12/08/2021 17h10
Especialistas criticam formato do novo Bolsa Família
A principal falha do novo Bolsa FamÃlia é deixar em branco a definição do valor do benefÃcio e dos critérios que precisarão ser cumpridos para ter direito a ele. O Estadão/Broadcast ouviu três especialistas sobre polÃtica de transferência de renda, que também são unânimes em criticar a proliferação de auxÃlios dentro do programa, uma medida que pode, na verdade, comprometer o principal objetivo: a redução da pobreza.
O novo AuxÃlio Brasil será composto por três modalidades principais no benefÃcio básico (primeira infância, composição familiar e superação da extrema pobreza) e seis auxÃlios complementares, que poderão ser somados ao valor básico. O desenho prevê como incremento bolsas de incentivo ao esporte e à iniciação cientÃfica, auxÃlio para creches e para inclusão produtiva rural e urbana, além de um benefÃcio compensatório de transição para atuais beneficiários do Bolsa FamÃlia.
Ex-secretária nacional adjunta de Renda de Cidadania do governo federal, a socióloga LetÃcia Bartholo compara o novo programa a uma árvore de Natal cheia de bolas e penduricalhos, que pode acabar caindo. "Começa a inserir várias ações ao ponto que o programa de combate à pobreza perde o seu objetivo-chave, e a árvore de Natal fica tão cheia de bolas que enverga e cai", diz. Para ela, a MP não enfrenta os problemas essenciais do combate à pobreza, que são a ampliação da cobertura e dos valores do benefÃcio.
Erro no ataque
Na visão de um dos formuladores do Bolsa FamÃlia, o economista Ricardo Paes de Barros, pesquisador do Insper, o desenho do AuxÃlio Brasil ataca de maneira "inadequada" os problemas atuais da polÃtica social do governo. "O médico está fazendo um bom diagnóstico, mas o tratamento talvez possa piorar as coisas", afirma. Paes de Barros critica a ampliação do público do programa, num momento em que a focalização deveria ser prioridade, e aponta medidas que podem gerar incentivos equivocados, como a contabilização de toda a renda bruta do trabalho no critério que define se o cidadão receberá ou não o benefÃcio. Segundo ele, a renda do trabalho deveria ser descontada até determinado valor - do contrário, o que há é um desincentivo ao beneficiário buscar uma ocupação, mesmo que seja um "bico", pois poderá perder parte da transferência.
O economista também afirma que os auxÃlios voltados à inclusão produtiva previstos no texto são "cortina de fumaça", uma vez que o programa não tem nada voltado efetivamente para esse fim, como orientação, qualificação ou acesso a crédito. "Minha preocupação é não transformar um programa tão exitoso quanto o Bolsa FamÃlia num programa que vai perdendo seus méritos porque o desenho vai piorando ao longo do tempo."
Já o presidente da Rede Brasileira de Renda Básica, Leandro Ferreira, espera que o Congresso ainda "corrija" o texto da MP para garantir uma previsibilidade no orçamento do programa, mesmo após as eleições. "O que os mercados financeiros esperam de estabilidade, os mais pobres também esperam. É preciso dar previsibilidade", diz.
Durante a cerimônia de entrega da MP, o presidente Jair Bolsonaro voltou a dizer que a nova versão do Bolsa FamÃlia deve ter um reajuste de "ao menos" 50%, o que levaria o valor médio hoje em R$ 189 para algo em torno de R$ 285 mensais. Mas, segundo apurou o Estadão/Broadcast, a definição de quanto os brasileiros vão receber ainda é alvo de uma queda de braço entre as alas polÃtica e econômica dentro do governo.
A equipe econômica afirma que o espaço no Orçamento de 2022 comporta até o limite de R$ 300. Na ala polÃtica, porém, há o desejo de garantir um valor médio maior, de R$ 400.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Fonte: Estadão Conteúdo