31/08/2021 18h20
Dólar cai 0,34% no dia com emergentes e encerra agosto com perda de 0,73%
O dólar à vista encerrou a sessão desta terça-feira, 31, a última de agosto, em terreno negativo, alinhado à maré positiva para moedas emergentes no exterior, movimento atribuÃdo tanto a dados fracos dos Estados Unidos - como o Ãndice de confiança do consumidor em agosto (113,8, ante expectativa de 123,1) - quanto à continuidade dos ajustes ao tom ameno do presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), Jerome Powell, ainda na sexta-feira.
Afora uma alta pontual logo após a abertura do pregão, o dólar trabalhou em queda durante todo o dia, com perdas mais acentuadas pela manhã, em meio à disputa pela formação da Ptax de agosto, referência para contratos futuros e balanços corporativos.
Dados positivos da economia brasileira (taxa de desemprego até junho e déficit primário do setor público em julho abaixo das projeções) teriam contribuÃdo para o fortalecimento o real na primeira etapa de negócios, servindo do suporte as operações de "vendidos" (que apostam na queda do dólar), que já se beneficiavam dos ventos externos favoráveis.
Ao longo da tarde, passada a batalha pela formação da Ptax, o que deixou o mercado tecnicamente mais leve, dólar desacelerou o ritmo de perdas. O impulso externo também já era menor, com o Ãndice DXY, que chegou a operar em queda firme pela manhã, passando a trabalhar entre leve alta e estabilidade. Por aqui, a piora da Bolsa e o avanço dos juros futuros, em meio a ruÃdos polÃticos, teriam tirado parte do fôlego do real.
Em meio à divulgação do Projeto de Lei Orçamentária (PLOA) de 2022 e declarações de membros da equipe econômica, o dólar chegou a ser negociado momentaneamente na casa de R$ 5,18. Apesar de trazer uma redução na previsão de déficit para 2022, o PLOA considera o pagamento total de R$ 89,1 bilhões em precatórios e não prevê ampliação do Bolsa FamÃlia, rebatizado de AuxÃlio Brasil. Não se sabe ainda como atender ao desejo do presidente Jair Bolsonaro de reajustar o benefÃcio social e manter o pagamento dos precatórios sem furar, mesmo que informalmente, o teto de gastos.
Em coletiva para falar sobre o PLOA, o secretário especial do Tesouro e Orçamento do ministério da Economia, Bruno Funchal, afirmou que a proposta de parcelamento dos precatórios tem como "grande objetivo" compatibilizar o pagamento das dÃvidas com o teto de gastos, o que traz "credibilidade".
No fim do pregão, o dólar voltou a ceder um pouco mais, para a casa de R$ 5,17. Com máxima a R$ 5,1978 e mÃnima a R$ 5,1167, a moeda americana fechou a R$ 5,1719, em queda de 0,34%, encerrando agosto com desvalorização modesta (0,73%), após ter subido 4,76% em julho. No pior momento deste mês, a moeda americana chegou a superar R$ 5,40, ao fechar a 5,4228, no dia 19.
A perda de força do dólar nos últimos dias veio na esteira de uma combinação de fatores domésticos e externos. Lá fora, o principal evento foi a sinalização do presidente do Federal Reserve de que a polÃtica monetária americana seguirá acomodatÃcia. Por aqui, contribuÃram para o alÃvio declarações recentes de respeito ao teto de gastos de autoridades, como o presidente da Câmara, Arthur Lira. A busca por uma solução para o imbróglio dos precatórios em conjunto com o Judiciário diminuiu também os temores de um descontrole das contas públicas.
O head de tesouraria do Travelex Bank, Marcos Weigt, ressalta que o real tem tido um desempenho similar a de outras moedas emergentes, mas que ainda acumula uma desvalorização relevante na comparação com seus pares, como o peso mexicano e o rand sul-africano - fenômeno que ele atribui, sobretudo, aos problemas domésticos.
"O dólar já poderia estar abaixo do nÃvel de R$ 5,00. A sensação é que o real se mantém desvalorizado por toda essa questão fiscal, dos precatórios e do Bolsa FamÃlia, e dos problemas polÃticos, com essa briga do presidente com o STF", afirma Weigt, ressaltando que, a despeito das quedas recentes, o preço de commodities exportadas pelo Brasil, como minério de ferro e soja, ainda está em patamares elevados.
Weig também lembra que os exportadores optam por manter os recursos no exterior, mesmo perdendo a remuneração oferecida pelos juros locais, cada vez mais elevados, justamente por causa da incerteza doméstica. "Olhando a liquidez grande lá fora, os fundamentos internos e as outras moedas emergentes, o real deveria se apreciar. Mas o clima de incerteza ainda é muito grande", diz.
Em evento nesta terça pela manhã, o ex-diretor do Banco Central e economista-chefe do Itaú Unibanco, Mario Mesquita, afirmou que há fundamentos, como os termos de troca e a taxa Selic mais elevada, para apreciação do câmbio brasileiro, mas admitiu que "talvez não dê tempo" de alcançar a projeção de fim deste ano, de R$ 4,75. Mesquita observou que houve aumento do prêmio de risco, por causa das incerteza em relação à polÃtica fiscal, e que pode ocorrer uma antecipação de remessas de lucros e dividendos de multinacionais em meio à discussão da reforma do Imposto de Renda no Brasil.
Fonte: Estadão Conteúdo