09/12/2018 14h50
Arrendamento ilegal de terras indígenas compromete 3,1 milhões de hectares
A proibição legal de se explorar terras indÃgenas demarcadas não tem impedido que produtores fechem acordos com aldeias espalhadas por todo o PaÃs, avançando com o plantio de grãos e criação de gado sobre essas terras.
O Estado fez um levantamento inédito sobre as terras indÃgenas que hoje são alvo desse tipo de atividade irregular. Segundo dados fornecidos pela Fundação Nacional do Ãndio (Funai), por meio da Lei de Acesso à Informação, atualmente, 22 terras indÃgenas do PaÃs possuem áreas arrendadas para produtores. As negociações clandestinas entre produtores e indÃgenas incluem desde o pagamento de mensalidades para os Ãndios, até a divisão da produção colhida ou vendida.
Nessas 22 terras, mais de 48 mil Ãndios convivem hoje com a exploração ilegal do solo. A área total arrendada aos produtores externos chega a 3,1 milhões de hectares, um território equivalente a mais de cinco vezes o tamanho do Distrito Federal.
É no Tocantins que se encontra o maior caso dessas irregularidades.
Na Ilha do Bananal, maior ilha fluvial do planeta, formada pelos rios Araguaia e Tocantins, lideranças de quase 4 mil indÃgenas de diversas etnias recebem mesadas para abrir suas terras a criadores de gado de corte. As margens da ilha de 1,3 milhão de hectares são cobiçadas pela qualidade do pasto, por conta do fluxo dos rios.
Pequenos pecuaristas locais, os chamados "retireiros", que historicamente conviviam com os Ãndios carajá, javaé e tapirapé, têm sido pressionados a deixarem as terras por conta da pressão de grandes produtores do Centro-Oeste. Várias tentativas de retirada desses produtores foram feitas nos últimos anos. Mas aos poucos os produtores voltaram à região. Hoje, a Ilha do Bananal abriga mais de 114 mil cabeças de gado.
A região Sul do PaÃs é a que mais concentra as explorações ilegais. Das 22 terras indÃgenas com atividades irregulares, sete ficam no Rio Grande do Sul e uma no Paraná
Ao comentar o resultado do levantamento, a Funai ponderou que o cenário pode ser mais grave. "Como se trata de um ilÃcito, obviamente as partes envolvidas procuram escondê-lo aos olhos da lei. Então, pode ser que alguns outros casos existam e ainda não tenham sido identificados oficialmente pela Funai", declarou em nota.
Questionada sobre o que tem feito para evitar as ilegalidades, a Funai disse que tem procurado enfrentar essas situações para retirar os produtores externos das terras. Nos casos em que os povos indÃgenas manifestam interesse em continuar produzindo o que quer que seja, a fundação declarou que "tem organizado processos de transição que possam contribuir para que os povos indÃgenas se apropriem das técnicas e se capitalizem" para seguirem independentes.
Futura ministra defende produção em terras indÃgenas
A futura ministra da Mulher, FamÃlia e Direitos Humanos, Damares Alves, afirma que a regulamentação de leis que permitam a exploração comercial de terras indÃgenas, com acordo direto entre os Ãndios e produtores, será uma das prioridades do novo ministério, que abrigará a Fundação Nacional do Ãndio (Funai).
"Essa questão da produção em área indÃgena é justamente o maior problema da Funai hoje, mas temos visto que essas iniciativas de produção feita pelo próprio Ãndio estão dando certo", afirmou ao Estado. "A Funai já está fazendo isso hoje, já tem iniciativas pioneiras sendo executadas e, ao que me parece, com resultados muito positivos", completou a advogada e pastora, alinhada com a bancada ruralista e com as propostas do presidente Jair Bolsonaro.
"Eu quero tratar o Ãndio como ser humano, como um cidadão, que explore sua propriedade, o subsolo, dê royalties disso, plante ou arrende sua terra para que seja plantada", declarou Bolsonaro no inÃcio da semana.
Organizações socioambientais criticam afirmam que o governo deveria cumprir o que diz a lei, ou seja, coibir atividades irregulares, em vez de regulamentar uma atividade ilegal. Para o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), as práticas do arrendamento de terras não passam de uma "tática de desterritorialização indÃgena no Brasil". "Nós entendemos que o direito constitucional ao usufruto exclusivo dos povos em relação à s suas terras deve ser respeitado e não pode ser modificado", disse Cleber César Buzatto, secretário-executivo do Cimi.
Hoje, há dez terras indÃgenas no PaÃs onde o Ãndio, por conta própria, cuida de sua terra, planta, colhe e vende a sua produção sem nenhum tipo de interferência de produtores externos. Nesses casos, a atuação é considerada legal e é até apoiada pela Funai, uma vez que se trata de uma escolha do próprio povo indÃgena.
Um total de 27 mil Ãndios vivem hoje nessas terras. O caso mais emblemático desses casos é o dos Ãndios paresi, no Mato Grosso. No municÃpio de mesmo nome, cerca de mil Ãndios plantam soja, feijão e milho em partes de uma terra indÃgena que chega a um total de 563 mil hectares. Até a década passada, atuavam de maneira irregular, em acordos com produtores, mas acabaram firmando um "compromisso de ajustamento de conduta" e passaram por uma fase de transição entre 2012 e 2018, até ficarem completamente independentes.
Das dez terras com atividades rurais tocadas pelos indÃgenas, cinco estão no Mato Grosso: Paresi, Rio Formoso, Utiariti, Tirecatinga e Irantxe. Juntas, elas somam 1,1 milhão de hectares, ou duas vezes a área do Distrito Federal. As outras cinco terras estão localizadas em Santa Catarina (Chapecó), Mato Grosso do Sul (Cerrito, Potrero Guaçu) e ParaÃba (Potiguara e Potiguara de MonteMór).
Exceção aos demais casos, voltados para o plantio de grãos ou criação de gado, os indÃgenas das duas terras localizadas na ParaÃba desenvolvem atividades de criação de camarão, tendo se livrado de produtores externos entre 1999 e 2005, passando a cuidarem de suas atividades de forma independente.
A atual direção da Funai vê as iniciativas de forma positiva e afirma que caso os indÃgenas queiram trabalhar com substituição dessas culturas, vai apoiá-los. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Fonte: Estadão Conteúdo