20/06/2022 05h10
Demanda pelo Auxílio Brasil explode e fila já tem 2,78 milhões de famílias
Os municÃpios de todo o PaÃs contabilizam uma demanda reprimida de 2,78 milhões de famÃlias para ter acesso ao AuxÃlio Brasil, programa social do governo Jair Bolsonaro. São 5,3 milhões de pessoas que têm o perfil para receber o benefÃcio e estavam na fila em abril, de acordo com o mais recente mapeamento da Confederação Nacional de MunicÃpios (CNM).
A velocidade do crescimento da demanda reprimida vem surpreendendo e preocupando os prefeitos, que na ponta sentem as cobranças da população na esteira do aumento da pobreza nas suas localidades. É nos municÃpios que as famÃlias fazem o cadastramento ao programa no Centro de Referência da Assistência Social (Cras) para ter acesso à rede de proteção social do PaÃs.
O mapeamento da CNM, antecipado ao Estadão, está sendo divulgado 10 dias após a publicação do resultado do 2.º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia de Covid-19, que mostrou que a fome no Brasil voltou a patamares registrados pela última vez nos anos 1990. Atualmente 33,1 milhões de pessoas não têm o que comer no PaÃs, 14 milhões a mais do que no ano passado.
Enquanto as prefeituras alertam para a necessidade de reforçar o programa, especialistas defendem uma grande mobilização para enfrentar o aumento da fome. Eles apontam falhas no desenho dos benefÃcios do AuxÃlio Brasil e chamam atenção para a necessidade de direcionar recursos ao Alimenta Brasil, programa de aquisição de alimentos de agricultores familiares e doação para famÃlias em situação de insegurança alimentar.
Com a falta de exposição de dados pelo Ministério da Cidadania, responsável pela gestão do AuxÃlio Brasil, a CNM resolveu seguir com um acompanhamento próprio da situação nos 5.570 municÃpios.
A reportagem do Estadão procurou o ministério para obter os números oficiais e comentar como estão sendo distribuÃdos os diversos benefÃcios previstos no programa, entre eles o de Inclusão Produtiva Rural, pago em parcelas mensais de R$ 200 a famÃlias que possuam em sua composição agricultores familiares. E mais uma vez não obteve resposta. Em outras reportagens publicadas, o procedimento foi o mesmo.
O clima entre os técnicos experientes da Pasta é de indignação com a falta de transparência de informações, que deveriam ser públicas, segundo apurou o Estadão. Faltando quatro meses para as eleições, os dados detalhados do AuxÃlio, que garante um benefÃcio mÃnimo de R$ 400, são tratados como sensÃveis nos bastidores do governo pelo seu potencial eleitoral.
INFLUÊNCIA ELEITORAL. O presidente da CNM, Paulo Ziulkoski, atribui a ausência de dados amplos à conjuntura eleitoral. "Dentro do possÃvel eles (o governo) vão escondendo, mas nós na ponta podemos levantar e mostrar", diz. "E vai piorar ainda mais até a eleição", prevê. Segundo ele, o quadro preocupa porque a fila, que tinha diminuÃdo no inÃcio do ano, já voltou ao patamar anterior. O problema estoura nas prefeituras, reclama o presidente da entidade, que reúne prefeituras de todo o PaÃs. De acordo com Ziulkoski, as escolas municipais acabam se transformando em refúgio para as crianças que chegam com fome e precisam de reforço alimentar antes das aulas.
Pelos dados da CNM, entre março e abril, a demanda reprimida subiu em velocidade que se aproxima dos dados apurados antes da migração do programa Bolsa FamÃlia, extinto no ano passado, para o AuxÃlio Brasil, que era de 3,1 milhões de famÃlias. De um mês para o outro, houve um aumento real de mais de 1,480 milhão de famÃlias à espera do benefÃcio.
Ou seja, a fila mais que dobra em apenas um mês, um crescimento de 116%. Salta de 1,307 milhões de famÃlias (2,1 milhões de pessoas) para 2,788 milhões de famÃlias (5,3 milhões de pessoas), faltando pouco mais de 401 mil famÃlias para se atingir o patamar anterior à transição dos programas.
INCENTIVO A DISTORÇÕES. As mudanças no desenho do programa têm contribuÃdo para acentuar os problemas. Entre elas, a decisão de garantir um benefÃcio mÃnimo de R$ 400 por mês para cada famÃlia. Essa regra tem feito com que um beneficiário que mora sozinho acabe recebendo o mesmo valor que uma mãe com dois filhos pequenos. Esse modelo funciona, na prática, como um incentivo para pessoas que moram juntas se cadastrem como se morassem separadas, recebendo R$ 800. Esse quadro pode acabar deixando de fora do programa famÃlias que mais precisam.
"Além do desenho nada equitativo, o piso de R$ 400 gera incentivos para que pessoas que moram juntas se cadastrem separadamente. É uma espécie de desmembramento de famÃlias, que prejudica enormemente a qualidade dos dados do Cadastro Único e, com isso, sua capacidade de direcionar as polÃticas públicas à população mais vulnerável", diz Leticia Bartholo, socióloga e especialista em polÃticas públicas e gestão governamental. É ex-secretária nacional adjunta de Renda de Cidadania.
O prefeito de PicuÃ, cidade da ParaÃba localizada no sertão do Seridó, Olivânio Dantas RemÃgio, avalia que com a criação do AuxÃlio Brasil perde-se o que ele chama de "princÃpio da territorialidade". "Nós tÃnhamos um mapeamento da pobreza no municÃpio. SabÃamos direitinho onde estavam as famÃlias com maior grau de vulnerabilidade social", relata. "Ficou difÃcil para o municÃpio ter um marco de acompanhamento sem ter informação concreta."
O prefeito paraibano cita outro problema colateral: o aumento da demanda por auxÃlios eventuais, como cesta básica, aluguel social e auxÃlio energia. RemÃgio conta que o cadastramento continua sendo feito pelo Cras, porém, os condicionantes para o acompanhamento das famÃlias não são mais cobrados, como, por exemplo, vacinação de crianças, peso e avaliação se estão se alimentando bem. "Essa rede de saúde, assistência social e educação, fica quebrada", alerta.
O estudo aponta que a previsão orçamentária para o AuxÃlio Brasil deste ano não é mais suficiente para zerar a fila. O orçamento previsto é de R$ 89 bilhões.
Em 2021, dados obtidos via consulta pública e coletados pela CNM mostravam mais de 25 milhões de famÃlias registradas no Cadastro Único, o correspondente a cerca de 75 milhões de pessoas. Já em 2022, o número cresce e passa dos 33 milhões de famÃlias ou 83 milhões de pessoas. É um pouco mais de 38% da população (de 215 milhões de habitantes em 2021) recorrendo aos programas oficiais de assistência social.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Fonte: Estadão Conteúdo