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22/11/2019 08h10

Um samba com o estilo de Erasmo Carlos

O Erasmo do samba é quase outro Erasmo. Muito distante do romantismo de sua produção mais visível, feita com o amigo Roberto Carlos desde o início dos anos 1960 em músicas de uma era, como Emoções e Sentado à Beira do Caminho, no sentido contrário à corrente sonoramente datada e poeticamente superficial dos anos 80, com canções como Mulher e Pega na Mentira, os sambas são a sua fortaleza, a fonte para onde deveria correr todos os dias em que acordasse com carência de inspiração. Sempre dá certo.

Os sambas de Erasmo são quase um gênero em si. Têm o movimento das gafieiras nos arranjos de metais, mas são mais sutis, o que imprime um suingue de sinteco e os aproxima do que os paulistas das periferias dos bailes de lona preta nas lajes dos finais de 1970 passaram a chamar de samba rock e os cariocas do Clube Renascença, de sambalanço. Enquanto Roberto se tornava Rei da Jovem Guarda, com título renovável a partir de 1966, coroado em um programa do Chacrinha na TV Excelsior, Erasmo virava um outsider Rei do Samba Rock, algo do qual nem seria comunicado, a partir de 1970, quando fez Erasmo Carlos e Os Tremendões e, no ano seguinte, Carlos, Erasmo. "Eu sempre fiz samba, mas ninguém prestou atenção", diz ele ao jornal O Estado de S. Paulo, na última terça, 22, quando já tinha 77 anos.

Erasmo faz seu primeiro show de samba (claro que não irá se conter e colocar os seus "maiores sucessos", como diz) neste final de semana, sexta, 22, no Blue Note. As apresentações adiantam-se ao lançamento de um EP com oito sambas previsto para sair em dezembro, segundo a gravadora Som Livre, com o nome de Quem Foi que Disse Que eu Não Faço Samba?. Os shows serão em duas sessões, às 20h e às 22h30. A primeira, com um formato que Erasmo usa para pequenos espaços, em piano de José Lourenço e voz, cantando o repertório mais conhecido. A segunda, para enfim mostrar os sambas que fez sempre entremeados em discos românticos e de rock. Uma música que nunca gravou neste estilo é Maria e o Samba, com uma história boa de se contar.

Era essa uma das canções que Roberto levava para a Boate Plaza, no Rio, antes de ser Roberto. "Eu fiz essa música quando estava com a bossa nova na cabeça. Roberto imitava João Gilberto nessa época e um dia me levou à boate para vê-lo cantar a minha música. Eu era menor de idade, 17 anos, e não podia estar ali. Por isso entrei escondido com o paletó do porteiro emprestado. Eu chorei vendo ele cantar minha música." A canção permanecia inédita em gravações até agora.

O samba de Erasmo mais samba e menos samba rock talvez seja Samba da Preguiça, feita por Roberto e Erasmo para um show de Nara Leão em 1972, na Boate Flag, que quase saiu em um álbum produzido por Dom Salvador, nunca lançado. Um samba com uma sequência cromática de acordes, subindo e descendo em meios tons, que nada se parece com o repertório dos amigos. Outro samba em tom menor, a la Chico Buarque de Construção, épica, cinematográfica, é Cachaça Mecânica, de 1973. E aqui, como em Mané João, os sambas de Erasmo cravam outra particularidade: eles são crônicas ou contos, povoados por personagens populares e cenas trágicas ao final. "Eu me considero um contista", diz Erasmo. As imagens de suas canções saem, diz, de uma bagagem que ficou dos anos em que lia muitas revistas de histórias em quadrinhos e frequentava os cinemas do Rio de Janeiro. "Minha imaginação é rica e eu nunca tive medo do ridículo. Boa essa frase, né?".

No momento e que ganha confiança, Erasmo responde se essa face, a do sambista, não seria a mais verdadeira daquele garoto da zona norte do Rio cheio de malandragem. Se esse Erasmo não seria o mais genuíno de todos. "Quer a verdade lá no fundo mesmo? É isso. É nessas músicas que uso o palavreado das galeras, que faço o ritmo que curto tanto." E então, porque essa fase, se é a mais original, ficou soterrada sob toneladas de rock e baladas românticas desde 1965, quando começou a Jovem Guarda? "Quando eu apareci, já veio aquele negócio de rock, rock, rock. E, na verdade, eu comecei ouvindo muita bossa, além do rock, mas não tive acesso a ela. A bossa era de uma turma elitizada, que tinha pedigree, e o rock não. A verdade é que tínhamos muita cultura musical na época porque tocava de tudo nas rádios." Sobre os arranjos do que chama de "meus sambas", ele diz: "Eu não gosto desses arranjos modernos, todos muito quebrados, sem uma sequência. As pessoas querem recriar o que não precisa ser recriado. O que eu quero é fazer as pessoas dançarem juntinhas."


As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Fonte: Estadão Conteúdo
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