01/04/2020 22h00
Depois de 48 horas, Bolsonaro sanciona auxílio emergencial a informais
Depois de 48 horas, o presidente Jair Bolsonaro sancionou o auxÃlio emergencial de R$ 600 a trabalhadores informais, intermitente e microempreendedores individuais (MEIs). A ajuda será publicada em lei nesta quinta-feira, 2, em edição do Diário Oficial da União.
Ao chegar ao Palácio da Alvorada, na noite desta quarta-feira, 1, Bolsonaro disse que já sancionou o texto, mas ainda vai assinar uma medida provisória com previsão do crédito extra para arcar com os R$ 98 bilhões do custo total do programa. Sem isso, o programa será "um cheque sem fundo na praça", observou o presidente.
"Assinei (o texto transformando o auxÃlio de R$ 600 em lei), mas está faltando, para publicar, uma outra medida provisória com crédito. Se não, fica um cheque sem fundo na praça", disse o presidente aos jornalistas ao chegar no Palácio do Alvorada.
Segundo o presidente, o texto da MP está sendo finalizado e assim que estiver pronto, será entregue a ele na residência oficial para ser assinado. A previsão, disse Bolsonaro, é que a lei e a medida provisória sejam publicadas no Diário Oficial da União (DOU) nesta quinta-feira, 2.
"DaÃ, sim, deve terminar e aà talvez trazer em casa e eu assino, publico. No caso, agora não adianta publicar em Diário Oficial da União extra. Eu público no Diário ordinário de amanhã", informou.
Pagamentos só devem começar no dia 10 de abril, primeiro para quem já recebe Bolsa
Os pagamentos, segundo o governo, devem começar a ser feitos no dia 10 de abril para quem já recebe o Bolsa FamÃlia. De acordo com cálculos do Ipea, quase 11 milhões de brasileiros que têm direito ao benefÃcio estão fora do Cadastro Único, a mais ampla base de dados do governo federal para programas sociais. O contingente representa 18,3% do público potencial da medida de socorro à s famÃlias mais vulneráveis.
O projeto de lei foi recebido pelo protocolo do Palácio do Planalto às 18h48 da última segunda-feira, 30. O texto levou 28 minutos para sair do Senado, onde foi aprovado por último, até a Secretaria-Geral da Presidência, do outro lado da Praça dos Três Poderes. Os deputados já tinham dado o aval à medida na quinta-feira da semana passada, 26.
Desde que o projeto foi aprovado na segunda, a #PagaLogo é uma das mais usadas no Twitter. Recebeu a adesão, inclusive, do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes.
O ministro-chefe da Casa Civil, Walter Braga Netto, rechaçou hoje as crÃticas de demora na implementação do benefÃcio. Apesar disso, ele evitou responder perguntas sobre calendário para desembolso do dinheiro à s famÃlias necessitadas. "Não houve demora, foi até ágil", disse Braga Netto."Existe um rito que precisa ser cumprido na parte do orçamento, que cabe à equipe econômica, e tem parte jurÃdica. Isso tem que ser cumprido", completou.
Como mostrou o Estadão/Broadcast mais cedo, o impasse em torno da liberação dos recursos para o auxÃlio emergencial se transformou em uma "briga de advogados" dentro da equipe econômica, que seguia se debatendo sob o emaranhado de regras fiscais existentes no Brasil, mesmo num momento de grave emergência pública. O governo recorreu a um parecer jurÃdico para abrir caminho à liberação do dinheiro.
Ontem, o ministro da Economia, Paulo Guedes, chegou a dizer que a única solução seria aprovar a chamada PEC do "orçamento de guerra", que vai criar uma espécie de Orçamento à parte para das despesas da crise. Haveria uma flexibilização na exigência das regras fiscais para esses gastos, destravando as medidas. A declaração foi mal recebida, pois foi vista como uma tentativa de jogar a responsabilidade sobre o Congresso.
O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), disse hoje que quer votar a PEC até amanhã, mas discordou da análise de Guedes. Ele afirmou que já há garantia jurÃdica para o pagamento do benefÃcio, dada pelo ministro do STF Alexandre de Moraes, no domingo, 29.
PECs precisam de mais votos para ser aprovadas e têm tramitação mais complexa no Congresso do que projetos de lei e medidas provisórias, por exemplo.
