06/11/2018 15h51
Para servidores do IBGE, Bolsonaro mostra total desconhecimento sobre desemprego
Gerou indignação e preocupação entre os servidores do Instituto Brasileiro de Geografia e EstatÃstica (IBGE) a fala do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) desqualificando a produção de dados de desemprego no PaÃs. Ele chamou de "farsa" os números atuais, divulgados mensalmente pelo órgão, vinculado ao Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão e fundado em 1934. Os servidores interpretaram que Bolsonaro demonstrou, com suas declarações, completo desconhecimento do conceito de emprego, e também da metodologia utilizada pelo corpo técnico, que segue padrões internacionais.
Na segunda-feira, 5, em entrevista à Band, Bolsonaro disse que pretende mudar a forma como se calcula oficialmente o número de desempregados. "Vou querer que a metodologia para dar o número de desempregados seja alterada no Brasil. O que está aà é uma farsa", afirmou, sem citar especificamente o IBGE, mas respondendo a uma pergunta sobre os últimos dados do instituto referentes à contÃnua queda do desemprego.
"Quem recebe Bolsa famÃlia é tido como empregado, quem não procura emprego há mais de um ano é tido como empregado, quem recebe seguro-desemprego é tido como empregado. Temos que ter uma taxa não de desempregados, e sim de empregados. Não tem dificuldade para ter isso aà e mostrar a realidade para o Brasil", declarou.
"A metodologia é aceita internacionalmente. Seguimos orientações da ONU e da Conferência Internacional dos EstatÃsticos do Trabalho. O cálculo não tem nada a ver com o Bolsa FamÃlia. A pessoa é considerada ocupada se tiver trabalhado no perÃodo de referência da pesquisa. Também não há relação com seguro-desemprego nem com busca por emprego. É possÃvel discordar, mas tem que fundamentar. Dizer que vai mudar é muito grave, porque entramos na casa das pessoas, nosso trabalho é calcado na credibilidade", avaliou uma representante da Associação de Servidores do IBGE (ASSIBGE) em entrevista ao jornal "O Estado de S. Paulo", que, temendo retaliações, preferiu não se identificar.
Em nota à imprensa, a ASSIBGE pontua que "o IBGE segue padrões metodológicos internacionais em suas pesquisas, com a finalidade de que as estatÃsticas brasileiras sejam comparáveis à s dos demais paÃses do mundo", que "o IBGE é reconhecido nacional e internacionalmente pela qualidade do seu quadro técnico e pela credibilidade das suas informações" e que "dentre os princÃpios que regem seu funcionamento estão a independência polÃtica e a autonomia técnica na definição de suas metodologias".
A nota diz ainda que "a intervenção polÃtica em órgãos oficiais de estatÃsticas já se mostrou desastrosa para a credibilidade de instituições de pesquisa, como ocorreu recentemente na Argentina" e que "o corpo técnico do IBGE nunca foi fechado à contribuição da sociedade brasileira para o aperfeiçoamento das suas pesquisas; a própria implementação da Pnad ContÃnua foi resultado de discussões no âmbito do Fórum do Sistema Integrado de Pesquisas Domiciliares (SPID), que remontam a 2006".
A ASSIBGE destaca que "a metodologia das pesquisas não depende da vontade de qualquer governo, pois somos um órgão de Estado, a serviço da sociedade brasileira" e aproveita para pedir urgência na realização de concurso público. "Nossa missão é 'retratar o Brasil com informações necessárias ao conhecimento de sua realidade e ao exercÃcio da cidadania'. Continuaremos a fazê-lo com a dedicação de sempre, mesmo que isso não agrade aos governantes. Os polÃticos passam, a credibilidade do IBGE fica!", termina a nota.
Fonte: Estadão Conteúdo