11/08/2021 18h10
Dólar sobe; risco doméstico faz real perder onda positiva das divisas emergentes
As incertezas domésticas no campo fiscal e polÃtico impediram que o real se beneficiasse do dia positivo para as divisas emergentes, em meio a uma onda de enfraquecimento global da moeda norte-americana, após o Ãndice inflação ao consumidor nos EUA (CPI) em julho vir dentro das expectativas. Nem mesmo a ampliação do diferencial entre juros internos e externos, por conta do ciclo atual de alta da taxa Selic, parece animar os investidores a se desfazer de posições defensivas - um reflexo claro da exigência de prêmio de risco mais elevado por conta das incertezas fiscais.
Afora uma leve queda pela manhã, logo após a divulgação do indicador de inflação CPI nos EUA, o dólar trabalhou em alta firme por aqui ao longo do dia, enquanto lá fora aprofundava as perdas frente a moedas emergentes pares do real, como o peso mexicano e o rand sul-africano. Além da moeda brasileira, apenas a lira turca sofreu nesta quarta-feira.
Com mÃnima de R$ 5,1642 e máxima de R$ 5,2346, registrada no inÃcio da tarde, o dólar à vista encerrou o pregão em alta de 0,47%, a R$ 5,2212.
Ao desconforto com o desfecho da reforma do Imposto de Renda, que pode ser votada nesta quarta na Câmara dos Deputados, somou-se a informação, do Tesouro Nacional, de que a PEC dos Precatórios embute a flexibilização da chamada "regra de ouro", que impede o governo de se endividar para pagar despesas correntes sem autorização do Congresso.
Também causaram desconforto declarações do presidente da República, Jair Bolsonaro, sobre preços de combustÃveis e energia elétrica, consideradas populistas. Derrotado na PEC do voto impresso na terça, o presidente disse nesta quarta que o resultado da eleição não será confiável e acusou de governadores de terem interesse na manutenção dos preços altos dos combustÃveis para aumentar a arrecadação com ICMS.
A avaliação nas mesas de operação é a de que Bolsonaro deseja manter a temperatura polÃtica elevada, para garantir a mobilização do seu eleitorado, ao mesmo tempo em que tenta criar uma espécie de "Orçamento paralelo", para expandir os gastos e recuperar a popularidade, sem ferir formalmente as regras fiscais.
Para a economista-chefe do Banco Ourinvest, Fernanda Consorte, é difÃcil imaginar um alÃvio duradouro na taxa de câmbio, com entrada mais forte de investidores estrangeiros, com tanta incerteza no campo doméstico.
Consorte nota que até houve um "alÃvio pontual" com o fato de a PEC dos Precatórios não atrelar recursos arrecadados (via privatizações, por exemplo) a gastos sociais. Mas nada capaz de reverter a percepção de deterioração das contas públicas. "O cenário fiscal está estrangulado, mas o governo quer aumentar os gastos já de olho nas eleições. E isso só vai piorar", afirma Consorte.
Uma das evidências de que "a situação é muito ruim", segundo a economista, é o Banco Central elevar a taxa Selic em um 1 ponto porcentual, prometer uma outra elevação da mesma magnitude, e a "taxa de câmbio não sentir tanto, como era de se esperar".
No exterior, o principal indicador esperado pelo mercado, o CPI de julho, diminuiu os temores de uma escalada inflacionária mais aguda nos EUA, embora os Ãndices ainda permaneçam em patamares elevados. O CPI desacelerou de 0,9% em junho para 0,5% em julho, em linhas com as expectativas. Já o núcleo do CPI teve alta de 0,3% na comparação mensal, abaixo do estimado (0,4%).
A presidente do Fed de Kansas, Esther George, afirmou nesta quarta que a inflação ainda alta nos EUA se deve a desequilÃbrios entre oferta e demanda, devido a fatores, em sua maior parte, temporários. Embora tenha dito que as condições econômicas já justifiquem a redução da compra de ativos pelo Fed ('tapering'), a polÃtica monetária deve seguir estimulativa.
Já o presidente do Fed de Dallas, Robert Kaplan, defendeu que a instituição anuncie a retirada de estÃmulos na reunião do comitê de polÃtica monetária do Fed (FOMC, na sigla em inglês) em setembro e comece a reduzir a compra de ativos em outubro.
Fonte: Estadão Conteúdo