16/05/2017 09h15
Conta de luz vai bancar obra no Norte
O governo decidiu adotar uma saÃda nada usual para tentar levar à frente seu plano de construir 721 quilômetros de linha de transmissão entre as cidades de Manaus (AM) e Boa Vista (RR), trecho que falta para interligar todos os Estados do PaÃs por meio de uma única rede de distribuição de energia.
O objetivo é financiar a obra avaliada em cerca de R$ 1,8 bilhão com recursos de um encargo cobrado mensalmente na conta de luz de todos os consumidores do PaÃs, a chamada Conta de Consumo de CombustÃveis (CCC). O uso do encargo para a construção de linhas de transmissão passou a ser possÃvel a partir de um decreto publicado pelo governo na semana passada e que altera as regras sobre utilização desses recursos.
Originalmente, o encargo existia apenas para bancar a compra de itens como óleo diesel, gás e carvão usados em usinas térmicas de regiões isoladas do PaÃs, sem ligação com o sistema interligado nacional. Agora, parte de sua arrecadação poderá ser aplicada nas obras de linhas de transmissão como a Manaus-Boa Vista, um dos projetos mais polêmicos do setor elétrico, pela presença de terras indÃgenas que seriam atravessadas por seu traçado.
Os recursos da Conta de Consumo de CombustÃveis são definidos anualmente pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Em fevereiro deste ano, a arrecadação de 2017 foi fechada em R$ 3,9 bilhões, volume bem inferior aos R$ 6,3 bilhões do ano passado. A queda nesse montante ocorreu após auditorias feitas pela própria Aneel, que reavaliou o volume do combustÃvel usado pelas termoelétricas.
Nas contas do Ministério de Minas e Energia (MME), o consumo anual de combustÃvel pelo Estado de Roraima tem girado em torno de R$ 500 milhões por ano, dinheiro que é pago com recursos do encargo. O uso de mais recursos para financiar a obra vai pressionar ainda mais a tarifa cobrada da população, mas a avaliação do governo é que, após quatro anos de operação, a própria linha se pagará, além e acabar com os gastos com combustÃveis.
Aldeias indÃgenas
A solução financeira não resolve todo o caso. O MME ainda precisa definir o que fazer com a situação da concessionária Transnorte Energia, formada pela estatal Eletronorte e a empresa Alupar. Em setembro de 2011, a concessionária venceu o leilão para construir a linha, que tinha prazo de três anos para ficar pronta e operação prevista para janeiro de 2015. Ocorre que, dos seus 721 km de extensão, 125 km passariam pela terra indÃgena Waimiri Atroari, onde estão 31 aldeias e mais de 1,7 mil Ãndios. O processo não conseguiu autorização do povo waimiri, tampouco da Fundação Nacional do Ãndio (Funai).
No fim do ano passado, a empresa entrou com pedido formal de desistência do projeto na Aneel, após cinco anos em tratativas e discussões para tentar obter licenciamento. No pleito, a concessionária apresentou ainda uma conta de R$ 534 milhões a receber, conforme um estudo financeiro feito pela Fundação Getúlio Vargas para estimar custos no perÃodo e indenizações. A agência acatou o pedido de extinção, mas não julgou a indenização.
Apesar de a Aneel ter se posicionado a favor da extinção do contrato, essa não é a convicção do MME, que pretende levar o projeto adiante. O interesse do governo em construir a linha não se limita apenas à possibilidade de deixar de queimar combustÃveis poluentes ou de se livrar das condições precárias de abastecimento a partir da Venezuela, que hoje entrega energia para parte de Roraima. A linha de transmissão viabilizaria, também, a construção de hidrelétricas planejadas para serem erguidas no Rio Branco.
Resistência
A resistência dos indÃgenas waimiri atroari não demoveu o governo do plano de avançar com a linha de transmissão Manaus-Boa Vista por dentro da terra indÃgena. O argumento é que a mudança do traçado afetaria várias unidades de conservação ambiental e ficaria bem mais cara. Ao passar pela terra indÃgena, a linha seguiria a lateral da BR-174, que já liga as duas capitais e passa na terra demarcada.
O governo acredita que só a Eletronorte prossiga no projeto. O entendimento é que a estatal (que mantém termo de cooperação financeira com os indÃgenas por conta dos impactos causados pela construção da hidrelétrica de Balbina, nos anos 80) terá mais facilidade em firmar acordo para passar a linha de transmissão em suas terras.
Há duas semanas, o ministro da Justiça, Osmar Serraglio, chegou a atrelar a demissão do então presidente da Funai, Antônio Fernandes Costa a dificuldades de negociar o projeto de transmissão com os indÃgenas.
No sábado, 13, o povo waimiri perdeu seu maior defensor e interlocutor. Morreu o indigenista José PorfÃrio Fontenele de Carvalho, responsável pela defesa e recuperação do povo waimiri, quase dizimado na abertura da BR-174, no perÃodo militar. Nos últimos anos, ele fez oposição ao projeto de transmissão por entender que iria interferir ainda mais na vida indÃgena. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Fonte: Estadão Conteúdo