Ao jornal O Estado de S. Paulo, o economista e professor do IDP José Roberto Afonso, um dos pais da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), também entende que o governo não precisa de PEC para começar a efetuar os pagamentos.
Governo precisará de decreto para detalhar pagamento
Um decreto precisa ser editado pelo presidente para definir como o pagamento será feito. Antes mesmo da aprovação da medida, técnicos já trabalhavam para viabilizar a megaoperação. O principal desafio envolve as famÃlias que ainda não integral os cadastros do governo, mas fazem jus ao auxÃlio.
O benefÃcio será repassado por três meses e será pago em dobro para mulheres chefes de famÃlia (R$ 1,2 mil). Segundo o presidente, 54 milhões de pessoas serão beneficiadas. O custo total do programa, segundo o ministro da Economia, será de R$ 98 bilhões.
Trabalhadores intermitentes também terão direito a auxÃlio emergencial
No Senado, houve mudança na redação para deixar claro que o trabalhador intermitente que estiver com o contrato inativo (ou seja, não está trabalhando nem recebendo salário no momento) também terá direito ao auxÃlio. São garçons, atendentes, entre outros trabalhadores que atuam sob demanda, mas estão com dificuldades de encontrar trabalho neste momento.
O trabalho intermitente é uma modalidade de contrato criada na última reforma trabalhista, em 2017. Um empregado pode ter vários contratos intermitentes e atuar conforme a demanda do estabelecimento. Quando não há necessidade de trabalho, o contrato fica "inativo".
Para ter direito ao benefÃcio a auxÃlio, renda por pessoa tem de ser de até R$ 552,50
Poderão solicitar o benefÃcio maiores de 18 anos que não tenham emprego formal, nem recebam benefÃcio previdenciário (aposentadoria ou pensão), assistencial (como BPC), seguro-desemprego ou sejam contemplados por programa federal de transferência de renda - a única exceção será o Bolsa FamÃlia.
Os beneficiários também precisam tem renda mensal per capita de até meio salário mÃnimo (R$ 552,50) ou a renda familiar mensal total de até três salários mÃnimos (R$ 3.135); no ano de 2018, não podem ter recebido rendimentos tributáveis acima de R$ 28.559,70 e precisam ser microempreendedor individual (MEI), contribuinte autônomo da Previdência ou cadastrado no CadÚnico até 20 de março. Também será possÃvel preencher uma autodeclaração a ser disponibilizada pelo governo.
No caso de beneficiários do Bolsa FamÃlia, dois membros da mesma famÃlia poderão acumular com o auxÃlio emergencial, que vai substituir o Bolsa temporariamente caso o valor seja mais vantajoso.
Quem está na fila do INSS para auxÃlio-doença terá direito a um salário mÃnimo
O projeto aprovado também inclui a proposta do governo de antecipação de um salário mÃnimo (R$ 1.045) a quem aguarda perÃcia médica para o recebimento de auxÃlio-doença, mediante apresentação de um atestado médico. O texto ainda traz a dispensa à s empresas do pagamento dos primeiros 15 dias de afastamento do trabalhador devido ao novo coronavÃrus. De acordo com o texto, as companhias poderão deixar de recolher o valor devido ao INSS, até o limite do teto do regime geral (R$ 6.101,06).
Bolsonaro veta ampliação de acesso ao BPC
O presidente vetou o aumento do limite de renda para receber o BenefÃcio de Prestação Continuada (BPC), pago a idosos e pessoas com deficiência de baixa renda. O projeto aumentava o teto de um quarto para meio salário mÃnimo em 2021. Na prática, mais pessoas teriam acesso ao pagamento. A equipe econômica é contra ampliar o BPC. O gasto adicional seria de R$ 20 bilhões em um ano, nos cálculos do governo. No último dia 13, o Tribunal de Contas da União (TCU) suspendeu a ampliação após o Congresso derrubar um veto presidencial a uma proposta com o mesmo teor.
O presidente da República também vetou um dispositivo que permitia ao trabalhador receber apenas os recursos de programas sociais governamentais, do PIS/Pasep e do FGTS na conta poupança social digital que será criada para recebimento do auxÃlio.
Também foi vetado um trecho que suspendia o recebimento do auxÃlio caso essa e outras regras de movimentação da conta digital fossem descumpridas.
Colaboraram Sandra Manfrini, Idiana Tomazelli, Julia Lindner e André Borges
Fonte: Estadão Conteúdo