16/05/2022 08h10
'Eles dizem para esperar e ligar de novo', afirma desempregada acampada na rua
Ao lado da Universidade de BrasÃlia, numa das vias que funcionam como um canal de ligação mais rápido entre a Asa Norte e a Esplanada dos Ministérios, moradores de rua se instalaram com barracas à espera de doação de alimentos e acesso aos programas sociais do governo federal.
O acampamento não é novo, e costumava aumentar sempre na época do Natal. Mas cresceu muito e ficou permanente com a pandemia da covid-19 e o aumento da pobreza, na esteira do fim do pagamento do antigo auxÃlio emergencial - concedido em 2020 e 2021.
O cenário de pobreza e o acúmulo de lixo contrastam com a paisagem de grandes gramados e espaços abertos arborizados, tÃpicos do centro de BrasÃlia.
O lugar reúne famÃlias com histórias diversas. Há famÃlias no acampamento que não recebem o AuxÃlio Brasil, mas têm outras que já recebem benefÃcios do governo. Têm em comum a decisão de se instalarem ali, em condições precárias, para ter acesso à doação de comida mais rápido e frequente.
De Planaltina de Goiás, municÃpio do entorno do Distrito Federal, a desempregada Elaine Vieira dos Santos, 39 anos, está instalada numa das barracas com a filha mais nova, Isabela, de apenas três anos. Com mais quatro filhos, não recebeu todas as parcelas do auxÃlio emergencial e está esperando pelo seu substituto, o AuxÃlio Brasil, o programa social do governo que ficou no lugar do Bolsa FamÃlia.
"Eles dizem para esperar e ligar de novo", relata ela à reportagem do jornal O Estado de S. Paulo, que esteve no local no sábado colhendo depoimentos. Elaine conta que assistentes sociais já passaram pelo local, mas ela não conseguiu a habilitação até agora.
O sustento que recebe por mês é R$ 250, que o pai de uma das filhas paga. Ao longo do mês, Elaine passa umas semanas e depois retorna à Planaltina de Goiás. A filha caçula, alheia à situação, brinca no lixo com outras crianças, que também vivem no acampamento.
Cadastramento
O caso dela é comum em todo o Brasil, diz a diretora da Rede Brasileira de Renda Básica (RBRB) Paola Carvalho, que nas redes sociais mantém um canal de ligação com a Defensoria Pública para garantir que as famÃlias que têm direito ao benefÃcio o consigam via decisão judicial.
"Cada municÃpio tem seu método de agendamento do Cadastro Único. Em São Paulo, é feito pelo 156. No entanto, as pessoas ligam e não conseguem agendar. A recomendação sempre é ir ligando até que se libere a agenda novamente. Isso leva meses para que se consiga um horário", diz Paola.
Segundo a Rede, é impossÃvel saber a quantidade de pessoas que estão na "fila da fila" esperando para serem atendidas e dar inÃcio ao cadastramento inicial que deveria levar à aprovação para receber o AuxÃlio Brasil.
Na barraca ao lado da de Elaine, a neta da dona Luzia Paes Landin, Bárbara Felix, 22 anos, também tenta ser aceita no AuxÃlio. Tem duas filhas pequenas, de três e dois anos, e não consegue.
A avó está ali com netos e bisnetos, mas recebe o BenefÃcio de Prestação Continuada (BPC) de um salário para a filha, de 32 anos, que é cadeirante.
"Vez ou outra eles derrubam tudo (o acampamento), mas voltamos de novo", diz Luzia, uma baiana de 69 anos, enquanto penteia o cabelo da filha na cadeira de rodas, com uma boneca nos braços.
Perto dali, outro neto forma com estaca de madeiras um campo de futebol para jogar com os amigos. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Fonte: Estadão Conteúdo