17/09/2017 15h30
BIS: Brasil, Índia e China têm maior parte da dívida pública de emergentes
A dÃvida pública dos paÃses emergentes somava US$ 11,7 trilhões no final do ano passado, um volume maior do que o dobro visto no fim de 2007 e com a maior parte desse montante (cerca de US$ 8 trilhões) emitida por Brasil, Ãndia e China. O raio X foi feito pela pesquisadora Kristina Bektyakova e publicado neste domingo, 17, pelo Banco de Compensações Internacionais (BIS) por meio do relatório de revisão trimestral de setembro, que trata dos "Desenvolvimentos dos mercados bancário e financeiro internacional". No documento, a autora comenta sobre a mudança do perfil da dÃvida promovido nos últimos anos pelo governo brasileiro, que passou a ter um terço de suas pendências indexado à inflação.
O artigo, intitulado "Tendências recentes do volume e composição da dÃvida dos governos de emergentes", destacou que a dÃvida pública desse grupo em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) aumentou de 41% para 51% nesse perÃodo. A composição da dÃvida pública, no entanto, mudou "significativamente" ao longo do tempo. "À medida que os nÃveis da dÃvida aumentaram, os governos emergentes fizeram um maior uso dos mercados de tÃtulos nacionais e internacionais: a parcela média de empréstimos com tÃtulos de dÃvida aumentou de 62% em 2002 para 80% em 2016", comparou. Pelo levantamento, o empréstimo desse grupo de paÃses é feito, principalmente, em moedas locais, com vencimentos mais longos e a taxas fixas. "A emissão doméstica excede muito à emissão internacional, embora o último esteja em ascensão", considerou a autora.
Nas 23 jurisdições estudadas, o empréstimo total do governo central representou cerca de US$ 4,4 trilhões, dos quais 14% foram denominados ou vinculados a moedas estrangeiras no final de 2016. A participação em moeda estrangeira diminuiu consideravelmente ao longo dos últimos 15 anos, conforme o estudo: estava em 32% no fechamento de 2001. A maioria dos tÃtulos da dÃvida denominados ou vinculados a uma moeda estrangeira foi emitida no exterior. Mais de 90% da dÃvida internacional emitida por esses paÃses foi em dólares ou em euros, com a representatividade do dólar passando de 65% no encerramento de 2007 para 75% no fim de 2016.
A fatia internacional representa 35% do total de tÃtulos de dÃvida pública em circulação na Arábia Saudita, 32% para a Turquia e 30% para a Indonésia e a Polônia. Em termos nominais, o principal emissor nos mercados internacionais é o governo central mexicano, com US$ 67 bilhões em dÃvidas, dos quais US$ 47 bilhões denominados em dólares. A parcela dos tÃtulos do governo interno em circulação denominados ou vinculados a uma moeda estrangeira é mÃnima para a maioria das jurisdições.
Kristina ressaltou que muitos paÃses reduziram esse empréstimo nos últimos anos, como a Turquia. A Argentina é uma exceção a esse padrão, já que aumentou a emissão de dÃvida nacional e internacional vinculada ou denominada em moeda estrangeira: o governo central tem US$ 56 bilhões em tÃtulos de dÃvida internacional em circulação, dos quais US$ 37 bilhões são denominados em dólares. Outro progresso citado pela autora é a maturidade média, que aumentou acentuadamente e, para muitos emergentes, agora é comparável ao das economias avançadas. A maturidade da dÃvida pública do grupo analisado está agora em 7,7 anos, apenas um pouco abaixo do das economias avançadas, de oito anos. O prazo mais longo do grupo é o da Ãfrica do Sul, de 16 anos.
Vencimentos mais longos, conforme o estudo, foram acompanhados de maior uso de instrumentos de taxa fixa, que teve participação média de 75% no fim de 2016 ante 60% do encerramento de 1999. Também houve mudanças notáveis, de acordo com o artigo, no uso de tÃtulos de dÃvida indexados à inflação. "Alguns paÃses fizeram um maior uso dessa indexação, aproveitando as condições de inflação geralmente benignas. Os governos brasileiro e mexicano têm substituÃdo os instrumentos domésticos de taxa variável por taxas fixas e indexadas à inflação", citou. No fim de 2016, os tÃtulos indexados à inflação representavam 34% da dÃvida do governo central brasileiro. Uma mudança semelhante ocorreu em economias avançadas, como na Austrália, no Canadá, na Alemanha, no Reino Unido e nos Estados Unidos.
"Em conjunto, essas tendências devem ajudar a fortalecer a sustentabilidade das finanças públicas, reduzindo os desajustes monetários e os riscos de rolagem", avalia Kristina. Para ela, a queda na participação da dÃvida ligada ao câmbio no inÃcio dos anos 2000 pode ter ajudado a proteger os emergentes da turbulência do mercado global na crise de 2007 a 2009.
Fonte: Estadão Conteúdo