17/02/2022 19h50
Dólar sobe 0,76% com aversão a risco gerada por crise geopolítica
Temores renovados de uma eventual invasão russa à Ucrânia, após declarações de autoridades dos Estados Unidos e da Otan, levaram investidores a reduzir posições em ativos de risco e buscar abrigo em Treasuries e no dólar, movimento que acabou respingando no mercado doméstico de câmbio. Após três pregões consecutivos de queda, em que acumulou desvalorização de 2,18%, o dólar subiu por aqui, embora não tenha encontrado forças para se aproximar novamente do patamar de R$ 5,20. Operadores ressaltam que uma pausa para correção e realização de lucros já era esperada - e que não muda a tendência principal de fortalecimento do real. A crise ucraniana e o recuo do petróleo e do minério de ferro - este sob impacto de medidas do governo chinês - apenas serviram de gatilho para um rearranjo técnico de posições.
Com mÃnima de R$ 5,1284 e máxima de R$ 5,1836, o dólar à vista acabou encerrando o pregão a R$ 5,1669, em alta de 0,76%. Na semana, a moeda apresenta desvalorização de 1,44% e, em fevereiro, já perde 2,62%. Na B3, o dólar futuro para março subiu 0,60%, a R$ 5,18150, com giro de US$ 11,38 bilhões. No exterior, o DXY - que mede o desempenho do dólar frente a uma cesta de seis divisas fortes - operou em leve alta, ao redor dos 95,800 pontos, sobretudo por conta do enfraquecimento do euro. Entre as divisas emergentes e de exportadores de commodities, quem mais apanhou foi, por motivos óbvios, o rublo.
"Hoje, temos uma realização de lucros no mercado local com essa questão da Rússia, mas acredito que ainda há muito fluxo estrangeiro por vir e que o dólar pode testar os R$ 5 ainda este mês", afirma Rodrigo Joligi, sócio e CIO da Alphatree Capital, que não vê uma deterioração muito forte em ativos de risco mesmo em caso de uma invasão russa à Ucrânia. "Pode haver uma pressão inflacionária maior porque o petróleo tende a subir em caso de conflito, o que vai dificultar a vida do Fed (Federal Reserve, o Banco Central americano", diz Jolig.
Pela manhã, a Otan alertou que, em vez de começar a retirar suas tropas da fronteira com a Ucrânia, a Rússia estaria, na verdade, reforçando sua presença militar na região. No inÃcio da tarde, o secretário de Estado americano, Antony Blinken, afirmou que não é possÃvel ver o recuo das tropas russas. Segundo ele, ao contrário do que Moscou diz, o paÃs deve atacar o paÃs vizinho nos próximos dias. A mÃdia americana traz relatos de bombardeios por parte da Rússia no leste ucraniano.
Com as atenções voltadas à s tensões geopolÃticas, investidores deixaram em segundo plano indicadores fracos da economia americana (construção de novas moradias e pedidos de auxÃlio desemprego) e novas declarações duras do presidente do Federal Reserve de St. Louis, James Bullard, ao longo da tarde.
Bullard voltou a defender hoje aumento de 100 pontos-base na taxa de juros americana até 1º de julho, para que o Fed não entre "em apuros" caso não haja uma moderação da pressão inflacionária no segundo semestre. O dirigente do BC disse que, com a inflação "em mais de 300 pontos-base" acima da meta, o mercado pode perder a fé de que os preços irão desacelerar se o Fed não agir de forma rápida e agressiva. Para Bullard, uma boa parte do aperto monetário, contudo, "já foi precificada" pelo mercado.
Jolig, da Alphatree Capital, também vê o mercado "razoavelmente" ajustado à perspectiva de normalização da polÃtica monetária americana, o que reduz em muito a probabilidade de um tombo mais agudo dos mercados de risco. "O Bullard está tentando levar o mercado para essa precificação de 100 pontos-base nas próximas três reuniões do Fed, com uma alta de 50 pontos já no encontro de março", diz.
Por aqui, dado o tom duro do Banco Central brasileiro, o gestor trabalha com a ideia de que a taxa Selic, hoje em 10,75%, encerre o atual ciclo de aperto monetário perto dos 13%. "Isso favorece muito a busca por alocação em renda fixa. O fluxo mostra uma dinâmica muito encorajadora, que deve continuar. Os estrangeiros ficaram muito tempo fora do Brasil e agora estão voltando", afirma.
Fatores domésticos - como novos ataques do presidente Jair Bolsonaro, em viagem internacional, a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e negociações de projetos envolvendo preço de combustÃveis no Congresso - foram monitorados, mas não tiveram peso relevante na formação da taxa de câmbio.
Fonte: Estadão Conteúdo