30/09/2021 17h10
Linhão sai sem acordo para perdas de indígenas
A Fundação Nacional do Ãndio (Funai) deu aval para o inÃcio das obras do linhão Manaus (AM) - Boa Vista (RR) sem definir um acordo básico e obrigatório do processo de licenciamento do projeto: quais serão as compensações socioambientais que os indÃgenas da região devem receber devido aos impactos que serão causados pelo empreendimento.
O Estadão teve acesso ao ofÃcio que o presidente da Funai, Marcelo Xavier, encaminhou ao Ibama na tarde de segunda-feira. No documento, ele dá autorização para que o projeto seja realizado e, em uma breve lista de condicionantes ambientais do projeto, afirma que uma das exigências será "implementar grupo de trabalho para monitoramento dos impactos potenciais e discussão da valoração da compensação acerca dos impactos irreversÃveis". Não há nenhuma informação sobre como funcionará esse grupo, como será composto e qual será sua agenda de trabalho.
A linha de transmissão de energia, também conhecida como "linhão de TucuruÃ", ficou na gaveta do Ministério de Minas e Energia por uma década, depois de ser leiloado, em setembro de 2011. O motivo da paralisação foi o impacto que a linha impõe à terra indÃgena Waimiri Atroari, onde hoje vivem mais de 2.300 indÃgenas. Dos 720 km da linha de transmissão, 122 quilômetros passam no meio de suas terras. Os indÃgenas não se posicionavam contra a obra de energia, mas exigiam ser consultados.
Ontem, junto com o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, o presidente Jair Bolsonaro esteve em Boa Vista, onde anunciou o inÃcio das obras. "Ontem (terça-feira) à noite, o último obstáculo para o inÃcio das obras foi vencido. E nós temos uma pedra aqui do lado, a pedra fundamental para o inÃcio da construção do linhão", afirmou Bolsonaro. As obras estão previstas para durar 36 meses.
Em resposta à decisão de liberar o projeto, a associação que representa os indÃgenas já acionou o Ministério Público Federal para que peça a nulidade da licença de instalação da obra.
"Soubemos da informação pela imprensa. Fomos pegos de surpresa. O povo Kinja não concorda com o que o governo decidiu. Por isso, fizemos o protocolo junto ao Ministério Público Federal do Amazonas, na pessoa do procurador da República, Fernando Soares, com uma solicitação formal feita pela Associação Comunidade Waimiri Atroari, no sentido de que o Ministério Público se manifeste sobre a expedição indevida, ilegal, inconstitucional dessa licença de instalação", afirmou ao Estadão o advogado da associação, Harilson Araújo.
Ele não descarta a opção de ir à Justiça para tentar anular a decisão. "Se caso o governo não voltar atrás e não suspender essa licença de instalação até que o acordo seja firmado, vamos tomar todas as medidas judiciais cabÃveis para pedir a sua nulidade."
Impactos
Por lei, o Ibama é o órgão responsável por liberar a licença ambiental que autoriza a obra. A Funai, porém, responde pela temática indÃgena e deve ser consultada por anuência ou não de um projeto, quando este envolve impacto a terras e vidas dos povos originários.
O plano básico ambiental cita 37 impactos à terra indÃgena, dos quais 27 são irreversÃveis e terão de ser devidamente indenizados e mitigados. Alguns se esgotam com a construção da obra, mas outros serão permanentes. É sobre esses impactos que não se sabe como será a compensação.
Por meio de nota, a Funai declarou que "o processo de licenciamento atendeu à s regulamentações nacionais e internacionais, o que incluiu a consulta livre, prévia e informada à s comunidades indÃgenas afetadas, bem como o cumprimento do Protocolo de Consulta Waimiri Atroari, estabelecido pelos indÃgenas".
Segundo o órgão federal, "os programas ambientais que visam mitigar ou compensar os impactos da passagem da linha de transmissão na terra indÃgena foram definidos entre técnicos da empresa responsável pelo empreendimento e lideranças indÃgenas, conciliando o processo de consulta com o procedimento administrativo de licenciamento ambiental".
A fundação afirmou ainda que "a aprovação se deu em reunião convocada pela comunidade indÃgena em agosto deste ano".
Os 2,3 mil indÃgenas da terra Waimiri Atroari vivem em 82 aldeias distribuÃdas na região. Por vários anos, a Funai esteve ao lado do povo indÃgena na avaliação do projeto, em busca de respostas e estudos técnicos sobre a viabilidade da obra. Na gestão atual do órgão, porém, seu posicionamento se inverteu e a fundação passou a apoiar o inÃcio das obras.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Fonte: Estadão Conteúdo