13/06/2022 13h40
Inflação corrói Auxílio Brasil e põe em xeque estratégia eleitoral
Pesadelo do governo principalmente na seara dos combustÃveis, o processo inflacionário brasileiro tem promovido um golpe na vitrine social do presidente Jair Bolsonaro para as eleições deste ano: o AuxÃlio Brasil. Na sua implementação, o benefÃcio dobrou a capacidade das famÃlias na aquisição da cesta básica, mas esse poder de compra vem caindo rapidamente e já se equipara aos nÃveis do Bolsa FamÃlia no final do primeiro governo Dilma Rousseff (PT), mostram cálculos obtidos pelo Broadcast PolÃtico, sistema de notÃcias em tempo real do Grupo Estado. O fenômeno ameaça um dos pilares da estratégia adotada pelo chefe do Executivo para enfrentar nas urnas o ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
O AuxÃlio Brasil substituiu o Bolsa FamÃlia criado pelo PT e, em dezembro do ano passado, teve o piso elevado para R$ 400 e o público ampliado para 18 milhões de famÃlias.
Antes, o valor médio era de R$ 191, para 13,6 milhões de famÃlias. Ao ser criado, o programa foi visto como uma "boia de salvação" para os planos eleitorais do presidente e comemorado por aliados, sentimento que ainda resiste nos bastidores do Palácio do Planalto.
O novo valor mÃnimo do benefÃcio será tema de peças de marketing do pré-candidato à reeleição ao longo da campanha. "Hoje são 18 milhões de pessoas no Brasil que recebem o AuxÃlio Brasil, que substituiu o Bolsa FamÃlia. Até o ano passado era em média R$ 190", dirá Bolsonaro em vÃdeo a ser exibido na televisão ao longo de junho. Em seguida, o presidente perguntará a uma mulher se ela passou a receber os R$ 400 do benefÃcio. "Multiplicou por 5", destacará.
Com números à mesa, no entanto, se vê que o processo inflacionário amenizou a "multiplicação" bradada por Bolsonaro. Segundo cálculos do economista-sênior da LCA Consultores, Bráulio Borges, o AuxÃlio Brasil foi bem-sucedido em um primeiro momento, dobrando o poder de compra dos beneficiários na aquisição da cesta básica, que carrega insumos essenciais, mas essa capacidade vem sendo corroÃda rapidamente e tende a continuar, segundo as perspectivas para a inflação de alimentos.
Em dezembro, primeiro mês do novo benefÃcio, o valor médio recebido pelas famÃlias representava 57,9% do custo da cesta básica em São Paulo (R$ 690,51) - um salto sobre o Bolsa FamÃlia, que comprava logo antes 27,7% desse conjunto de produtos, considerando os números do Dieese.
Desde janeiro, porém, tal poder de compra tem caÃdo rapidamente e alcançou, em abril, 50,1% do valor da cesta (R$ 803,99). O porcentual é similar ao perÃodo à s vésperas da reeleição da ex-presidente Dilma Roussef, em 2014 (51,1%).
"O aumento do benefÃcio praticamente retomou o poder de compra do Bolsa FamÃlia que havia sido corroÃdo de 2015 a 2021, sem reajuste automático. Ainda é alto comparado com os anos anteriores, sem o auxÃlio emergencial, mas vem sendo corroÃdo rapidamente", destacou Borges. "Se o presidente pensou no aumento do benefÃcio como um grande impulsionador nas eleições, pode dar com os burros n'água. Até porque a mudança ocorreu no fim do ano passado e não provocou mudança significativa no Ãndice de desaprovação do governo", completou.
Borges opta por medir o poder de compra do programa em cestas básicas, porque a polÃtica é voltada à extrema pobreza e Ãndices de inflação tradicionais, como o IPCA e o INPC, acabam não refletindo os padrões de consumo desse público. "São pessoas que passam fome mesmo."
Para Felipe Nunes, cientista polÃtico e diretor da Quaest, a inflação é a responsável pelo fato de o AuxÃlio Brasil ter tido efeito limitado nas mais recentes pesquisas de intenção de voto. "As pessoas de baixÃssima renda não conseguiram ver o efeito positivo do aumento de seu poder de compra em função do AuxÃlio Brasil", afirma. De acordo com pesquisa Genial/Quast, 51% dos eleitores que recebem o AuxÃlio avaliam negativamente o governo federal.
Contraponto
Deflacionando o valor médio do benefÃcio por famÃlia pelo IPCA até abril, o economista Rodolfo Margato, da XP Investimentos, calcula redução de R$ 426,40 em dezembro para R$ 409,80 em abril. Mas pondera que o poder de compra é ainda um dos maiores desde a criação do Bolsa FamÃlia, em 2004. Essa avaliação desconsidera o perÃodo do "coronavoucher", em que o valor médio do benefÃcio social chegou ao pico de R$ 1.288.
Em outubro, o valor médio da polÃtica atual deve valer R$ 396,50, com base nas projeções da XP para o IPCA - alta de 34,3% ante outubro de 2021, mas queda de 7% frente a dezembro.
O IPCA subiu 1,06% em abril, acumulando alta de 12,13% em 12 meses. O Ãndice de maio (0,47%) foi divulgado na manhã da quinta-feira, 9, com desaceleração a 11,73% em 12 meses. No Boletim Focus do Banco Central, o mercado financeiro aponta inflação oficial em 2022 de 8,89%, sem considerar o pacote de combustÃveis discutido atualmente no Congresso.
Fonte: Estadão Conteúdo