14/04/2018 10h40
Desigualdade no Brasil é o dobro da oficial
Ano a ano, pesquisas reforçam que o Brasil é um paÃs desigual. Porém, um levantamento mostra que a concentração de renda é ainda mais alarmante do que as estatÃsticas oficias reportam. Dados divulgados na quarta-feira, 11, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e EstatÃstica (IBGE) apontam que, em 2017, as famÃlias da classe A ganharam 22 vezes a renda das famÃlias das classes D/E. No entanto, esse abismo social tem quase o dobro do tamanho - a diferença entre os extremos da pirâmide é de cerca de 42 vezes.
Levantamento da Tendências Consultoria Integrada com base em dados da Receita Federal mostra que, em 2016, as famÃlias com renda mensal acima de 20 salários mÃnimos abocanhavam 38% da renda nacional. Já segundo os dados oficiais, da Pesquisa Nacional de Amostra de DomicÃlios (Pnad), a classe A detinha apenas 14,9% da massa de renda.
Os economistas Adriano Pitoli e Camila Saito, responsáveis pelo estudo, fizeram uma espécie de Pnad "ajustada" para chegar a um número mais preciso sobre distribuição de renda. Para as famÃlias com ganhos de até cinco salários mÃnimos por mês, foram utilizados os dados tradicionais da Pnad. Já para a população que ganha acima desse valor, foram consideradas as declarações de Imposto de Renda. Os dados de 2016 estão consolidados. Já o de 2017 é uma projeção com base no histórico, uma vez que as informações da Receita referentes a 2017 só serão divulgados ao final deste ano.
"Apesar de já apontar enorme desigualdade, a Pnad tende a subestimar os dados de renda, pois as pessoas não informam corretamente o seu rendimento", diz Adriano Pitoli. Ele explica que a Pnad, por ser declaratória, não mensura de forma precisa algumas fontes de renda, como ativos financeiros, aluguéis e ganhos eventuais, como dividendos, indenizações e FGTS.
A pesquisa aponta ainda que a subestimação fica maior à medida que se avança na pirâmide. Nas famÃlias com renda de cinco a dez salários mÃnimos por mês, a massa de renda ajustada pela Receita é 25% maior do que a apurada pelo IBGE.
Entre os brasileiros que ganham entre 20 e 40 salários mÃnimos, o número ajustado é mais que o dobro do oficial - 159,6%. Já na faixa de brasileiros com ganhos acima de 160 salários, a diferença é gritante - quase 120 vezes maior.
"A desigualdade se deteriorou por conta da crise e o impacto é maior sobre as extremidades - os mais pobres e os mais ricos", diz Pitoli.
Ele afirma que, se por um lado a significativa participação de empregadores na classe A (27% dos chefes de domicÃlio) possibilita reações mais agudas e rápidas em perÃodos de recessão ou de recuperação, o elevado peso de servidores nesse estrato tende a atenuar esse efeito. Além disso, a despeito das perdas com a crise, as classes mais altas tiveram um grande ganho financeiro nesse perÃodo, uma vez que os juros estavam em patamar elevado.
Mesmo a comemorada evolução da massa de renda real em 2017 (2,3%), após dois anos de retração, esconde desigualdade. Os empregadores foram os que tiveram maior queda de renda em 2016 (-6,8%), mas também, como apontou Pitoli, a mais rápida recuperação: alta de 12,4% no ano passado. Já entre os trabalhadores por conta própria, que cresceram em meio à alta do desemprego, praticamente não houve melhora (0,1%).
Tamanho do bolo
A pesquisa também mostra que o PaÃs, apesar de mais desigual, é mais rico - com o ajuste, a massa de renda total cresceu 50,4% em relação à apurada pelo IBGE. "Apesar de o 'bolo ter aumentado', a renda não foi acompanhada por crescimento econômico", observa Marcelo Neri, ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pesquisador do Centro de PolÃticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV). "Nós já saÃmos da recessão, mas o desenvolvimento precisa vir da produtividade partilhada - que cresce mais na base. E isso acontece com educação e incentivo a pequenos negócios." As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Fonte: Estadão Conteúdo