22/07/2020 08h20
Ipea defende, pós-crise, desoneração temporária e extensão de redução de jornada
Em meio ao aumento do desemprego e à preocupação do governo com a retomada da geração de vagas no mercado de trabalho no momento pós-pandemia, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) defende uma desoneração temporária de tributos sobre salários, com maiores benefÃcios para contratos de jornada parcial, e a extensão dos instrumentos que permitem redução de jornada e salários na crise.
As sugestões constam no documento "Brasil Pós Covid-19", que é lançado nesta quarta-feira (22) e traz propostas de medidas para ajudar a impulsionar a retomada da economia brasileira após os impactos do novo coronavÃrus.
No caso da autorização para cortes de jornada e salário, o Ipea argumenta que os efeitos da crise devem permanecer mesmo após a fase mais aguda da pandemia, deixando empresas em situação de dificuldade. O foco dessa ação seria a preservação de empregos.
Por outro lado, o órgão reconhece que o governo não possui recursos suficientes para seguir bancando compensações aos trabalhadores atingidos por essas negociações. A União já destinou R$ 51,2 bilhões ao pagamento do benefÃcio emergencial para empregados que fecharam acordos de redução de jornada e salário ou suspensão de contrato.
Na proposta do Ipea, o formato dos acordos seria ajustado para caber no Orçamento. Não seria mais permitida a suspensão do contrato (que obriga o governo a pagar a parcela cheia do seguro-desemprego que seria devido em caso de demissão). As empresas que adotaram essa modalidade poderiam migrar para uma redução de jornada e salário de até 70%.
Já os acordos de redução de jornada e salário, que hoje permitem corte de até 70%, ficariam restritos a diminuições de 25% e 50%. Na avaliação do Ipea, a medida poderia vir acompanhada de maior adiamento em pagamento de tributos para as empresas que mantiverem os pagamentos dos salários, ainda que de forma parcial, e oferta de empréstimos em "condições facilitadas" aos trabalhadores.
Além da preservação de empregos, os técnicos do órgão defendem uma polÃtica desenhada para alavancar a geração de novos postos de trabalho. Para isso, propõem uma desoneração temporária de tributos sobre salários, para que as companhias tenham incentivos nas contratações. Os benefÃcios seriam diferenciados de acordo com o contrato: um empregado com jornada parcial (20 horas) traria incentivo maior para a empresa, com redução de 15 pontos porcentuais na alÃquota de 20% de contribuição sobre a folha, do que um de jornada integral (40 horas), com corte de 5 pp.
O foco da desoneração seria a contratação de funcionários com salário equivalente a até três salários mÃnimos (R$ 3.135). O estudo não detalha qual seria o custo da polÃtica, mas propõe como fonte de recursos uma taxação adicional sobre horas extras pagas aos trabalhadores e uma alÃquota extra em contratos que ultrapassem as 40 horas semanais.
Dividido em quatro eixos, o estudo do Ipea traz uma série de sugestões de iniciativas para melhorar o ambiente de negócios no Brasil e destravar os investimentos. Há ações focadas nas atividades produtivas e reconstrução das cadeias de produção, inserção internacional, investimento em infraestrutura e proteção econômica e social de populações vulneráveis - o que inclui um benefÃcio universal infantil para menores de 18 anos, ao custo de R$ 26,6 bilhões. O programa seria feito a partir da unificação de benefÃcios do Bolsa FamÃlia, salário famÃlia e dedução de dependentes do Imposto de Renda da Pessoa FÃsica (IRPF).
O presidente do Ipea, Carlos von Doellinger, afirma que o documento é um "ponto de partida" para as discussões que começam a se aprofundar no governo. "Tentamos mostrar caminhos especÃficos. Selecionamos os mais viáveis e os que teriam maior impacto na economia", diz.
O estudo destaca ainda a necessidade de continuar o ajuste nas contas públicas e aprovar reformas para controlar a trajetória de gastos, afetada devido à necessidade do governo de abrir os cofres para bancar ações de combate à covid-19. No texto, os pesquisadores defendem a aprovação das reformas do Pacto Federativo, que garante instrumentos para conter o avanço de despesas na União e nos governos regionais, da desvinculação dos fundos e a reforma administrativa, que ataca a despesa com pessoal do governo.
A partir dessas medidas de ajuste, o governo já conseguiria ter uma recuperação em 2021, com crescimento de 3,6% do PIB no ano que vem, após um tombo estimado em 6% em 2020.
Fonte: Estadão Conteúdo