27/07/2021 08h40
Pandemia afeta mais as cidades desiguais
Os brasileiros que vivem nos municÃpios com maior acúmulo de "comorbidades socioeconômicas", como baixo acesso à água e ao tratamento de esgoto, densidade dos domicÃlios (muitas pessoas dividindo o mesmo cômodo) e diferença de renda entre mais ricos e mais pobres, ficaram mais suscetÃveis à s consequências da pandemia, especialmente em relação à taxa de óbitos por 100 mil habitantes.
É o que revela pesquisa da Escola Nacional de Administração Pública (Enap), que traz um mapeamento da pandemia nos 5.570 municÃpios brasileiros e revela uma nova geografia para o PaÃs: a da crise da covid-19.
Um dos principais achados da pesquisa mostrou que os municÃpios mais pobres, com menor renda, não necessariamente foram os mais afetados pela covid-19, mas as cidades onde há maior desigualdade, com muitos ricos e muitos pobres convivendo no mesmo espaço.
O pior cenário está em municÃpios com média de 27 mil habitantes, um grupo de 459 cidades cujos indicadores socioeconômicos e territoriais as deixaram mais vulneráveis aos efeitos negativos da pandemia do que a média do PaÃs. Nesse grupo, estão municÃpios como Chapadinha (MA), Nova Araçá (RS), Pimenteiras do Oeste (RO) e Vila Bela da SantÃssima Trindade (MT). A taxa de óbito foi de 39,8, ou seja, a relação entre o número de mortes por 100 mil habitantes é mais do que o dobro da média nacional.
Nessas cidades, metade dos domicÃlios tem quartos compartilhados por mais de duas pessoas. Esse grupo de cidades ainda se destaca negativamente no quesito infraestrutura, porque mais de um terço tem abastecimento de água e tratamento de esgoto inadequados (enquanto a média nacional é 9%). É um grupo bem heterogêneo: tem municÃpio com 2 mil habitantes e cidade com 79 mil.
A pesquisa dividiu os municÃpios em sete regiões e avaliou sete indicadores socioeconômicos: infraestrutura, o Ãndice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M), auxÃlio emergencial, densidade das casas (quantas pessoas dormem no mesmo cômodo), renda per capita, vulnerabilidade à pobreza e coeficiente de Gini (que mede o grau de concentração de renda). Um dado que chamou a atenção no estudo é que, em 134 cidades brasileiras, oito em cada dez pessoas têm renda domiciliar inferior a R$ 255 por pessoa.
Um exemplo tÃpico é o dos municÃpios de São Paulo e Rio de Janeiro, que são os mais populosos do Brasil. O rendimento médio de cada habitante é o maior do PaÃs (R$ 1.504), porém esses recursos não são divididos de maneira equitativa entre a população, o que faz com que o coeficiente de Gini também seja o maior de todos.
Uma das autoras da pesquisa, Janaina Lopes Pereira Peres conta que a ideia do trabalho surgiu depois que se mostrou equivocada a percepção, no inÃcio da pandemia, de que o vÃrus era "democrático" e que todos estavam no "mesmo barco". "Não demorou muito para a pandemia mostrar que muitos estavam enfrentando esse mar numa jangadinha e outros, num transatlântico", diz.
Para o coordenador-geral de pesquisa da Enap, Cláudio Shikida, os dados mostram uma realidade complexa. "Não tem aquela coisa de Região Sul e Sudeste muito bom e Norte e Nordeste muito ruim. Dentro das próprias regiões, tem uma riqueza de situações."
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Fonte: Estadão Conteúdo