileiro e o jornalista não têm desculpas para ignorar a revoltante condição social do País. Não vivemos numa terra da justiça e da abundância e não podemos nos dar ao luxo de produzir uma obra de punhos de renda e amenidades. Assim pensava ele.

Sua obra literária o confirma. Além do carro-chefe Quarup, influente romance dos anos 1960, deixou uma série de obras de ficção, engajadas e críticas em relação à realidade brasileira, como Bar Don Juan e Reflexos do Baile. A opção não o livrou de polêmicas, mesmo entre a esquerda. Se Quarup fornecia um modelo de compromisso político na pessoa do protagonista, o ex-padre Nando, Bar Don Juan foi visto por alguns setores mais radicais como convite à alienação. Já Reflexos do Baile, em formato epistolar, espelha como nenhuma outra obra a época conturbada do sequestro de embaixadores, forma encontrada pela oposição armada para libertar companheiros presos pela ditadura.

Para traçar esse perfil, a diretora Emília Silveira vale-se de uma série de recursos. Além do material de arquivo (ótimas entrevistas do personagem), usa grafismos e efeitos visuais na tentativa de transpor o material literário para o suporte audiovisual. Um grupo de críticos discute a obra de Callado e sua hipotética permanência. Por sorte, as pessoas desse grupo são inteligentes e bem-humoradas. Não cedem à santificação do personagem, embora visões mais críticas fossem desejáveis, a título de contraponto. O depoimento sincero de Tessy Callado, filha do escritor, enriquece o filme.

A vida que conhecemos de Antonio Callado foi brilhante, mas não isenta de percalços. No plano pessoal, teve de conviver com o suicídio de uma de suas filhas, diagnosticada como esquizofrênica. Depois de carreira muito consistente, não apenas no jornalismo como na literatura, Callado foi perdendo espaço. Salvou-o uma coluna que manteve nos últimos tempos no jornal Folha de S. Paulo.

Também no plano político teve de enfrentar desilusões profundas. Não conseguiu ver realizados seus sonhos de um país melhor e mais justo. Os de sua geração - e também de gerações mais jovens - esperavam que, com o fim da ditadura militar (1964-1985), o Brasil deslanchasse como foguete. Não foi o que aconteceu. Se algumas conquistas foram alcançadas, o País sempre ficou aquém de suas potencialidades.

Isso o amargurava, como deixou registrado em sua última entrevista, concedida aos jornalistas Matinas Suzuki e Maurício Stycer. Nela, Callado manifesta todo o seu desalento em relação ao país pelo qual tanto havia lutado. Morreu uma semana depois, em 28 de janeiro de 1997, dois dias depois de completar 80 anos.

Ah, sim: os Oito do Glória eram nove - além de Callado, Márcio Moreira Alves, Carlos Heitor Cony, Thiago de Mello, Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade, Jayme Rodrigues, Mário Carneiro e Flávio Rangel estavam na porta do hotel para vaiar o marechal Castello Branco.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Fonte: Estadão Conteúdo
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