15/02/2021 17h54
'Indexador', alimento espalha alta de preços
O grande risco de uma inflação provocada pelos alimentos é a rápida contaminação para outros preços. Assim como os combustÃveis, os alimentos são preços de referência. Isto é, funcionam como uma espécie de indexador informal de outros preços e, por isso, contribuem para disseminar pressões altistas para as cotações dos demais produtos e serviços.
Em maio deste ano, menos da metade (45%) de todos os preços do Ãndice de Preços ao Consumidor Amplo- 15 ( IPCA-15) do Instituto Brasileiro de Geografia e EstatÃstica (IBGE) apresentava alta. Seis meses depois, em outubro, quase dois terços dos preços (64%) capturados pelo indicador estavam subindo. Essa medida que avalia a fatia de preços em alta no Ãndice de inflação como um todo é conhecida no jargão econômico como Ãndice de difusão.
"A alta persistente dos preços dos alimentos está se difundindo no IPCA adentro", alerta o economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), Fabio Bentes. Na sua avaliação, esse é um grande risco. "Costumamos dizer que o alimento funciona quase como uma tarifa, isto é, as famÃlias dificilmente conseguem driblar essa alta de preços, que acaba se espalhando para outros preços da economia."
Pressão cambial
Para a analista econômica Zeina Latif, os indicadores de inflação foram muito contaminados pela covid-19 e estavam artificialmente baixos. "A cesta do IPCA não estava refletindo um novo padrão de consumo. O que a gente observa é a pressão cambial aos poucos aparecendo", ressalta.
Ela destaca também que o repasse dos preços no atacado estava baixo e começa a aparecer um pouco mais. "Há um potencial grande para aumento de produtos industrializados, em função do que está acontecendo no atacado. Quando a gente pega os bens finais no IPA (Ãndice de Preços do Atacado), tira combustÃvel, produtos in natura, também estamos falando de uma variação de dois dÃgitos."
Para Fabio Romão, economista da LCA Consultores, ao mesmo tempo que a pandemia levou ao aumento de diversos itens, com destaque para os alimentos, alguns preços agrÃcolas já estão antecipando uma possÃvel superação da pandemia. "Além dos fatores internos, teve uma demanda muito forte de commodities, principalmente por parte da China, isso reduziu a oferta doméstica e os preços subiram."
Para os próximos meses, Romão diz que "ninguém sabe se o auxÃlio emergencial é o empurrão ou o combustÃvel do carro, que pode parar de andar quando o benefÃcio chegar ao fim. A economia ainda vai sentir um tranco no primeiro trimestre do ano que vem."
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Fonte: Estadão Conteúdo