24/10/2018 12h20
Fim de demarcação encerraria 129 ações
A promessa defendida pelo candidato Jair Bolsonaro de cancelar qualquer nova demarcação de terra indÃgena no PaÃs acabaria com 129 processos que hoje estão em andamento, em diferentes etapas, dentro do governo. Nessas terras vivem cerca de 120 mil indÃgenas, segundo dados da Fundação Nacional do Ãndio (Funai). Se somadas, as áreas em estudo envolvem 11,3 milhões de hectares, um território superior à área total de Pernambuco, com seus 9,8 milhões de hectares. Parte expressiva dessas terras está localizada em regiões afastadas do Norte e Centro-Oeste do PaÃs.
As mudanças propostas por Bolsonaro não ficariam restritas à s novas demarcações de terras. Nos casos das 436 terras indÃgenas plenamente reconhecidas - que somam 117 milhões de hectares, 14% do território nacional -, ele já defendeu em entrevistas que elas fossem abertas para empreendimentos de infraestrutura, como hidrelétricas, estradas, ferrovias e atividades de mineração. Nesses casos, a lei proÃbe a construção de projetos que tenham impacto direto em terras indÃgenas. Para modificar, seria preciso alterar a Constituição (são necessários três quintos da Câmara e do Senado para aprovar uma emenda).
Em relação ao cancelamento de novas áreas, o Ministério Público Federal já se posicionou afirmando que recorrerá à Justiça caso Bolsonaro interrompa os processos. A presidência da Funai afirmou, por meio de nota, que "independentemente do resultado das eleições, a fundação continuará cumprindo sua missão institucional, sempre respeitando a Constituição e a legislação vigente". Para o secretário executivo do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Cleber Buzatto, "o reconhecimento, a demarcação e a proteção das terras indÃgenas é um imperativo constitucional" e uma obrigação do governo federal: "Nenhum governo tem legitimidade para desrespeitar a Constituição brasileira."
Caso todos os 129 pedidos fossem regularizados, as terras indÃgenas chegariam a 15% dos 851,6 milhões de hectares do Brasil. Levantamento realizado no inÃcio do ano pelo Instituto Socioambiental (ISA) com a Funai apontou que há pelo menos 40 empreendimentos de grande porte previstos para cortar essas terras indÃgenas. São projetos como as hidrelétricas do Tapajós, no Pará, e a construção da linha de transmissão entre Manaus (AM) e Boa Vista (RR).
Sem menção
O plano de governo divulgado por Bolsonaro não faz nenhuma menção aos Ãndios ou processos de demarcação, mas em diversas ocasiões o candidato do PSL já deixou clara a sua posição sobre o assunto, ao criticar o que chama de "indústria da demarcação de terras indÃgenas". Bolsonaro prometeu que, uma vez eleito, "não vai ter um centÃmetro demarcado para reserva indÃgena ou para quilombola".
A demarcação de novas terras é uma prerrogativa do Poder Executivo. Cabe exclusivamente ao Ministério da Justiça, ao qual a Funai é vinculada, dar andamento a esses processos.
O setor produtivo tenta, há anos, regulamentar o artigo 231 da Constituição, para entrar nas terras indÃgenas. O artigo estabelece que os povos indÃgenas são os detentores de direitos originários sobre as terras que ocupam e que é competência da União demarcá-las, mas há pressão para que uma regulamentação da lei permita a exploração dessas terras, "ouvidas as comunidades afetadas, ficando-lhes assegurada participação nos resultados."
No Congresso, os parlamentares têm procurado avançar no tema por meio da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que retira do Executivo a função de homologar terras indÃgenas, transferindo essa função para os parlamentares.
Na semana passada, a Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja) apresentou suas reivindicações sobre o assunto a Jair Bolsonaro. Eles foram taxativos ao pedir o cancelamento de demarcação de novas terras indÃgenas.
Pesquisa
Na terça-feira, 23, a Ãndia Ysani Kalapalo, de tribo do Xingu, foi recebida por Bolsonaro em sua casa no Rio. Ele a recebeu por 15 minutos: "Eu sou uma indÃgena que pesquisa, que vai atrás. Vim tirar satisfação com ele em relação aos povos indÃgenas. Se vê por aà que ele vai metralhar povos indÃgenas, que vai demarcar (terras) indÃgenas. Hoje ele me confirmou que não vai fazer nada disso. O que ele disse é que o que está demarcado vai continuar demarcado." As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Fonte: Estadão Conteúdo