02/07/2017 08h45
Crise pode jogar recuperação para 2019
Os economistas Edmar Bacha, José Roberto Mendonça de Barros, Bernard Appy, Marcos Lisboa e Alexandre Schwartsman já ocuparam cargos públicos. Sabem como polÃtica e economia se entrelaçam. E têm um diagnóstico comum: apesar de o mercado financeiro manter a calma e o governo insistir que está no controle da situação, as denúncias envolvendo o presidente Michel Temer já traçaram o destino da economia real, que só deve mesmo crescer depois que o PaÃs eleger um novo governante.
Há três meses, Mendonça de Barros, ex-secretário de PolÃtica Econômica do Ministério da Fazenda, se declarava um otimista incondicional com a recuperação. Previa para 2017 crescimento de 1% do Produto Interno Bruto (PIB) - até que veio a delação dos donos da JBS. Foi um balde de água fria. Agora, ele estima algo entre 0,5% e zero. "É desolador, porque eu tenho certeza de que a gente ia mesmo sair do buraco, mas a recuperação deu uma miada e fica amortecida até a próxima eleição."
As novas denúncias de corrupção, diz, são indiscutÃveis e conclusivas. Por isso, tiraram de cena a alavanca da retomada: a confiança dos empresários. "Para sair do buraco, todos sabem, precisamos de investimentos em infraestrutura, com escala, e já não há ambiente para isso."
Para os investidores internacionais, o sinal é ainda pior, avalia Alexandre Schwartsman, ex-diretor de Assuntos Internacionais do BC.
"Passamos a imagem de PaÃs com sérios problemas de governança, que vai ficando mais parecido com a Rússia - onde a corrupção está aÃ, ninguém dá a mÃnima e faz parte do jogo - e menos parecido com paÃses que conseguiram avançar, como Peru e Colômbia, que hoje oferecem mais estabilidade institucional", diz.
Fiscal. Preocupa, em particular, o fato de que, enquanto o governo se mobiliza para ficar no poder, há desarticulação em torno de medidas para socorrer as combalidas contas públicas. Quem já viu uma crise do gênero, por dentro, garante que compromete a rotina de trabalho.
"Estava no Ministério da Fazenda quando ocorreu o escândalo do Mensalão. Na hora em que um governo enfraquece, abandona a agenda propositiva e surge um monte de propostas de bondades, para salvar a situação", diz Bernard Appy, ex-secretário executivo e de PolÃtica Econômica da Fazenda.
Nesse cenário, cresce o temor de que, no toma lá dá cá para sobreviver, haja sacrifÃcio da reforma da Previdência. Ela pode vir "desmilinguida" ou nem vir, inviabilizando o corte de gastos e levando à explosão da dÃvida.
"Há um lado degenerativo no fiscal, que se agrava à medida que o tempo passa. Enquanto governo e Congresso param para se defender, a crise nas contas públicas da União e dos Estados não espera, se aprofunda", diz Marcos Lisboa, presidente do Insper e ex-secretário de PolÃtica Econômica.
O estrago, dizem, não pode mais ser revertido na gestão de Temer, indiciado por corrupção. Edmar Bacha, um dos pais do Plano Real, define o estado de ânimo geral: "Alguém disse, muito corretamente, que esse governo se divide em AJ e DJ, antes e depois de Joesley Batista, da JBS (empresário que gravou o presidente). Pois, no DJ, não tem ponte nem pinguela para futuro da economia", diz.
Segundo Bacha, o atual governo deveria passar o bastão para um novo nome, de consenso. No intervalo que falta até a eleição, o PaÃs faz a reforma polÃtica e uma constituinte: "Estou preocupado é com o tipo de PaÃs que queremos: se o governo insistir em ficar, desse jeito aÃ, a crise se agrava, as pessoas vão se alienando da polÃtica, se frustrando com a economia e, lá na eleição, votam na extrema-direita ou extrema-esquerda." Segundo Bacha, se isso acontecer, nem a eleição trará alÃvio.
Sem recessão. Na avaliação dos economistas, existe ao menos um alento no cenário: é baixo o risco de um novo agravamento da crise. "Há uma certa resistência, uma resiliência na economia, e a boa notÃcia é que ela não vai dar meia volta, não retornaremos à quela recessão", diz José Roberto Mendonça de Barros. O que impede um eventual retrocesso é o avanço de setores que ficam descolados da crise, como agricultura e mineração; o bom desempenho das exportações; bem como a queda da inflação, que permite a redução da taxa básica de juros e, consequentemente, deixa o crédito mais acessÃvel. Alexandre Schwartsman estima que pode haver recuperação do consumo, em especial porque o desemprego deu sinais de que parou de aumentar. "Não será um consumo nada exuberante, mas qualquer melhora já é bom", diz. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Fonte: Estadão Conteúdo