07/02/2022 15h40
André Braz: aceleração do IGP-DI reforça dúvidas sobre alimentos e combustíveis
Embora esperada, a aceleração do Ãndice Geral de Preços - Disponibilidade Interna (IGP-DI) em janeiro, puxada pelos preços das commodities, chama atenção para as principais "dúvidas" para a inflação em 2022, os alimentos e os combustÃveis, afirma o coordenador do Ãndice de Preços do Consumidor do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), André Braz. Mais cedo, a FGV informou que o IGP-DI subiu 2,01% em janeiro, ante 1,25% em dezembro de 2021.
A alta foi puxada pelo IPA-DI, que mede os preços no atacado, com destaque para as matérias-primas brutas, que saltaram 4,42% em janeiro. Foi o segundo mês seguido de avanço acelerado, ante os 4,40% de dezembro, acendendo o sinal de alerta sobre os preços de commodities alimentÃcias ou usadas na manufatura, segundo Braz. Para o pesquisador, esse movimento forma um cenário "bem pior" para a inflação ao consumidor em 2022, em que as expectativas caminham mais para 6,0%, acima do teto de meta perseguida pelo Banco Central (BC).
Minério de ferro, milho, soja e algodão foram algumas das matérias-primas que ficaram mais caras. Os motivos por trás dos reajustes são conhecidos, lembra Braz. No caso das agrÃcolas, a seca no Sul do PaÃs na virada do ano quebrou as safras de soja e milho, apontando para restrição na oferta desses grãos e para alta de preços. No caso das matérias-primas metálicas e energéticas, especialmente o petróleo, perspectivas de crescimento global e as tensões diplomáticas entre a Rússia e os paÃses da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), por causa da Ucrânia, têm elevado as cotações.
Braz lembrou que a seca no Sul frustrou as expectativas de um ano mais leve para os preços de alimentos. Depois de saltar em 2020 e subir em torno de 8% em 2021, a perspectiva era de um alÃvio maior em 2022, com uma safra mais forte. Agora, ao elevar os preços de soja, farelo de soja e milho, a quebra de safra no Sul tende a ter impactos indiretos, sobre os preços das carnes, por exemplo. Mesmo no IPA-DI, os preços das carnes, especialmente suÃna e frango, que dependem mais da soja e do milho como insumo para ração, ainda estão comportados na leitura de janeiro, mas uma nova rodada de encarecimento dos insumos pode jogar por terra o alÃvio dos últimos meses.
"Esse prejuÃzo nas lavouras de ciclo mais longo acaba chegando à s proteÃnas carnes. Algumas carnes estão com numero negativo no IPA-DI de janeiro, mas a seca coloca em xeque o alÃvio", diz.
A incógnita sobre os preços dos alimentos se repete nos combustÃveis. Os rumos das tensões diplomáticas envolvendo a Ucrânia são imprevisÃveis, mas a disputa não parece que vai "terminar bem", na visão de Braz. E os combustÃveis também têm efeitos indiretos e espalhados, como no transporte de cargas e na mobilidade urbana. Não só os combustÃveis, mas os custos de manutenção de veÃculos como um todo saltaram desde o inÃcio da pandemia, o que coloca pressão por reajustes nas tarifas de ônibus urbano, lembra.
Para piorar, o quadro é agravado pelas incertezas quanto ao rumo da taxa de câmbio. O cenário eleitoral tende a levar muita volatilidade à s cotações do dólar, especialmente porque sinaliza para o desequilÃbrio das contas do governo. As polÃticas públicas em debate na campanha poderão dar sinais ora de reformas, ora de mais gastos, afirma.
Além disso, em ano eleitoral, os choques de oferta nos alimentos e nos combustÃveis podem aumentar a pressão polÃtica por subsÃdios públicos para esses itens, como já vem ocorrendo com as propostas de reduzir impostos sobre diesel e gasolina. Num ciclo vicioso, sinais de maior desequilÃbrio nas contas públicas aumentam o risco do PaÃs e, consequentemente, a cotação do dólar, alimentando mais inflação.
"Sempre que temos polÃticas heterodoxas para resolver um problema (de preços), lá na frente, temos que pagar", afirma Braz.
Metas de inflação
Diante da magnitude e da duração de choques de oferta nos preços dos alimentos, dos combustÃveis e da energia elétrica, "talvez fosse a hora" de o Conselho Monetário Nacional (CMN) "dar um passo atrás" no processo de redução das metas de inflação perseguidas pelo Banco Central (BC), afirmou André Braz.
O processo de redução gradual da meta de inflação foi iniciado em 2017, no governo Michel Temer (MDB). Desde então, o CMN tem cortado o objetivo em 0,25 ponto porcentual a cada ano. A margem de erro, para mais ou para menos, também foi reduzida de 2,0 para 1,5 ponto porcentual. Em 2017, a meta de inflação era de 4,5%, objetivo que foi mantido para 2018. Em seguida, caiu para 4,25% em 2019 e 4,0% em 2020. Em 2021 foi de 3,75% e, neste ano, é de 3,5%. As reduções estão mantidas para 2023 (3,25%) e 2024 (3,0%).
Na visão de Braz, o processo de redução da meta é "muito arrojado". "E as coisas mudaram. As metas foram arrojadas sem a covid-19. Com a covid-19, são arrojadas demais. Talvez fosse a hora de dar passo atrás", avalia.
Do contrário, "aonde o juro vai chegar?", questionou o pesquisador da FGV. A taxa básica Selic, em elevação desde o inÃcio do ano passado, chegou a 10,75% ao ano na semana passada, na última decisão do Comitê de PolÃtica Monetária (Copom). "O aumento dos juros é o desespero da polÃtica monetária depois que perdeu a âncora fiscal", completa, numa referência à s mudanças no "teto de gastos", a regra fiscal que limita o crescimento da despesa pública federal de um ano para o outro à variação da inflação.
Segundo o pesquisador da FGV, o CMN não precisaria abandonar completamente o processo de redução da meta, mexendo no objetivo dos anos em que isso é necessário. Por outro lado, a adoção de uma "meta ajustada" apenas em 2022 pode ser insuficiente. Dado o nÃvel de indexação de preços na economia brasileira, "24 meses é um tempo em que a inflação pode esfriar", enquanto apenas 12 meses pode ser pouco, diz. Após a inflação "esfriar", aà sim, o CMN poderia traçar uma nova trajetória de metas, conclui Braz.
Fonte: Estadão Conteúdo