24/02/2021 20h50
Correção: No comando de Itaipu, Silva e Luna cortou custos e militarizou empresa
Ao contrário do informado anteriormente, a nova ponte entre o Brasil e o Paraguai, o novo hospital e a duplicação da BR-469 ainda não estão prontas, mas sim, sendo construÃdas. A informação, divulgada por meio de comunicado, já foi corrigida na matéria. A seguir, o texto corrigido:
Indicado pelo presidente Jair Bolsonaro para assumir a Petrobrás no lugar de Roberto Castello Branco, o general do Exército Joaquim Silva e Luna tem perfil austero e obediente aos comandos dos superiores. "No jargão do setor militar, ele é conhecido como "trecheiro", uma pessoa que avança em um trecho: abraça uma tarefa e a executa", diz Manuel Domingos, doutor em História pela Universidade de Paris, especializado em estudos militares, ex-presidente da Associação Brasileira de Estudos de Defesa (Abed) e professor da Universidade Federal Fluminense. "Como engenheiro militar, é conhecido pela excelência executiva, mas nunca teve credencial de formulador ou se destacou no debate estratégico."
Em outras palavras, para um executivo da área de energia que acompanha de perto o dia a dia de Itaipu, sua gestão à frente da empresa esteve mais para a de um bom burocrata: acompanhou os números muito de perto e enxugou despesas, mas não se caracterizou por uma grande capacidade de negociar. "E isso pode ser preocupante quando envolve temas - e empresas - de maior complexidade", disse essa fonte, que falou sob a condição de anonimato.
Outra caracterÃstica importante do grupo militar do qual o pernambucano Silva e Luna faz parte, diz Domingos, é não ter o viés estatizante ou fazer oposição a privatizações. Ou seja, caso assuma a presidência da petroleira, o plano estratégico da Petrobrás de venda de ativos, em função da priorização ao pré-sal, não estaria ameaçado.
Apesar de os especialistas esperarem que Silva e Luna responda, na medida em que a governança e os controles da Petrobrás permitam, aos comandos de Bolsonaro, não significa necessariamente, que sua gestão se assemelhará à do ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello. CrÃticos afirmam que Pazuello só teria permanecido no cargo por atender à s convicções de Bolsonaro em relação ao combate à pandemia, ao contrário de seus antecessores. Além disso, apesar de especialista em logÃstica militar, seu desempenho no planejamento, compra e distribuição das vacinas também vem sendo encarado como ineficiente.
"Ser como o Pazuello é difÃcil", diz Domingos. "Pazuello se deixou desrespeitar, foi desmoralizado e não pediu as contas. Diversos oficiais tiveram o pudor de se recolher, sendo que alguns, inclusive, o fizeram atirando, preservando a postura de dignidade."
Para Domingos, é preciso aguardar o que Silva e Luna fará no comando da estatal, caso seu nome seja aprovado pelo conselho da Petrobrás. Seu currÃculo mostra duas pós-graduações, em polÃtica, estratégia e alta administração na Escola Maior do Exército e projetos e análise de sistemas, na Universidade de BrasÃlia.
A governança à qual a Petrobrás está submetida é muito maior do que a de Itaipu. As gestões mais recentes da petroleira tentaram blindá-la após as ingerências que resultaram no escândalo da Lava Jato.
Além disso, a usina é administrada pelo modelo de cobertura de custos e não visa ao lucro. Também não tem competidores e é regida por um acordo binacional com condicionantes polÃticas, sem fiscalização de órgãos reguladores como a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) ou o Tribunal de Contas da União (TCU). Na Petrobrás, também há a fiscalização da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e BiocombustÃveis (ANP).
Além das exigências maiores de vários órgãos, Silva e Luna também não contará com o anteparo de Itaipu, com relação à s oscilações cambiais. Por ser binacional, os preços da energia produzida pela usina são dolarizados. Porém, os reajustes que causarão impacto nas tarifas das distribuidoras do Sul e do Sudeste são anuais e consideram perdas com variações cambiais do perÃodo anterior e expectativas futuras.
Missão não cumprida
Como diretor-geral brasileiro de Itaipu Binacional, Silva e Luna tinha a missão de colaborar para as negociações da revisão do Anexo C do Tratado de Itaipu, que regula a parte financeira do acordo e vence em 2023. Com a quitação da dÃvida de Itaipu nesse prazo, o custo da energia produzida pela usina pode cair, mas há divergências sobre o preço a ser cobrado no futuro, bem como desentendimentos sobre os valores atualmente pagos por cada paÃs, que favorecem o Paraguai.
