15/02/2021 18h34
Estados têm alívio de R$ 217 bi com crédito novo e renegociação da dívida
O projeto de socorro aos Estados vai proporcionar um alÃvio de R$ 217 bilhões a governos endividados ou com dificuldades de caixa, segundo estimativa do Ministério da Economia. O cardápio de medidas inclui a concessão de novos empréstimos, renegociação de dÃvidas e suspensão de cobranças, em troca do compromisso dos governadores com iniciativas para reequilibrar as contas.
O espaço para novos empréstimos será de R$ 18 bilhões para dez Estados com notas A e B na classificação de risco, que apontam melhores condições financeiras e capacidade de pagamento. Já os 14 Estados que têm nota C e hoje não podem contratar empréstimos tendo a União como sua fiadora (mais baratos que as demais linhas) terão um espaço de R$ 6,6 bilhões e a chance de obter o aval do Tesouro Nacional, desde que adotem medidas de ajuste.
O acesso a dinheiro novo era uma demanda de muitos Estados, que não são tão endividados a ponto de ingressar no Regime de Recuperação Fiscal (RRF), mas enfrentam problemas severos de caixa e precisavam de fôlego. O programa vem sendo desenhado desde o ano passado pelo governo federal. Após dar lugar ao repasse de recursos a Estados e municÃpios na pandemia de covid-19, o projeto foi reapresentado pelo deputado Pedro Paulo (DEM-RJ).
Em outro ponto do projeto, o Congresso remodelou o RRF, programa criado em 2017 para resgatar Estados superendividados. Segundo o secretário especial de Fazenda, Waldery Rodrigues, o novo desenho é "feito para ser crÃvel". No modelo original, apenas o Rio de Janeiro conseguiu aderir e enfrenta dificuldades para cumprir o plano de ajuste prometido ao governo federal, que precisaria ser cumprido até 2023.
Prazo ampliado
Com a reformulação, foi ampliado de seis para nove anos o prazo de duração do plano de reequilÃbrio das contas, durante o qual o Estado cumprirá as oito medidas de ajuste fiscal exigidas, como privatizações ou concessões, cortes de benefÃcios tributários e ajustes nas carreiras de servidores para cortar benefÃcios que já não existem mais na União. Em troca, a dÃvida será totalmente suspensa no primeiro ano, com retomada gradual da cobrança até chegar a 100% do devido ao fim dos nove anos.
A regra de acesso ao RRF também foi facilitada. As medidas devem viabilizar a adesão dos governos do Rio Grande do Sul e de Minas Gerais, além de um novo plano para o Rio de Janeiro.
O Estado de Goiás, que também enfrenta dificuldades e chegou a ingressar no Supremo Tribunal Federal (STF) pedindo a antecipação dos benefÃcios do RRF até sua adesão, não deve se credenciar ao regime na sua versão integral. Ele poderá ingressar em uma "versão light" da recuperação fiscal criada no projeto, que dispensa o quesito de superendividamento para a adesão, mas também afasta qualquer benefÃcio de suspensão de dÃvida. A vantagem, nesse modelo, é poder acessar valores mais significativos de empréstimos. Segundo apurou o Estadão/Broadcast, o Rio Grande do Norte também poderia se beneficiar dessa modalidade.
Liminar
A Economia estima que R$ 130 bilhões poderão deixar de ser pagos por Estados que aderirem ao Regime de Recuperação Fiscal. A conta inclui R$ 9,5 bilhões de Goiás por motivos de prudência, segundo Waldery, uma vez que a liminar obtida pelo Estado segue em vigor.
Estados que renegociaram a dÃvida em 2016 mas descumpriram a regra de teto de gastos, para limitar o avanço das despesas, poderão renegociar as penalidades, que custariam R$ 43,9 bilhões apenas este ano. Dos 19 Estados que aderiram ao acordo na época, 11 descumpriram o teto. O valor agora será incorporado ao estoque da dÃvida desses governos estaduais.
O projeto ainda assegura um alÃvio de R$ 7,3 bilhões em pagamentos a organismos multilaterais. Outros R$ 9,7 bilhões serão concedidos por meio de outras renegociações de dÃvidas dispersas - uma delas que beneficia o Estado de Goiás e compensa a ausência de suspensão de sua dÃvida no RRF.
O alÃvio não é dado por meio de uma injeção direta de recursos da União dos Estados, mas sim por suspensão de dÃvidas, embora esse movimento aumente a necessidade de o Tesouro Nacional se financiar no mercado financeiro porque vai receber menos pagamentos dos Estados.
Despesa com pessoal
Uma vitória obtida pela equipe econômica foi padronizar os critérios de cálculo das despesas de pessoal. Essa "harmonização" das regras era uma batalha antiga do Tesouro Nacional para reforçar o cumprimento efetivo do limite da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) de 60% da receita corrente lÃquida em gastos com pessoal.
Interpretações benevolentes da LRF aplicadas por Tribunais de Contas dos Estados (TCEs) atrapalharam um diagnóstico mais célere sobre a real situação fiscal dos governos estaduais e reduziram a potência dos instrumentos previstos na própria lei para frear os desequilÃbrios nas contas.
Estados fazem uma "maquiagem" para o limite não estourar e estarem sujeitos às punições pelo descumprimento do limite. Ao longo dos anos muitos Estados criam exceções à classificação, abrindo brechas para que o número apresentado seja melhor.
Pelo texto do projeto, poderes e órgãos deverão incluir nas suas despesas com pessoal seus benefÃcios previdenciários. O projeto determina que os Tribunais de Contas observem as normas emitidas pelo Conselho de Gestão Fiscal. A verificação da LRF deverá ser feita segundo os critérios estabelecidos pelo Conselho de Gestão Fiscal. A medida foi comemorada entre os técnicos.
"É necessário transparência e fidedignidade dos dados para possibilidade de atingir equilÃbrio fiscal o mais rápido possÃvel", defendeu Waldery.
3 PERGUNTAS PARA VILMA PINTO, PESQUISADORA DO IBRE/FGV
1. Qual sua avaliação do projeto aprovado?
Olhando o contexto geral, considero que foi boa a aprovação, pois aprimora a LRF (Lei de Responsabilidade Fiscal) trazendo mais clareza nas regras fiscais, além de gerar um incentivo ao ajuste fiscal de Estados e municÃpios. Com o plano de promoção do equilÃbrio fiscal, o governador ou prefeito pode escolher ao menos três medidas para adotar, incluindo privatização de estatais, redução de 20% dos incentivos fiscais, teto de gastos e adoção de regras iguais à s da União para a Previdência dos servidores.
2. Qual a perspectiva para Estados e municÃpios com sua aprovação?
Pensando no Plano de Promoção do EquilÃbrio Fiscal, acho que pode ser um incentivo para fazer um ajuste fiscal mais expressivo. Mas tem o risco de ocorrer como em legislações anteriores, caso as medidas não forem efetivas para promover o ajuste fiscal de forma mais estrutural.
3. Qual a vantagem da harmonização de regras?
O ideal seria a instituição do conselho de gestão fiscal, previsto na LRF, mas nunca implementado. Mas a medida atual ajuda a melhorar o entendimento da apuração das regras fiscais, o que pode ajudar na gestão fiscal.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Fonte: Estadão Conteúdo