A bem da verdade, é um acordo que não depende apenas de Silva e Luna por ter caráter diplomático. Envolve também os ministérios de Minas e Energia, Economia e Relações Exteriores. Ou seja, na visão de especialistas ouvidos pelo Broadcast Energia, não é possÃvel atribuir somente a Silva e Luna - que completou no domingo, 21, dois anos à frente da empresa - a culpa pela dificuldade em avançar.
Apesar de ter ganhado pontos com o presidente Jair Bolsonaro em 2019, quando conseguiu equilibrar as relações entre Brasil e Paraguai, após um episódio sobre o mesmo acordo que quase derrubou o presidente daquele paÃs, Silva e Luna não conseguiu resolver o maior entrave da usina nos próximos anos. A prioridade ficou sempre com o corte de custos e o acerto das contas de Itaipu.
Bolsonaro também aplaudiu e prestigiou obras na região da usina, à s quais Silva e Luna destinou R$ 2,5 bilhões. Com os recursos, está sendo construÃda uma nova ponte entre o Brasil e o Paraguai, ampliado e modernizado o hospital local, além do projeto da futura duplicação da rodovia a BR-469, que dá acesso à s Cataratas do Iguaçu. Embora essas obras não sejam atividades de uma usina, alguns interlocutores consideram-nas como um melhor destino para o orçamento da empresa do que despesas anteriores, como patrocÃnios a festas e outros eventos. A percepção é de que se desperdiçava dinheiro. Também houve a leitura, porém, de que foram movimentos tipicamente polÃticos para ganhar pontos em BrasÃlia.
De todo modo, Silva e Luna reduziu em 60% as despesas da empresa com patrocÃnios e convênios, fechou escritórios em Curitiba e BrasÃlia, com a redução de aluguel, manutenção e gastos com diárias e passagens de empregados que se deslocavam entre as cidades. Porém, enfrentou dificuldades com os quadros técnicos e o sindicato dos trabalhadores.
Estrelas no comando
Na gestão Silva e Luna, Itaipu tornou-se a estatal mais militarizada do PaÃs. Além do presidente, há quatro executivos e dois conselheiros das forças armadas. Fazem parte da lista o contra-almirante da Marinha Paulo Roberto da Silva Xavier (diretor administrativo); o vice-almirante da Marinha, Anatalicio Risden Junior (diretor financeiro) e o general do Exército Luiz Felipe Kraemer Carbonell (diretor de coordenação). No Parque Tecnológico de Itaipu, o diretor-superintendente é o general Eduardo Castanheira Garrido Alves. Também faz parte do conselho, além do oficial superior da Marinha Célio Faria Junior, o ministro das Minas e Energia, almirante Bento Albuquerque.
Para o lugar de Luna em Itaipu, o Ministério de Minas e Energia (MME) cravou o nome de outro militar: o também general da reserva João Francisco Ferreira.
Silva e Luna também carregará no currÃculo a pior produtividade da hidrelétrica nos últimos oito anos, apesar de não ter culpa disso - o motivo foi a falta de chuvas. Como a usina produziu menos e o dólar aumentou, a energia de Itaipu também acabou sendo um fator de pressão tarifária para os consumidores.
Em 2019, a produção de energia de Itaipu de 79,4 milhões de milhões de megawatts/hora foi suficiente para superar a marca dos 75 milhões exigidos para a cobertura dos custos anuais da hidrelétrica, mas muito inferior ao recorde de 103 milhões de MWh de 2016. Itaipu opera pela lógica de custo e preço fixo. Dessa forma, a produção é utilizada para pagar os cerca de US$ 4 bilhões anuais de custo da usina, sendo US$ 2,4 bilhões para honrar juros e financiadores.
Em nota ao Broadcast Energia, Silva e Luna disse que o momento requer cautela. "Prefiro manter prudência, para evitar qualquer precipitação e indelicadeza com a atual administração da estatal. Estamos a postos para cumprir com a missão que Deus coloca no nosso caminho e a qual nos foi confiada pelo presidente Bolsonaro. Vamos aguardar a manifestação do conselho de administração da Empresa. A Petrobrás é um grande patrimônio do Brasil e tenham certeza que dedicarei todo o meu esforço para fazer o melhor pelo nosso PaÃs."
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Fonte: Estadão Conteúdo